Mostrando postagens com marcador Crônica e poema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica e poema. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de julho de 2013

UNITED STATE OF LUIZ GONZAGA


Imagem: arquivo Google


Sendo também um "poeta de ocasião" - afinal, o que é a poesia, senão ocasiões? -, não gostaria de deixar que se-passasse esta de homenagear o maior artista popular do Brasil: Luiz Gonzaga. Esse que é a memória-mor pra qualquer nordestino a partir dos 40 anos. Apois, quem tem essa faixa de idade, certamente ouviu o Rei do Baião ao vivo e se-deleitou com essa música que está enraizada em nossa identidade. Arre, égua! 

E eu que fui menino, ouvindo o Véi Macho, pude assistir à cultura nordestina sendo espalhada por todo o Brasil e pelo mundo por meio da música do Lua. Foi algo assim como a prática de capoeira pelo planeta faz com a divulgação da língua portuguesa. Sim, pelo som do Gonzagão o nosso falar passou a ser levado a outros paladares de fala. Aí eu pude perceber o gostim de passado e de futuro dessa língua que foi forçada a nossos nativos, no grito. 

Vixe! Desconjuro! Num quero falá disso, não. Nã! Deixa o leite derramado pra lá. Qué ir mais eu, vamo; qué ir mais eu, rumbora! Vamo ao medieval em fiafêamanoentoncemasporém... Qué latim? Vamo de incumdixehomi... É estranho sim, mas o falar nordestino ainda tem futuro nele: note o plural somente nos artigo e nos pronome (coisa pra inglês ver: modern languages!) nas nossa construção com os substantivoIsso é coisa de Brasil, mas é nosso.

O português são muitos, Carlos, e eles ainda não sabe disso. Num sabe que tem ainda muito piauiês, cearencês, pernambuquês, paraibês, sergipês, alagoês (os principal dialeto do nordestinês legítimo) pra se-falá pur essas quebrada de sertão. Hem-hém, seo minino, dona minina. É muito bunitim essa nossa língua. Porisso que isturdiínha me-rendi a essa rodia que pus na cabeça pra carregar o pote de sabedoria dos caboco nordestino na figura do Fii de Januaro.

A bença, meu padim, Luiz. Seu fi de tradição arrocha um poema em loa do que o siô deixô pra gente toda. Brigado, hômi do povo.


UNITED MUSIC OF PIAGUHY

Os meus primo cá, do Piauí,
deixou de vê novela
só pra fazê musga. 

Os meus primo
escreveu pra mim
e não fala "come here"
só fala "vamali".

Vô mandá um feicibúqui leve
pra United Music of Piaguhy!
United Music of Piaguhy!





terça-feira, 31 de julho de 2012

OUTRO PARTIDO, SÓ PRA VARIAR, PIRATA

Imagem: Wikipedia




Nessa sexta-feira (29/07), em Recife, a formalização do Partido Pirata do Brasil (PPBr), na Campus Party, me-fez lembrar Raulzito em sua música “Só pra variar”, em que o maluco dizia: “É que eu vou fundar mais um partido também”, em tom sarcástico e destilado em ironia contra o sistema político brasileiro no início da década de 1990, logo após o fim da ditadura militar. Mas fique calmo, Zeca, que eu não vou pedir pra tocar Raul, não. Falei dessa música do álbum “Abre-te, sésamo” (1993), Baleiro, pra contrapor com a seriedade que é o movimento em torno da causa do “software livre”, surgido a partir da criação do Partido Pirata na Suécia, em 2006, por Rick Falkvinge.

Não que a sátira de Raul não fosse bem-vinda nos idos de 90 quando o Brasil estava se-redemocratizando, não. Foi importante, uma reflexão, mas é que uma atitude de criar um partido político para lutar a favor de algo que mexe com grandes grupos empresariais (lá vêm em eco as rimas!) mundiais é mais, é ação, e séria! Escrevo isso porque, a princípio, o nome e o logotipo do partido (sem falar dos integrantes!) podem passar a ideia de que é “coisa de adolescente internético”, de “sem-noção” (essa atitude de descaracterizar a seriedade dessa empresa política fica clara que é a primeira dos contrários a isso!), quando, de fato, trata-se de direitos fundamentais ao cidadão, como o software livre, a inclusão digital e a realização de políticas públicas colaborativas. Epopeia grandiosa, essa que os Piratas estão fazendo pelo mundo. Da Suécia navegou (e leiam que esse termo, aqui, não é ambíguo, é metafórico!) pra Alemanha, Islândia, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda; e navegou a América: Argentina, Estados Unidos, Peru, Chile. Atracou no Brasil desde 2007.

