segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quem conta mais um poema canta outro canto de nova mente em outro ponto do planeta


SONETO DE REPENTE

Un soneto me manda hacer Violante,
que en mi vida me he visto en tanto aprieto;
catorce versos dicen que es soneto:
burla burlando van los tres delante.

Yo pensé que no hallara consonante
y estoy a la mitad de otro cuarteto,
mas si me veo en el primer terceto,
no hay cosa en los cuartetos que me espante.

Por el primer terceto voy entrando,
y parece que entré con pie derecho,
pues fin con este verso le voy dando.

Ya estoy en el segundo, y aun sospecho
que voy los trece versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.


(Lope de Vega)




Ao Conde de Ericeira, pedindo louvores ao poeta não lhe achando ele préstimo algum.

 
Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.


(Gregório de Matos e Guerra)





Tercinhos epigramáticos a vosso gabo, Rodrigo Mendes, que não sabia estar o Poeta com Gregório na garupa do poema de Lope parodiandando

Se digo Rodrigo
e, depois, trigo;
pobre rima, arrimo.

Se somente digo
um nome, Rodrigo,
firo a rima, rico!

Mas, se a penas sigo
brincando, Rodrigo;
acabei um poema!


(Luiz Filho de Oliveira)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia

F. Gilásio, "Barco no rio Parnaíba".


            Se todos cantam sua terra (e muitos eus já cantaram a sua!), por que os “poetas universais”, os “poetas federais” e até os “poetas estaduais” querem regrar a poesia de uns tantos “poetas municipais”, vilões? (sem trocadilhos, por favor). Por que querem negar essa bendita “universalidade” aos temas locais desses poetinhas menores, se ela é somente terrena, e olhe lá?
            Leiam bem oque estou escrevendo: em matérias como essa de tema de poema, eu prefiro ficar russo a seguir brasileiro. Cês esqueceram oque disse o velho escritor russo nosso amigo Leon? “Canta a tua aldeia e serás eterno”. E digo mais: Canta oque quiseres e serás o poeta do como o-escreveste! Eis aí cada metade (as partes) do tudo oque interessa: a intervenção de um artista nessa matéria prima & derradeira, que é a linguagem, a língua aqual o poeta põe pra fora, pra fazer oque sua competência linguística manda, aliada ao tratamento que ele, artista da palavra, dá aos conteúdos de sua ficção (prosa ou verso), pontos de vidas, de vivas perspectivas. Assim deve sê-lo, assim o-é! Lembra Osvaldo? “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo”. Olhos, mãos e ouvidos livres!
            Recuerdo: não vou aqui lembrar o poeta negro estadunidense Countee Cullen recebendo aquela língua na cara, daquele menino branquelo. Não, mas o-parodio, se é que alguém virá dizer que não no-posso ( vendo como é o contrário?): eu vivi os meus estudos todos, mas de tudo oque ocorreu neles, eu lembro somente, no ensino fundamental, o fato de um professor arrogante e mal preparado (e quantos ainda há por essas escolas de nosso país, sobretudo nas públicas!) me-dizer, ao questionar junto a ele um suposto erro presente no livro didático: Quem é você pra questionar um livro didático, que o autor levou anos pra fazer? Que arrogância arrotando subserviência! Pena não ter podido dizer nada a ele; eu era somente uma criança querendo participar. Aprender a lição a fim de poder ensinar outras tantas em retribuição ao sentido universal de ser humano, hermano.
            Maior pena ainda (esta, arrancada de uma asa de avião) é que aquele professor, tido como “o cara” na escola, talvez não tenha vivido o suficiente pra aprender o contrário, pois quem mo-disse (isso é em sua homenagem) foi uma professora (o contrário?) que a ninguém mais agradava, porquanto era deveras achincalhada por meus colegas de universidade; tida como “velha”, “gagá” e outras sátiras virulentas. Masporém foi ela quem me-passou esta lição de que eu poderia, sim, questionar os livros, entender-lhes as falhas, apontar-lhes os erros, poisque havia muito a ser reparado: da coerência das ideias aos aspectos gráficos (digitação, ausência/troca de imagens, informações desencontradas etc.). Que lição mais leve, mais humana (errar é...).
            A partir dessa injeção de autoestima da professora Alzair (nem sei se o nome é esse, se se-escreve assim, e isso não é desconsideração a ela, não, pois eu ainda lhe-sou muitíssimo grato por ter-me-salvado daquele inferno de não pensar ser capaz de participar), depois disso, pude recuperar oque havia perdido quando fui desestimulado por aquele “cabra despreparado”. Por conta dessa luz no início do meu túnel, vesti o meu tonel e, em seguida, pedi a Alexandre pra sair da frente de meu Sol. Quem é cínico? Oque eu quero é dizer que me-repito e aos quês porque o-quero, e ai! E pronto. Ponto-parágrafo.
