quinta-feira, 16 de abril de 2015

POEMAS DE VERDADE




Angu do Brasil

Num restaurante do Rio,
Perdigão não era marca
de produtos tipo frios,
era onde se-produzia
o “cheiro do queijo”,
o produto quente
da ditadura do Brasil.

Restaurante onde
se-preparavam os pratos
pra serem servidos frios,
em vendeta de milicos.

Com o apoio da TV Bobo,
atores, diretores e o dono
armaram seu teatrozinho
pra impressionar o público.
Ah, canalhas! E acreditou-se
que os atentados vinham
da esquerda, quando a direita
o rosto do povo socava!

Essa Guerra Suja não vai
ficar sem memória, não!
Não mais elétricos choques,
só choque de consciência...


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Casa da Morte

No Rio, em Petrópolis,
na Rua Arthur Barbosa,
num morro de Caxambu,
houve uma Casa da Morte.

Era uma casa bem disfarçada,
não tinha poema, só tinha bala;
ninguém saía vivo dela não,
porque, na Casa do alemão,
os brasileiros, além de presos,
eram torturados pelo desprezo
de “doutores” em operação militar
que estavam ali para os-matar
ou transformá-los em infiltrados
depois de muito bem trabalhados:
doutores Bruno, Nagib, Ubirajara,
Teixeira, César, Pepe e Diablo
ditavam a conveniência da Casa
contra as pessoas trucidadas.

Mas, não tarde, Inês não foi morta
e dos segredos da Casa abriu a porta!


(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Das Bocadas Infernéticas. WEB: 2015.)


quarta-feira, 11 de março de 2015

É cachorro, mas é meu amigo...

Foto: Luiz Filho de Oliveira


Cantiga do Amigo do Cão

Espécimes de espécies,
nossa vassalagem amigosa
vem de cavernas, onde gravei
nossos nomes em paredes;
histórias  desenhadescritas
sobre ancestral papiro,
sobrenatural bem divino
o qual encantou, Amigo,
o rito do mar de signos,
estes, a cantar (grito-o!)
tal poeta pelo mundo
o amigável Canis Lupus,
um parente de Anúbis.

domingo, 1 de março de 2015

Desencontro. Poema de Graça Vilhena e música de Luiz Filho de Oliveira


DESENCONTRO
Colho os grãos de sal
dissolvidos em madrugadas
tua face teima
num espelho submerso
e não consigo compor
a matéria que me falta.
Vasculho as manhãs
e posso respirar-te
e sentir nos galos
os acordes de teu nome
no entanto queimo meu corpo
no metal das tardes
em tentativas azuis
e lilases desencantos.
Longe de ti que nunca encontrarei
os dias passam assustando
passarinhos nas calçadas.
(Graça Vilhena. "Em todo canto". Teresina: Corisco/IDB, 1997.)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Influência crônica

Imagem: arquivo Google

PROCURA-SE

Procura-se aflitivamente pelas igrejas e botequins, e no recesso dos lares e nas gavetas dos escritórios, procura-se insistente e melancolicamente, procura-se comovida  e desesperadamente, e de todos os modos e com muitos outros advérbios de modo, procura-se junto a amigos judeus e árabes, e senhoras suspeitas e insuspeitas, sem distinção de credo nem de plástica, procura-se junto às estátuas e na areia da praia, e na noite de chuva e na manhã encharcada de luz, procura-se com as mãos, os olhos e o coração um pobre caderninho azul que tem escrita na capa a palavra "endereços" e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.

Pondera-se que tal caderninho não tem valor para nenhuma outra pessoa de boa-fé, a não ser seu desgraçado autor. Tem este autor publicado vários livros e enchido ou bem ou mal centenas de quilômetros de colunas de jornal ou revista, porém sua única obra sincera e sentida é esse caderninho azul, escrito através de longos anos de aflições e esperanças, e negócios urgentes e amores contrariadíssimos, embora seja forçoso confessar que há ali números de telefone que foram escritos em momentos em que um pé do cidadão pisava uma nuvem e outro uma estrela e os outros dois... - sim, meus concidadãos, trata-se de um quadrúpede. Eu sou um velho quadrúpede e de quatro joelhos no chão eu peço que me ajudeis a encontrar esse objeto perdido.