Apesar de o movimento já possuir os documentos para informar legalmente a criação do partido ao Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), ainda está coletando assinaturas e doações para a concretização dessa "associação voluntária de cidadãos que se propõem a lutar pela proteção dos direitos humanos, por liberdade de expressão, pelo direito civil à privacidade das informações em todos os suportes e meios de transmissão e armazenamento, pela liberdade de aquisição e de compartilhamento de conhecimento e tecnologias, incluindo transformações políticas e sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais destinadas a garantir a propagação da informação de forma livre e sem impedimentos, com o objetivo de colaborar na construção e desenvolvimento de um Estado Democrático de Direito mais transparente e justo". Aqueles que quiserem colaborar devem acessar http://www.partidopirata.org/doacoes.html e clicar com os Piratas.

Não sei se há prazo para que o registro do partido no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possibilite a candidatura já na eleição deste ano. Não sei. Mas me-deixa muito feliz essa possibilidade do clichê, nova mente: “sangue novo na política”. É, chamada para discutir, em primeiro plano, a “internet livre”, a juventude poderá participar das decisões políticas de fato, quebrando outro lugar-comum: o de que “jovem não gosta de política”. Depois, é chamar pra discutir outros pontos, esses que os “velhos lobos” da política brasileira não conseguem resolver. Vejamos o exemplo da sueca Ellen Söderberg, 18 anos, que se-candidatou este ano pelo Partido Pirata sueco a uma cadeira no Parlamento Europeu, na eleição ocorrida no início deste mês, mas que não conseguiu fazer com que o Pirate Party repetisse os 7% de votação da última eleição, quando havia eleito dois deputados, Christian Engström e Amelia Andersdotter.

Como, em nosso país, o cidadão pode tirar o seu título eleitoral a partir dos 16 anos; então, o Partido Pirata do Brasil (PPBr) tem uma excelente chance de realizar uma campanha que possa, sim, concretizar o início da fala de Rick Falkvinge de que “o Brasil tem a habilidade e a capacidade para dar um golpe nas economias dominantes atuais”. E mais: não somente um golpe desses, mas também um golpe nessa “politicaca” brasileira, matando esses “lobos do povo”. Sim, pois já estamos cheios de “jovens filhos de políticos”, de Fulano Júnior, de Sicrano Neto, de velhos truques de raposas velhas. Precisamos dessa “impessoalidade” da internet, de pessoas que sejam escolhidas, não por apadrinhamentos ou conchavos mensalônicos, não. Queremos os jovens de 16 anos para que possam aprender a fazer uma política de pirata, só pra variar. É preciso iniciar essa epopeia moderna-pós de reestruturar nosso quadro político. Tudo são possibilidades.

Porisso, o secretário-geral do PPBr, Alexssandro Albuquerque “Bauer” precisa iniciar uma campanha desse naipe para realmente fazer a diferença no Brasil, fazendo com que os jovens de 16 anos possam eleger representantes que não sejam patrocinados por grupos políticos corruptos (que é o que não falta neste país!). Isso, só pra variar, também, o tom deste poema:


OSPB

(Organização Sem-vergonhal do Político Brasileiro)

Politicacas
cloacam do Brasil
a Magna Carta.

Polititicas,
à força, forjam
as injustiças.

Politicacos,
inteirados, quebram
os caixas.



terça-feira, 8 de maio de 2012

Todo escritor deve possuir palavras pra dizer o que prazer



Imagem: arquivo Google


O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa.  Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular.  Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.


(LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO. Mais comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.)



@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@ 



todo gigolô pode expor tudo sentido: a menos que não possa fazê-lo

esse poeta sempre tem palavras
para dizer o que pensa e
pesa

ele encontra-elas dentro deste
cômodo: cômoda
língua

porisso dão-se elas a seduzir
aquilo que se-diz
indizível

se ele não nas-grita: existem
outros motivos para
isso

assim repete-as-alegoriza
prostitutas do
humano

quem manda?! quem apanha?!
o Filho – Veríssimo – já o-
disse


(Onde o Campo é Porto Maior e Alegre.)