            Perito, repito: não quero seguir brasileiro; brasileiro conselho de não fazer versos sobre acontecimentos, acerca de sua cidade, de seus lugares-comuns, cercados de memória; a despeito (e sem tê-lo!) de deleitar-me tanto com a poesia de Carlos (veja a intimidade, foi um deles que ma-ensinou), de Manuéis, de Joões, de Mários... Vários! Esse eco é quase inevitável para a maioria dos poetas contemporâneos (mormente os “maiores”), osquais passaram pelos bancos da educação formal. Comigo isso também acontece: sou um poeta filho da escola, vistolidouvido que, nesse ambiente (e aqui vai uma parcela de verdade de Hippolyte), pude manter contato com essa arte linguística, ligada ao teatro e à música. Contudo, como eu disse antes, quando mestra Alzair me-desipinotizou daquela postura submissa imposta por aquele “mestre de m...”, compreendi a importância (na maioria das vezes) da opinião, do juízo, da intervenção do outro, na formação de nosso próprio caráter. Clarescuro que eu sigo oque meus mestres mandaram; também passo isso a meus pupilos, discípulos, alunos, filhos... Porém, também les-repito que “o cala-boca já morreu”. Quem deve mandar na sua poesia é o próprio poeta, isso é oque interessa hoje a esses escritores contemporâneos, acredito.
            Porisso, na minha poesia, respeitados todos os meus mestres, eu não faço tudo oque eles me-ditam. Não nos-repito, arcaindo; trabalho-eles na minha língua de agorinhaquimesmo, do jeito que eu les-vivo: neologíssimos. Há de haver (por tantos) a minha parte, sobre tudo & todos eles. Minha contribuição. Sempre penso nisso quando ando a trabalhar um texto. É, devo contribuir porque devo muitíssimo a esses mestres. Outronão, eu cantarei de minhas terras tão poeticamente, que faça sentir a mente que não sente. Não nego que o tema é algo importante para aceitação do texto; todavia, em nome da poesia, o trabalho linguístico e a perspectiva sua é que fazem a diferença. Lembra o Bruxo quando disse: “a paisagem depende do ponto de vista”. Podem vir, portanto, os modernos impondo suas mortes a poetas e a poéticas, mas, poetas de todas as esferas do planeta, e, principalmente, meus bastante leitores, nunca deixarei de escrever quando a maçã cair na minha cabeça e a ideia vir de-com-força, exigindo vida, ser escrita humana, humano ARTEfato. Poemas são lugares, são fatos, vêm de alguns; nem que sejam comuns, surrados. E daí? Por que não reciclá-lo se essa postura do ecologicamente sustentável pode ser, sim, transplantada à poesia. Sustentabilidade poética: vamos usar alguns temas sem esgotá-los. Nem que seja de revestrés, veja do seu modo.
            Apesar de buscar, no meu fazer-me-poeta, essa tal de “metáfora nova”, esse criar soluções originais para a poesia; não deixo de constatar o óbvio de que alguns temas são inevitavelmente retomáveis (esgo...?) na poesia de poetas de toda a Terra e mais particularmente de nossa terra, nosso universo. O rio Parnaíba, por exemplo, oqual parece mais do Piauí que do Maranhão, a primeira vez em que ele apareceu em literatura foi num trecho do “poema filosófico” O Ímpio Confundido ou Refutação a Pigault le Brun em que se Demonstra pela Filosofia e pela História a Existência de Deus e a Verdade da Religião Católica, do poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Catello-Branco, publicado em Lisboa, em 1835, 1836 e 1837.
            É evidente, pelo próprio titulo do livro, que o tema dele não é o rio Parnaíba. Como o-fez François-René de Chateaubriand em 1802, no seu Génie du Christianisme, Leonardo, nesse poema, busca um objetivo claro: provar a existência de Deus pela Filosofia e pela História (diferentemente de Chateaubriand, que provou pelas “maravilhas da natureza”). Essa ligação com o Gênio francês, pode ser evidenciada não somente pelas estadas de Leonardo na Europa, como, principalmente, pelo seu conhecimento sobre História (brasileira, portuguesa e europeia!). Assim, ao defender o cristianismo das “ofensas” de Pigault le Brun, Leonardo se coloca como um poeta de tendência romântica (lembremo-nos de que os barrocos colocavam-se como contritos, enquanto os árcades eram pagãos, em literatura), pois, em seus versos, lê-se aquela tendência “revolucionária” que os textos românticos disseminaram àquela época:

Eu Brasileiro sou. O solo habito
Que o Parnaíba rega. Pavor tive,
Hesitei; mas, enfim, deliberei-me:
Creio, animou-me invisível Ente.
Da pena lanço mão, esta obra escrevo
E o meu trabalho não baldar espero.
Se há Leitor obstinado, há também dócil:
Aquele o Vício ama e o Erro busca:
Este busca a Verdade e ama a Virtude.
Eis o homem sensato e eis com quem conto.

            É certo que Leonardo não é o “poeta do velho monge”; esse epíteto serve muito bem a outro escritor do Piauí: Antonio Francisco da Costa e Silva ou, simplesmente, Da Costa e Silva. Em poemas menores que O Ímpio Confundido, sonetos decassílabos e alexandrinos, em seu livro de estreia Sangue, de 1908, o vate amarantino ora tendo o Parnaíba como tema (Rio das Garças) ora como parte importante dele (Saudade), grava o rio de sua aldeia em sua poesia como se-ferra um gado, com autoria e autoridade. A partir de então, ele não deixa de incluí-lo como temática reincidente em sua poesia, oque justifica o epíteto acima. Mutatis mutandis (vixe!), sem nenhum exagero, esse epíteto também poderia ser atribuído naturalmente a um dos maiores prosadores da literatura brasileira em ação na atualidade, o piauiense Francisco de Assis Almeida Brasil, já que em sua obra o rio Parnaíba aparece como cenário de tantas histórias.  No premiado Beira Rio Beira Vida (1965), com que inicia a sua Tetralogia Piauiense, o Velho Monge chega a ter quase o status de personagem, pela carga dramática que encerra.
            Posto que eu não seja nascido em aldeia alguma que fosse banhada, alimentada, transportada pelo rio Parnaíba (eu sou de Campo Maior de nascimento, mas sou de Alto Longá, de vivência, meu rio é outro!), por conta da minha própria conta, faço uso da minha liberdade conquistada desde a madureza do meu quase-livre-arbítrio, e vou cantar o rio de tantos poetas, do meu canto, do meu ponto de espera da barca, no cais do Troca-troca, onde ele me-pegou de assalto e levou-me a este poema:



onde uma barca veio a poeta buscar (a mandado)


– psiu! – diz seo rio –  
vamos passear em mim
enquanto eu não vou... sim?

