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terça-feira, 8 de maio de 2012

Todo escritor deve possuir palavras pra dizer o que prazer



Imagem: arquivo Google


O GIGOLÔ DAS PALAVRAS

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa.  Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular.  Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.


(LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO. Mais comédias para ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.)



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todo gigolô pode expor tudo sentido: a menos que não possa fazê-lo

esse poeta sempre tem palavras
para dizer o que pensa e
pesa

ele encontra-elas dentro deste
cômodo: cômoda
língua

porisso dão-se elas a seduzir
aquilo que se-diz
indizível

se ele não nas-grita: existem
outros motivos para
isso

assim repete-as-alegoriza
prostitutas do
humano

quem manda?! quem apanha?!
o Filho – Veríssimo – já o-
disse


(Onde o Campo é Porto Maior e Alegre.)



(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Onde humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)




quarta-feira, 18 de abril de 2012

Em memória de FERNANDO COSTA: dois elegiam; outro, biográfico!


Autorretrato. Fernando Costa



FERNANDO: A GOLPES DE ESTILETE


Fernando era como um alquimista. Era um mago medieval, mas demasiadamente moderno – eterno. Um mágico sem truques, mas com muita magia em sua arte. Era um bruxo, um demiurgo e/ou taumaturgo. Um demiurgo, como dele disse Clóvis Moura. Demiurgo e demônio, tanto faz. Demônio e santo, tudo junto e algo mais.

Aquele algo mais que o fazia erguer do caos primordial do nada/ser suas belas gravuras a golpes de estilete. Traçava em longos e lestos e lentos gestos de prestidigitador o desenho na borracha. Depois, com o estilete, diligentemente, a desbastava, até arrancar a forma perfeita de sua linogravura.

Mas o seu arrancar era feito suavemente, quase como se não tocasse a matéria, tal era sua agilidade. Acaso não tivesse esse dom encantatório daqueles que sabem seu ofício como um deus, usaria fórceps para extrair sua arte dos umbrais do caos das formas informes.

Fernando Costa era uma pessoa delicada. Talvez por isso não teve a dureza necessária para enfrentar as vicissitudes do simples existir, do simples estar no mundo. E as crises existenciais se abateram como golpes de estiletes sobre sua alma sensível e gentil. E as angústias repercutiram em sua arte, principalmente em sua pintura, que por vezes tomava formas aparentemente desordenadas e sombrias. Ao criar como ninguém, ousou desafiar os deuses, e os deuses enciumados fizeram com que o Grifo da destruição se rebelasse contra o artista, na metafórica e literalmente lapidar expressão de Ivan Junqueira: “Se o homem cria, ele o espedaça e pisa, triunfante, entre os escombros da agonia.”
Certa vez, Fernando, diante de um quadro do pintor e pirógrafo Sica, como se estivesse em transe, ou como se visse além das aparências óbvias, redundantes e vulgares, exclamou com viva admiração e júbilo pelo trabalho alheio, apanágio dos bons e dos não invejosos:
Mas que azul fundamental!...


E um dia, em pleno carnaval, sem nenhuma explicação aparente, como as grandes obras de arte, Fernando esvaiu-se em sangue, em vermelho, num ritual de morte digno de Mishima, ou das mutilações de Van Gogh, através de golpes de estilete contra si mesmo desfechados, arrancando à força, em seus últimos gestos, mais uma vez ousando contra a fúria dos deuses, o seu mais profundo vermelho.
O seu vermelho fundamental.


(Elmar Carvalho. Fernando: a golpes de estilete. IN:  www.180graus.com/blog-literario/24 e http://poetaelmar.blogspot.com)


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sobre o realismo plástico artista: um homem em sua obra*

de tinta de sangue
fez-se teu nome - Fernando –
personalíssimo & transferível ao poema

pelo bendito ódio à vida
que se-gerou imagem sangüenta
de tanta pintura e quanta violência!

ah.. quadro profundo!
teus punhos teu ventre teu grito teu estilo
compunham tua mais crua obra prima & derradeira

(No Primavera; próxima, a praça que tem, sim, seu nome próprio.)

____________________________________
*Em memória de Fernando, um artista plástico do meu bairro, nessa rota pela Costa de duas artes piauienses**.

(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)


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FERNANDO ANTONIO DA SILVA COSTA (1961 – 1987)


Esse teresinense foi desenhista, pintor, gravador e ilustrador, fez estudos de bico de pena com Marcos Cremonese e de gravura com Antonio Thyrso, em 1979.