(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Onde humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em memória de FERNANDO COSTA: dois elegiam; outro, biográfico!


Autorretrato. Fernando Costa



FERNANDO: A GOLPES DE ESTILETE


Fernando era como um alquimista. Era um mago medieval, mas demasiadamente moderno – eterno. Um mágico sem truques, mas com muita magia em sua arte. Era um bruxo, um demiurgo e/ou taumaturgo. Um demiurgo, como dele disse Clóvis Moura. Demiurgo e demônio, tanto faz. Demônio e santo, tudo junto e algo mais.

Aquele algo mais que o fazia erguer do caos primordial do nada/ser suas belas gravuras a golpes de estilete. Traçava em longos e lestos e lentos gestos de prestidigitador o desenho na borracha. Depois, com o estilete, diligentemente, a desbastava, até arrancar a forma perfeita de sua linogravura.

Mas o seu arrancar era feito suavemente, quase como se não tocasse a matéria, tal era sua agilidade. Acaso não tivesse esse dom encantatório daqueles que sabem seu ofício como um deus, usaria fórceps para extrair sua arte dos umbrais do caos das formas informes.

Fernando Costa era uma pessoa delicada. Talvez por isso não teve a dureza necessária para enfrentar as vicissitudes do simples existir, do simples estar no mundo. E as crises existenciais se abateram como golpes de estiletes sobre sua alma sensível e gentil. E as angústias repercutiram em sua arte, principalmente em sua pintura, que por vezes tomava formas aparentemente desordenadas e sombrias. Ao criar como ninguém, ousou desafiar os deuses, e os deuses enciumados fizeram com que o Grifo da destruição se rebelasse contra o artista, na metafórica e literalmente lapidar expressão de Ivan Junqueira: “Se o homem cria, ele o espedaça e pisa, triunfante, entre os escombros da agonia.”
Certa vez, Fernando, diante de um quadro do pintor e pirógrafo Sica, como se estivesse em transe, ou como se visse além das aparências óbvias, redundantes e vulgares, exclamou com viva admiração e júbilo pelo trabalho alheio, apanágio dos bons e dos não invejosos:
Mas que azul fundamental!...


E um dia, em pleno carnaval, sem nenhuma explicação aparente, como as grandes obras de arte, Fernando esvaiu-se em sangue, em vermelho, num ritual de morte digno de Mishima, ou das mutilações de Van Gogh, através de golpes de estilete contra si mesmo desfechados, arrancando à força, em seus últimos gestos, mais uma vez ousando contra a fúria dos deuses, o seu mais profundo vermelho.
O seu vermelho fundamental.


(Elmar Carvalho. Fernando: a golpes de estilete. IN:  www.180graus.com/blog-literario/24 e http://poetaelmar.blogspot.com)


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


sobre o realismo plástico artista: um homem em sua obra*

de tinta de sangue
fez-se teu nome - Fernando –
personalíssimo & transferível ao poema

pelo bendito ódio à vida
que se-gerou imagem sangüenta
de tanta pintura e quanta violência!

ah.. quadro profundo!
teus punhos teu ventre teu grito teu estilo
compunham tua mais crua obra prima & derradeira

(No Primavera; próxima, a praça que tem, sim, seu nome próprio.)

____________________________________
*Em memória de Fernando, um artista plástico do meu bairro, nessa rota pela Costa de duas artes piauienses**.

(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)


@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


FERNANDO ANTONIO DA SILVA COSTA (1961 – 1987)


Esse teresinense foi desenhista, pintor, gravador e ilustrador, fez estudos de bico de pena com Marcos Cremonese e de gravura com Antonio Thyrso, em 1979.