– sim – disse a mavioso convite (e mais disse!) –
vou embarcar assim sem a tal da catacrese – rio nativo
e navegar-te rio de muitos dito rio de minha terra
nossa! tanta terra! de tantos poetas & de gente tanta
que rio – rio – porque te-reverso uma margem apenas
emerso duma taba de imenso contentamento poti
como um piaga a desafiar-te-desafinar – rio grande

pois sei: és do filósofo antigo
o não-mesmo-rio-porque-passaste
e depois que a tua ira foi apascentada por Leonardo
– estando poeta-mentecontínua-revolucionário –
ficou mais fácil ir ter contigo ao teu catre alegorizado
mesmo agora em estado leito lento paciente porque
se canos & projetos já te-levaram as lavadeiras – rio dejeto
a largo canto canto o largo das águas em verso de monge velho

mas à margem de tuas melhores canetadas – rio verba
aquiagora levas a hidromassagem aos motéis urbanos (um caso)
onde secamente em programas as garotas falam falsas propagandas
beiravidando contra o rumo do mundo de Mundoca novamente    
e marginália mundana a cidade ainda te-reduz (o descaso)
de água e cais e caminho e mesa e banho
a esgoto latrina lixeira tema de campanhas
campanas pro dinheiro mesmo!

não mais Letes (esquece!)
nem Estiges nem Infernos  (estigmas do poético)
nestes versos te-quero música apenas: let’s play that!

e mais que o mar da costa – rio dádiva
vem e silva selvas de brisa vivas
e se o mar é longe e longo em linha
tu – rio – és doce e não amaro a toda a vida
linguagem para tudo quanto praias:
praio doce coroa & brotinhos

no averedado da verdade de teu chão – rio caminho
e em filme grave gravo estas palavras em eco
lógico: não caço garças nem choro em coro
só aporto lado a lados: leito ladino (trino) se
margem a margens (imagens emergindo)
te-desavesso os versos líquidos – rio fio

todavia se a nado não cheguei a
nada de novo sob teu céu sobre as águas
liquido: aceito passear em ti nessa barca
por onde tropica o sol destas praças
(veio)

pronto, seo moço?

(rio)



(De Teresina a Timon, sôbolo rio Parnaíba, abarcando-o.)


terça-feira, 10 de novembro de 2009

É, meu Poeta, e há ainda tantos muros a serem derrubados para que a Humanidade aprenda a respeitar à Terra e a si própria



 
ÓDIO BENDITO

Meu ser é como o ser perverso e doente
Do ladrão, do bandido, do assassino...
Corre em meu sangue o fluido viperino
Do vírus tenebroso da serpente.

Mente-me o olhar; mente-me o lábio; mente
Dentro em meu peito o coração tigrino,
Zombando dos caprichos do Destino,
Num ódio estranho, altivo e repelente...

Bendito este Ódio aos homens miseráveis,
Aos torpes embusteiros execráveis
E aos traidores do Amor e da Verdade!

Bendito este Ódio bom, santo, orgulhoso,
Que me oferece o torturado gozo
De querer mal a toda Humanidade!


(Da Costa e Silva, em ‘Sangue’, 1908.)



sábado, 7 de novembro de 2009

O doce estilo novo do velho vate italiano, qu’inda segue cantando: “Amor com sue promesse lusigando...”



S’amor non è, che dunque è quel ch’io sento?
Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa è quale?
Se buona, ond’è l’effetto aspro mortale?
Se ria, ond’è sì dolce ogni tormento?

S’a mia voglia ardo, ond’è’l pianto e’l lamento?
S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s’io nol consento?

E s’io’l consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trovo in alto mar, senza governo,

Sì lieve di saber, d’error sì carca,
Ch’i’medesmo non so quel ch’io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardendo il verno.


(Francesco Petrarca)





Se amor não é, qual é este sentimento?
Mas, se é amor, por Deus, que cousa é tal?
Se boa, por que tem ação mortal?
Se má, por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer, por que o lamento?
Se sem querer, o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento!

E, se eu consinto, sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou por alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca,
Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio.
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.


(Tradução de Jamil Almansur Haddad)



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Outro filho de Pablo tocou a terra e deixou cair algo nela, sua fala: "miro en la oscuridad hacia tantas ausencias"

Las Manos Negativas

Cuando me vio ninguno
cortando tallos, aventando el trigo?
Quién soy, si no hice nada?
Cualquier hijo de Juan
tocó el terreno
y dejó caer algo
que entró como la llave
entra en la cerradura:
y la tierra se abrió de par en par.