Participou de exposições individuais e coletivas em vários centros culturais brasileiros: coletiva inaugural da Galeria Des. Cromwel de Carvalho (Teresina/79); salão de Artes Plásticas (Teresina/77 e 78); coletiva na Galeria Encetur - Garden, Ceará/76; individual na Galeria Des. Cromwel de Carvalho Teresina/76; I Salão da UFPI Teresina/77 (1º prêmio em desenho); coletiva de artistas piauienses no Rio Grande do Sul/78; coletiva de artistas piauienses e pernambucanos no Teatro 4 de Setembro Teresina/78; Projeto Arco Íris, reunião de artistas piauienses e maranhenses Rio de Janeiro/78; coletiva de artistas piauienses em Brasília/78; I Encontro com a Cultura brasileira 1978; coletiva no Centro de Convenções do Piauí, Teresina/79; individual na Galeria de UM'DART, Teresina/79; Salão Nacional MAM, Rio de Janeiro/80; POSTER BRIGAD , Califórnia/80; II Mostra de Desenho Brasileiro, Curitiba/81; VII Salão de Artes Plásticas do Piauí (1º prêmio em desenho), Teresina/81; 38º Salão Paranaense (prêmio em desenho), Curitiba/81; I Salão Nacional de Humor do Piauí, Teresina/82; Salão Nacional de Artes Plásticas do Ceará (convidado especial), Ceará/82; coletiva do Caesar Park Hotel, Rio de Janeiro/83; Salão de Artes de Santo André, São Paulo/84; Artistas Brasileiros Pelas Diretas -Folha de São Paulo- SP/84; "CUIABÁ UMA CIDADE COMO VOCÊ IMAGINA", Cuiabá/84; Prêmio Shandon Arte e Vinho (prêmio aquisição); INTINERÁRIO Rio/São Paulo/Brasília/85; Salão de Artes de São Paulo 1986.

“Fernando Costa, artista piauiense de grande expressão e importância por deflagrar um processo de renovação nas artes plásticas piauienses. Há toda uma geração de artistas que ainda hoje sofre influência de Fernando Costa”, afirmou Cineas Santos por ocasião da “primeira grande exposição” do artista, feita em agosto de 2009, em Teresina, na Casa da Cultura.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

FIM DA SEMANA: ESCREVO PELA NONAGÉSIMA VEZ

Cartaz: por Di Cavalcante



fruturo*

danem-se as ervas daninhas 
pra frente par somente se
vinhas amar bem semente


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar. Teresina: Ed. do Autor, 2003.)




onde o poeta substitui um poema: o da arvorezinha que fazia pose por ibope no meio do seu caminho pela poesia

- ah...
meu velho Braga:
também perdi a agenda!

que tristeza...
meu camarada!
nela havia um poema...

a quem cantava?
a Bopp: aquele cabra Norato! cobra!
a ver a arvorezinha ser música o céu querendo

(Na sombra de um pé de crioli, no interior de Alto Longá.) 


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)




______________
* Neologismo criado por Oswald de Andrade.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

POR OCASIÃO DOS 90 DA SEMANA 22

 Cartaz da Semana de Arte Moderna




biblioteca nacional

A criança Abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Polo em Chamas

(Oswald de Andrade. Pau-Brasil. 1925.)




escola & bibliotecas nacionais revisitadas por dois brasileiros poetas

os cartazes pedem às vozes
(mesmo que não sejam loquazes)
um silêncio com volume sepulcral

os profissionais - professores quase
aposentados - vigiam a indisciplina
de alunos de castigo: deslocados

os livros são títulos reescritos de Oswald:
a Criança abandonada no século XXI
O Doutor Coppelius Faz Milagres
Vamos com Ele (a Volta)
Senhor Primavera: o Poeta bairrista
código do Crime brasileiro
a Arte de Ganhar na política
o Arador impopular de Versos
O país em ChamaS

(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. 2009.)



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MILLÔR FERNANDES não morreu: depois de passar pelo ABC e pelo SPC, ele venceu o AVC



Poeminha sem objetivo

Me elogia, vai!
Escreve um troço aí!
Não dói, não; faz de conta
que eu morri.

Millôr Fernandes



Poemeu com objetiva (a distância é de mais de mil tons!) 

Millôr é o mió; posta-o!
É só o mii-da-pipoca!
Ê, fulerage da peste!
É o que eu vejo nessa joça.

Luiz Filho de Oliveira



terça-feira, 25 de outubro de 2011

MICROANTOLOGIA QUASE TODA ERÓTICA DE MICROS E ROSAS




I. Pablo Neruda


LOS VEINTE POEMAS

1

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,

te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistirá en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin limite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


(Los Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada, 1923-1924.)



II.Manuel Bandeira



Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
         Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de                                                                                                              [dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
               nos longos da noite
                                                                                            um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                                                                        ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                                                                        ...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                                                                Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                        Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
          que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
             Ovos frescos e baratos
             Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
             Ao passo que nós
             O que fazemos
             É macaquear
             A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
                Rua da União...
                                           A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
               Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.
                         


 Rio, 1925.

(Libertinagem, 1930.)



III. Martha Medeiros


puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo,e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida


(Persona non grata, 1991.)




IV. Luiz Filho de Oliveira


Versos a uma mulher em pelos (em textos de Pablo a Manuel)*

a primeira mulher adulta
despida à minha vida
não me-veio versos nus
ou alumbramentos
foi nua revista a mim –
menino – por uma libertina
oferecida:  amiga de umas
intenções quintas!

mas que encontro!
o primeiro de tanto encanto
do lado contra um sexo oposto!
em imagem parada extática era
tão vida a rosa-púbis da estrela!

e a segui-la noutra cena
o cérebro ainda (cores vidas!)
e em seguida – desenhada – foi
arte & libido proibidas (minhas)
mas em papel verde tinta – esquisito!

e que esperança
de tê-la sim (não foto ou gravura)
pu-la em meu rijo pênis jovem!