Participou de exposições individuais e coletivas em vários centros culturais brasileiros: coletiva inaugural da Galeria Des. Cromwel de Carvalho (Teresina/79); salão de Artes Plásticas (Teresina/77 e 78); coletiva na Galeria Encetur - Garden, Ceará/76; individual na Galeria Des. Cromwel de Carvalho Teresina/76; I Salão da UFPI Teresina/77 (1º prêmio em desenho); coletiva de artistas piauienses no Rio Grande do Sul/78; coletiva de artistas piauienses e pernambucanos no Teatro 4 de Setembro Teresina/78; Projeto Arco Íris, reunião de artistas piauienses e maranhenses Rio de Janeiro/78; coletiva de artistas piauienses em Brasília/78; I Encontro com a Cultura brasileira 1978; coletiva no Centro de Convenções do Piauí, Teresina/79; individual na Galeria de UM'DART, Teresina/79; Salão Nacional MAM, Rio de Janeiro/80; POSTER BRIGAD , Califórnia/80; II Mostra de Desenho Brasileiro, Curitiba/81; VII Salão de Artes Plásticas do Piauí (1º prêmio em desenho), Teresina/81; 38º Salão Paranaense (prêmio em desenho), Curitiba/81; I Salão Nacional de Humor do Piauí, Teresina/82; Salão Nacional de Artes Plásticas do Ceará (convidado especial), Ceará/82; coletiva do Caesar Park Hotel, Rio de Janeiro/83; Salão de Artes de Santo André, São Paulo/84; Artistas Brasileiros Pelas Diretas -Folha de São Paulo- SP/84; "CUIABÁ UMA CIDADE COMO VOCÊ IMAGINA", Cuiabá/84; Prêmio Shandon Arte e Vinho (prêmio aquisição); INTINERÁRIO Rio/São Paulo/Brasília/85; Salão de Artes de São Paulo 1986.

“Fernando Costa, artista piauiense de grande expressão e importância por deflagrar um processo de renovação nas artes plásticas piauienses. Há toda uma geração de artistas que ainda hoje sofre influência de Fernando Costa”, afirmou Cineas Santos por ocasião da “primeira grande exposição” do artista, feita em agosto de 2009, em Teresina, na Casa da Cultura.


quinta-feira, 8 de março de 2012

À RÚSSIA, COM NATALYA ESTEMIROVA , A VINGAR UM POEMA




Como, por estes dias, o primeiro-ministro Vladmir Putin está ao vivo (aos mortos!) às telas do planeta, a vampirear o Estado russo, a mostrar-se um Vlad verdadeiro, sem dar chance à vítima (o povo de lá); então, me-lembrei desse nosso Brasilzão, em que isso ainda é possível, onde nada ainda não pode deixar de acontecer, inclusive, tudo, Lázaro. Poisbem, me-lembrei de como o Brasil já diminuiu os seus crimes políticos (leia que eu estou falando de mortes; não, de falcatruas!), mesmo havendo ainda centenas de casos país afora, nas quebradas em que só as câmeras (disseminadas à moda chinesa, baratas, feitas por trabalhadores baratos, meio Gregor Samsa) podem pegar a cena gravada, ou em que as telas expressam textos sacados contra as ditadurazinhas em países, estados, cidades de tradição nesses delitos. A Rússia ainda acusa esses procedimentos dopsianos. E lá, naquele frio capitalista (quem não possui grana o gelo não considera, congela; por isso, zil vezes a democrática nudez do calor!), me-lembrei, por fim, por causa do fim que teve, de Natalya Estemirova. Por que me-lembrei dessa ativista russa?


Poissim, para escrever isto certamente. Mastambém, porque a Natalya eu havia-lhe composto um “poema de ocasião” (deixa disso, Carlos!), publicado em meu livro, Onde Humano, de 2009, e, por querer, nesta página, ressuscitá-lo, já que não se pode fazer o mesmo com essa defensora de direitos humanos de humanos direitos ou tortos (nesse caso, os inimigos aproveitam pra jogar a opinião pública contra os ativistas políticos). Eu, segundo senti, sei por que quero homenageá-la: o seu assassínio me-comoveu. Assassinos natos (disfarçados, sem fardas; que farsa!), no Cáucaso Setentrional, na Chechênia ou na Tchetchênia, que importa? Regiões vizinhas de conflitos armados. Lei do Cão. Rússia, Chechênia, Daguestão, Inguchétia, Cabardino-Balcária e Ossétia do Norte. Federação Russa.