Yo no, no tuve tiempo
ni enseñanza:
guardé las manos limpias
del cadáver urbano,
me despreció la grasa de las ruedas,
el barro inseparable de las costumbres claras
se fue a habitar sin mí las provincias silvestres:
la agricultura nunca se ocupó de mis libros
y sin tener qué hacer, perdido en las bodegas,
reconcentré mis pobres preocupaciones
hasta que no viví sino en las despedidas.

Adiós, dije al aceite, sin conocer la oliva,
y al tonel, un milagro de la naturaleza,
dije también adiós, porque no comprendía
cómo se hicieron tantas cosas sobre la tierra
sin el consentimiento de mis manos inútiles.

(Pablo Neruda, em ‘Las Manos del Día’)




As Mãos Negativas

Quando me viu alguém
cortando talos, peneirando o trigo?
Quem eu sou, se não disse nada?
Qualquer filho de João
tocou o terreno
e deixou cair algo
que entrou como a chave
entra na fechadura:
e a terra se abriu de par em par.

Eu não, não tive tempo
nem ensinamento:
guardei as mãos limpas
de cadáver urbano,
me desprezou a graxa das rodas,
o barro inseparável das vestimentas claras
se foi a habitar sem mim as províncias silvestres:
a agricultura nunca se ocupou de meus livros
e sem ter o que fazer, perdido nas bodegas,
concentrei-me em minhas pobres preocupações
ainda que não tenha vivido senão nas despedidas.

Adeus, disse ao azeite, sem conhecer a oliva,
e ao tonel, um milagre da natureza,
disse também adeus, porque não compreendia
como se fizeram tantas coisas sobre a terra
sem o consentimento de minhas mãos inúteis.


(Tradução de Luiz Filho de Oliveira)




terça-feira, 27 de outubro de 2009

Osvaldo, diz pro Mário que nosso encontro lá no Piauí é sempre intempestivo (mesmo na rede)



ondeAndradeandaretooutropoetatorto

brasileiro-acorde
te-acordo por não ter-te-visto ali
lá no Piauí!: lar do primitivo
dos humanos nossos de ondes passados
(né Niède?  né Chovenágua?)

e te-acordo por não ter contigo
café bebido e bebida cajuína cachaça vinho
– tragam pra mim um coquetel paulista:
mar + rio... tanto mar tanto rio... please!
e bebamos ao possível poema vivo
e a nota (não conta) cante o tom plurilíngue
e a harmonia ao som enxame!

masporém brasileiro-ser-guerreiro
num ringue acre pronta pra nos-matar
a escureza está – também a virgem mata! –
tangendo o ataúde o cantocalar
e nós cantamos este canto miscigenado:
tupi and not tupi
globe theatre ou municipal aqui
nesse chão que é também meu
brasileiro que nem eu!

e sem muito papo mansamente em porém
cena resistência – manosabença
pois nos jamais veremos entanto
te-sinto – meu poeta nativo – onde
este eu brasileiro que nem tu anda
ruminando outro brasileiro dormido
a le-desejarcuma enorme diferença
de crença e de desejo e de pensamento – o bem
da humanidade: aos bondes! de carrada!

e ainda brasileiro amigo: é bom
ter passado in tua vida in ronda paulistana
si rota policio circandandobliquamente
in estradas Andrades andadas extratos
de alguéns que nem eu & tu & ele
brasileiros que nem tudo!