(Num Porto Maior, que é certamente um Campo Alegre.)


* A Martha, uma poeta sem medos, somente Medeiros.


(Onde Humano, 2009.)
 

sábado, 26 de março de 2011

AQUI DA POESIA DO BRASIL

Após estes dois poemas de Mário de Andrade, apresento-lhes três poemas meus que dialogam um pouco com esse meu mestre de sempres!


EU SOU TREZENTOS


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(Mário de Andrade)


DOIS POEMAS ACREANOS
a Ronald de Carvalho

I

DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

II

ACALANTO DO SERINGUEIRO

Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
"Sagrados" como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme ...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme...

(Mário de Andrade. Clan do Jabuti, 1927.)


cantiga da amiga lírica*

ah! minha amiga
da Galiza tocante vens
não em naus carracas galeões
masporém via vida linguagens genes
e os ais que guarda teu nome bem aí
desecoam cantigas também aqui (lá no Piauí!)
onde seguros os portos se-contracolonizam
com o legado das cortes de longe
das ondas do mar de Vigo
ou de ulissiponense gente

ai! minha amiga
 re-volto mar música poema
      onde naufragaram as perguntas
      que cantando gaiado fizeste – e tanto!
      frente aos humanos sentidos a natureza
      não nos-entende (isso é mesmo coisa das gentes!)
      não perguntes pois ao verde pinho nem às ondas
      que não se-ocupam de nenhuma música-poema
      aonde inscrito anda este teu amigo lírico
      que vivo aqui cantando – e sempre-vivo!



(De Teresina a Timon, a passar por Vigo ou Lisboa.)


*A Laís, uma estudante minha amiga, bem-vinda de Galiza lírica.


mesa de bar do Rio (diálogo do poeta-mano com os manos do poeta)**

ó ali a nave louca
lá no Piauí!

– ela voa & diz loa
de mãos dadas com
o torto... um anjo!

– meus deuses!!!
que será de nós?

– eles já foram... mano
calma! esfria a cabeça
que o bode na brasa
vem depois do boi
e nem assou... espera!
morou?

hem-hém!


(Na última vinda do nauta da nave a Teresina.)

**Em memória de Wally, viajante-mente-sailor-moon, neste mundo sem Salomão com seus cânticos.



ondeAndradeandaretooutropoetatorto

brasileiro-acorde
te-acordo por não ter-te-visto ali
lá no Piauí!: lar do primitivo
dos humanos nossos de ondes passados
(né Niède?1  né Chovenágua?2)

e te-acordo por não ter contigo
café bebido e bebida cajuína cachaça vinho
– tragam pra mim um coquetel paulista:
mar + rio... tanto mar tanto rio... please!
e bebamos ao possível poema vivo
e a nota (não conta) cante o tom plurilíngue
e a harmonia ao som enxame!

masporém brasileiro-ser-guerreiro
num ringue acre pronta pra nos-matar
a escureza está – também a virgem mata! –
tangendo o ataúde o cantocalar
e nós cantamos este canto miscigenado:
tupi and not tupi
globe theatre ou municipal aqui
nesse chão que é também meu
brasileiro que nem eu!

e sem muito papo mansamente em porém
cena resistência – manosabença
pois nos jamais veremos entanto
te-sinto – meu poeta nativo – onde
este eu brasileiro que nem tu anda
ruminando outro brasileiro dormido
a le-desejarcuma enorme diferença
de crença e de desejo e de pensamento – o bem
da humanidade: aos bondes! de carrada!

e ainda brasileiro amigo: é bom
ter passado in tua vida in ronda paulistana
si rota policio circandandobliquamente
in estradas Andrades andadas extratos
de alguéns que nem eu & tu & ele
brasileiros que nem tudo!



(Em São Paulo, ante a entrada, na calçada do teatro municipal.)

_______________________________________
1. Niéde Guidon. Pesquisadora paulista responsável pela equipe que descobriu os sítios arquelógicos na Serra da Capivara. Esses estudos, realizados a partir da descoberta de inscrições rupestres e fósseis na região de São Raimundo Nonato, concluíram que o primeiro homem americano teria habitado o sertão piauiense, há cerca de 60 mil anos, contrariando outras teses sobre o início do povoamento das Américas.
2. Chovenágua. Apelido pelo qual era conhecido por populares, em Teresina, o cientista austríaco Ludwig Schwennhagen. Essa alcunha adveio da dificuldade de pronúncia do seu sobrenome. Chovenágua foi professor do Liceu Piauiense e escreveu um importantíssimo tratado histórico, Os Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil - de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado pela Companhia Editora do Piauí, em Teresina, no ano de 1928, no qual sustenta a tese de que esse povo de vocação marítima esteve no Piauí, que Sete Cidades seria um centro de confluência da nação Tupi, seus descendentes diretos e dos Cários, e que o tupi é uma língua do ramo pelasgo.