Rua; era noite (escura?). Cena de sequestro sujo: milicos disfarçados jogaram-na num carro. Grita Natália que eles a sequestravam. Quem ouve? Quem fez alguma coisa, lutou contra? O povo das ruas? O Parlamento Europeu, a Amnesty International, a ONG russa de direitos humanos Memorial em Grozny, a agência de notícias russa Itar-TASS? Ou o "blogueiro anticorrupção" Alexei Navalny; o dirigente da Frente de Esquerda, Serguei Udaltsov; o dirigente do movimento de oposição Solidarnost, Ilia Iachin; Islam Umarpachaev, de Grozny; Serguei Udaltsov? Todos, seu tanto de atos e palavras. Aqui, de casa, no Primavera, eu não fiz quase nada; escrevi o poema. Coisa do humano contra a canalha. Réquiem-obrigado a Natalya. De nada. Por ela, mais de mil palavras e imagens de maus-tratos, de violência contra civis, de política que policia a polícia. Milicos, como na nossa ditaduresca de AIs tantos, dão sumiço aos que incomodam (incomodavam?).


À época, técnicas de teatro que não têm nada a ver com a fidelidade de Stanislavski (o único cogitado, aqui, é o advogado Stanislav Markelov, morto em mais uma cena de emboscada, ou a jornalista Anna Politikovskaia, também, feita “boca calada”). Outra tomada para as câmeras internacionais – Dmitry Medvedev: "O trabalho de Estemirova era importante; prometo a prisão do assassino, ele será encontrado a todo custo". Os todos ativistas russos de direitos humanos sabendo: "Isso é muito difícil; ainda mais, estando Putin por trás" (e, hoje, 2012, com a chegada dele novamente à presidência; aí, tchau!).


Há algo de corrupto, violento e intransigente no governo da Rússia. Ocorre como o já escrito antes: É a cara da ditadura brasileira dos sessenta e quatro homens de farda. Tudo bem, hoje, o país chegou a um nível diplomático mais suportável, no qual pessoas que atuam como Estemirova não são um incômodo para o governo brasileiro a ponto de se ordenar que sejam mortas, não. Aqui, são mortos defensores de florestas (sejam seringueiros, sejam sindicalistas, sejam freiras), "laranjas", testas de ferro, testemunhas-chave de cadeia, mais alguns etcéteras. Ainda há muita sujeira a atapetar os salões desses governos brasileiros. Regra geral: Legislativo e executivo mandam executar mais; o Judiciário é executado dentro da Lei da Selva. Há crimes; não, castigos, Fiódor. Eles não agirão como o-fez o estudante Rodion em seu romance, não.  Eles querem é mais mortes.


Que é isso, mano? Filma aí, vai! Grava! Tira a foto! Posta! Aposto que muitos irão acessar. Acesso de raiva. Tudo bem (na verdade, malzão!), não sei se é vantagem tantos crimes, no Brasil, serem denunciados, e comprovada a culpa, e nada de punição exemplar. É, haverá de haver muita morte ainda para que se-tenha a Justiça com as próprias ações julgadas honestamente.  É, minha cara Natalya, é Rule without Law: Human rights violations in the North Caucasus (http://www.amnesty.org/en/news-and-updates/report/accountability-human-rights-violations-key-normalization-north-caucasus-20090701). Porque você foi forte, reconhecida com o Right Livelihood Award, do Parlamento Sueco, o “Prêmio Nobel da Paz Alternativo”, não haverá paz entre nós, pois não descansaremos até que se-atinjam direitos que não sejam fingidos, sejam humanos de justiça! Comissão da Verdade também na Rússia para desenterrar os crimes dos milicos.


Pra clarear as ideias, aqui vai a minha tocha (alumia, meu lume!), como o refrão de Tosh em sua reggae music, este poema, que insiste em se-mostrar ao mundo uma vitória contra a morte. Canta, canto:



crimes sem castigo?! 

encontrou-se Estemirova
a indefesa ativista russa 
em defesa dos direitos humanos
na mira das armas duma canalha 
esses humanos tortos deixaram na 
estrada seu corpo cravado à bala:
a cabeça e o peito dela (Natalya) 
foram calados mas eles não se-calam
a denúncia de execuções arbitrárias 
sempre as autoridades desagradava e 
vai desagradar semelhante a Politkovskaïa
sua amiga também Anna jornalista assassinada
como o-foi Markelov da mesma forma marcado
Stanislav prometido o fígado à morte no Cáucaso (teatro?)
todos sabem: os autores desses crimes não vêm da fábula
eles vestem o figurino dito personagem: a farda de
políticos atentados à vida contrários à humanidade com
os ataques contra quem quer o bem das pátrias