(Em São Paulo, ante a entrada, na calçada do teatro municipal.)

sábado, 24 de outubro de 2009

Countee Cullen pôs a língua pra fora e escreveu um poema; então, um afrojamaicano grita com ele: “In the abundance of water, the fool is thirsty”



O poeta estadunidense Counte Cullen foi um dos muitos poetas afrodescendentes que apareceram nas bancas e nas livrarias, após a eclosão do Negro Renaissance, movimento afroamericano, surgido em New York, na década de 1920, no bairro do Harlem, o gueto dos negros estadunidenses que vieram do Sul do país por causa do término da Guerra de Secessão. Não ficou tão conhecido como o seu compatriota Langston Hughes (The Weary Blues, 1926) ou mesmo como o poeta Claude MacKay (If We Must Die, 1919, e Harlem Shadows, 1922), um dos precursores desse “Renascimento Negro” do Harlem.
             O que Countee Cullen tem em comum com esses poetas e outros escritores, músicos, atores e artistas plásticos estadunidenses dessa época é a “tomada de consciência de ser negro”, advinda, principalmente, das ideias de Willian Edward Burghard Du Bois, a quem Zilá Benrd chamou o “pai do movimento”. Essa postura dos escritores afroamericanos despertou interesse dos editores brancos; com isso, a literatura afrodescendente tomou novos rumos nos Estados Unidos e, consequentemente, em outros países.
Não foi à toa que movimentos posteriores como o Indigenismo haitiano ou o Negrismo cubano (oqual nos legou um poeta do porte de Nicolas Guillén, Motivos de son, 1930) ecoaram também na Europa com a Negritude francófona em Paris (Aimé Cesaire, Leopold Sedar Senghor e Leon Damas). Ecos do Negro Renaissance também são sentidos nos poemas do brasileiro Solano Trindade (Cantares do meu povo, 1961), a quem os estudiosos apontam como o primeiro em nossas letras a assumir essa mesma postura dos escritores negros estadunidenses; a despeito, é claro, de ter havido em nosso país , no século XIX, alguns precursores dessa atitude, um deles é o poeta Luiz Gama.
O certo é que as vozes negras desses poetas todos cantam, a partir da década de 1920, quase em uníssono, tanto a assunção da negritude e da herança africana quanto as queixas de uma gente atingida pela Diáspora trágica, que foi marcada na pele de povos da África, em tantos países, sobretudo, nos das Américas. Canta-nos, Countee, o teu canto negro:



INCIDENT

Once riding in old Baltimore,
Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
His tongue and called me: “Nigger”.

I saw the whole of Baltimore
From May until December:
Of all the things that happened there
That’s all that I remember.

(Countee Cullen)



INCIDENTE

Certa vez andando em Baltimore,
Tão alegre, em regozijo,
Vi um baltimoreano
Mantendo o olhar em mim, fixo.

Eu tinha oito e era pequeno,
E o seu tamanho era o mesmo;
Então eu sorri, mas ele
Deu-me a língua e disse: “Negro”.

Eu vi Baltimore toda
Desde maio até dezembro:
De tudo o que ocorreu lá,
Isso é só o que eu lembro.


(Tradução de Luiz Filho de Oliveira)




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O lírico e o anti são o ponto donde vem a personagem a falar no poema suas falas ou Este aqui é para quem está com malcaratismo contra o Mim




num poema em linha oblíqua confessa-se esse poeta a um seu mestre e diz-se convicto disso

e eu tantas vezes derrotado aos tapas
enxovalhado por uma chuva de metáforas
eu  –  que fui traído & ridículo mais ainda
que tenho querido ser poeta menor que
já todos os meus mestres tinham sido
que tenho o nome & o corpo sujos por
este caminhar-se deste mundo pelos sítios
que fui aos Infernos muita vez brindar com Caronte
que tenho sido acusado de mau grosso estúpido
sabendo o tanto disso que é verídico!

eu – Fernando –  somente não fui príncipe
pelo tempo suficiente ao que deveria tê-lo fingido
fui eu mesmo ferido pelos golpes contra mim desferidos
porisso eu te-confesso isto (estou de guarda: aberto):
apesar de teres sido tão cruel contigo tu ainda
haverias de convir comigo: não somos assim tão vis
há outros mais ruins e não via textos mas
nesta verdadeira vida mesma




(Em Pessoa, passeando por seus campos de versos.)