Natalya (que não mais nos-ouvirá as falas) quem fala
pelo poema atirado duma notícia de jornal nesta página 
é um povo: todos nós nos-confessamos horrorizados 
com essa sua marcada morte anunciada pela desguarda
pra diplomacia deste planeta uma considerável baixa
pra quem luta pelos direitos de ser o humano respeito
porisso aqui jaz um grito: nós não descansaremos em paz
e ressuscitaremos duma Jamaica negra estas palavras 
que ressoam como fogo de Tosh em frase incendiária:
we don’t want no peace: we need human rights and justice


(Em Grozny, a pisar nos calos do Cáucaso tchetcheno.)




(Luiz Filho de Oliveira. Delituras Crônicas. 2012.)


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

AQUELAS FLORES AINDA SALTAM NO MEU CÉU!


Quase nenhum garoto do bairro Primavera do final da década de 70 e início da de 80 deixava de admirar os paraquedistas (o hífen foi retirado para não atrapalhar a queda) que executavam suas manobras lá pras bandas da curva do rio Poti, talvez perto da floresta de fósseis que há em seu leito, depois da ponte da Frei Serafim. Com seus paraquedas redondos, aproveitando a corrente de ar que os levaria até a pista do aeroporto, passando por cima de nosso bairro (que beleza!); aquilo era surpreendente para qualquer criança setentoitentona, e isso não era diferente para mim, que vinha, como já o-disse noutras vezes, de uma cidadezinha do interior, que me-madrastou mansamente: essa Alto Longá – domundopróximo – distante. Em Teresina, nesses idos, olhávamos os meninos para cima, à espera de todos (e, em expectativa, de um) pularem.
Hem-hém. Quão fácil era prender a atenção de crianças assim! Sim, tão pouco era necessário. E, imaginem só, assistir à audácia daqueles homens: o desafio de confiar em equipamentos, em tecnologia de afronta à gravidade – dane-se Newton; todos queríamos vê-los saltando davincianamente para um voo planado por asas de tecido sintético! Redondinhos. Sim, os paraquedas ainda eram os redondos, mesmo o italiano engenhoso tendo-os pensado piramidalmente mais pesados e quadrados e os nossos contemporâneos, mais leves e retangulares, com a possibilidade de o paraquedas ter manobrada a sua direção. Então, os meninos de olho no céu, à procura dos pontinhos coloridos que desabrochavam uma flor salva-vidas; perigosa ideia do desejo humano do voar, oqual, ainda hoje, renova suas asas com as penas de outra tecnologia, criada da ciência. Quer ler? Hoje, agosto de 2011, aposto se há tanto alguém nesta ilha terrena que ainda queira voar com o grego, usando as asas de cera que Dédalo criou para si e seu filho, Ícaro (não escrevo do paraquedas de Da Vinci, porque isso já foi feito; a foto que ilustra esse texto comprova-o!).
É, o não ter asas para voar deu ao humano a possibilidade de trabalhar com as mãos (estendam-se os braços), esses Oficiais de Justiça do cérebro. Foram essas mãos, por exemplo, que criaram essa possibilidade de sobreviver qualquer um que pule de qualquer lugar (estático ou célere) estando a tantos metros do chão. Claro que esse “qualquer um” foi somente para ilustração de que há pessoas que fazem isso. Mas não o-é para todos. Para nós, os meninos que observávamos estupefatos de alegria aquela loucura de se-atirar de um avião a mais de dois mil metros de altitude, ainda não havia nada que se-comparasse a isso. E, nesta linha mesma, me-vem à mente o nome dum homem (claro que havia outros com ele!); não, digo, de seu apelido: Louro. Loro (pra confirmar a nossa “morte do ditongo”, já praticada pelos espanhóis, de mais antiga língua).
Quem era esse cara? Ainda hoje sei pouco sobre ele. Certa vez, aqui, em Teresina, encontrei um seu filho, um fotógrafo, de nome Cleyton, não lembro bem (sei que o-conheço), que falou qual era o verdadeiro nome de Louro, seu pai, mas infelizmente perdi isso em minhas agendas; foi mal, Cleyton (nem sei se seu nome é escrito assim), mas talvez alguém possa reconstituir os fatos dessa história teresina, que, junto-com os meninos, também eu vi. Isso, se não já o-tiverem feito. Talvez alguns poucos possam-se-lembrar de Louro e de seus companheiros de saltos. Eles são os primeiros em nossa capital? Eles, de fato e de saltos, não deixaram quaisquer seguidores pelos ares dessas suas quedas de -longe? Quem sabe? Sei que foram ousados. Nem sei se há ainda, aqui, nesta capital, algum grupo que pratique paraquedismo. Aliás, há paraquedismo ainda, aqui, em Teresina, como havia naquela época?
Vixe, eram muitos saltos! Acredito que fosse uma espécie de clube de paraquedismo. Não posso confirmá-lo, mas isto, sim: o Louro era “o Cara”. Era o nome que os caras (como os meninos nos-chamávamos) mais pronunciavam. Todos, abestalhados com aquela habilidade, que vem desde os acrobatas chineses, precursores do paraquedismo de “altas altitudes”, até a ideia-cabeça de Leonardo, o início de uma sequência de ousadias, que ofereceram ao público um Fausto De Veranzio, um Sebastan Le Normand, um Jean-Pierre Blanchard, que já saltava com paraquedas dobrável de seda, ou um André-Jacques Garnerin, o primeiro a desafiar as grandes altitudes, ou uma Genevieve Labrosse, a primeira mulher, e sua sobrinha, Elise, que fez mais de 40 saltos, o que, para a época, era algo surpreendente. Não; somente eles eram ousados a tal ponto no céu. Ah, esses saltos sempre foram perigosos, e nossa expectativa de meninos roía as unhas e nossos heróis tiveram que pagar o preço com suas próprias vidas-próprias e eu, de boca aberta ainda e olhos espremidos, calibrando o olhar, e este texto, por réquiem profano, saltando do meu cérebro, pulando com as mãos nesta tela.
Ao Louro, estas “memórias póstumas”. Elas, que, pelo céu de minha boca passam palavras, puladas por mim, a sonorizar as imagens, que gravadas no “paraquedas do meu cérebro” ficaram a saltar. Não eram elas a borboleta preta nas rodas do quarto, mas pareciam floresinhas pequeninas (bem pituibinhas!) no céu do meu bairro, daquela cidade do tempo em que os meninos, na primavera das idades e no Primavera de suas casas, estavam de olho duro no céu. O salto que eu ainda espero é o de Louro. Como, hoje, o paraquedas pode ser manobrado pelo paraquedista, como tento fazer com estas palavras que saltam de mim num céu de página branca (papel ou tela), quero que ele caia dentro deste poema:


Outra inscrição para um túmulo no ar (o segundo voo)

Meninos,
nas matinês dos
domingos, lá pras
bandas da curva do
rio – com o Poti abaixo
(sim, uma garantia?) –, um
passarinho de metal desovava
no céu sementinhas; e vinham caindo
velocíssimas para, em seguida, abrirem-se
como florzinhas: pequeninas ilhas de cores teresinas,
paridas pelo voo dessas aves ocas, loucas pelas alturas terrenas!
Os meninos esperávamos, sobretudo, sobre todas as altitudes, pelo Louro,
o principal pontinho do grupo dos pulos nos ares do abismo, o príncipe dos
comentários dos caras do bairro, do Primavera  (sempre abismados, os meninos);
entanto, estávamos tão abaixo de entendermos a altura dessa Física, de um artefato
saltado do entendimento davinciano e longíquo. Ah, seos meninos, eu vi também os
saltos do Louro pelo brancinzazul do céu do meu bairro soltos; primaveral flor de vento que voa, e todas voam: o pouso sobre o desejo tão grande e tão baixinho (mítico?) de voar acima dos telhados dos olhos primaverinos. – Lá vai o Louro saltar! – Lá vem o louco! – Lá vai no vento indo. – Vai pro aeroporto. Esse foi o salto que caiu dentro do encanto dos meninos de boca aberta: – Quede os paraquedas? – Quedê? – Cadê? Que pena. Ninguém mais os-espera. Como flores soltas na corrente de ar: elas, pelos louros do desafio à queda-livre, presas dentro deste poema, dos céus das páginas, saltam nos









olhos
dum menino
teresino.