Pois eis que não perdi um simples caderno, mas um velho sobrado de Florença e um pobre mocambo do Recife, um arcanjo de cabelos castanhos  residente em Botafogo em 1943, um doce remorso paulista e o endereço do único homem honrado que sabe consertar palhinha de cadeira no Distrito Federal.

O caderno é reconhecível para os estranhos mediante o desenho feito na folha branca do fim, representando Vênus de Milo em birome azul, cujo desenho foi feito pelo abaixo assinado no próprio Museu do Louvre, e nesse momento a deusa estremeceu. Haverá talvez um número de telefone rabiscado no torso da deusa, assim como na letra K há trechos de um poema para sempre inacabado escrito com letra particularmente ruim.

Na segunda página da letra D, há notas sobre vencimento de humildes, porém,  nefandas dívidas bancárias e com uma letra que eu não digo começa o nome de meu bem, que é todo o mal de minha vida.

Procura-se um caderninho azul escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis. Procura-se, e talvez não se queira achar, um caderninho azul com um passado cinzento e confuso de um homem triste e vulgar... Procura-se, e talvez não se queira achar.


(RUBEM BRAGA. Pequena Antologia do Braga. Rio de Janeiro: Best Seller, 2006.)


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onde o poeta substitui um poema: o da arvorezinha que fazia pose por ibope no meio do seu caminho pela poesia

- ah...
meu velho Braga:
também perdi a agenda!

que tristeza...
meu camarada!
nela havia um poema...

a quem cantava?
a Bopp: aquele cabra Norato! cobra!
a ver a arvorezinha ser música o céu querendo...


(Na sombra de um pé de creoli, no interior de Alto Longá.)


(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)

sábado, 24 de janeiro de 2015

AGUAPÉ DEIXA O RIO NA MÃO





Variações em solo dum rio desta aldeia

I.

POTICAGANDO

Lixolatrina
aos olhos d’água:
esgoto caseiro de coliformes.

Eles estão cagando presse rio,
eles estão ali,
nem aí...

II.

OUTRO LEITO DE FOLHAS VERDES

Por que tardas por vir,
poder dos poderes públicos,
para assistir o doente Poti,
à mortalha de merda sufocando-se?

III.

DE CÚBITO DORSAL (ANTES DOCE!)

A espinha do rio que já foi meu – que não foi
dum Pessoa ou dom Francisco amarantino –,
cobreando (subterrâneo!) o seu rumo teresino,
reverbera uma verde mortalha ecotrágica.

IV.

POR QUE TARDAS, PODER, AO POTI?

À beira do rio, os edifícios
defecam a água e os resíduos
caseiros via pia ou latrinas e
tecem o manto de folhas verdes,
não romântico, classecotrágico,
a mortalhar a vida de evoluídos
seres da cidade no concretaço 
das margens da sustentabilidade.

No caos da vida contemporânea,
cravam suas garras nas encostas
do rio quinda é dessaminha terra
e vergalham projetos contra o veio
d’água doce do solo de nossa taba.

Dejetos sem tratamento, um erro de projeto,
de lei, de responsabilidades de agentes, de quem,
publicamente, deságua suja e infozmente o consumo
à beira do rio coberto da vergonha verde de aguapés
punidores impolutos dos filhos do Poti, rio limpo,
rio brando e doce se desaguando um triste quando...

V.

POR QUE MANHANAS TARDAS EM NOITADAS POR VIR, SOCORRO?

Qual Jati, a ti, Poti,
pra te-salvar não quer vir
quem vê sem poder o público
compartilhar tua imagem
de aguapés sem esperança,
apenas verdes se vale
a pena ou este teclado
a poetarem o mesmo tema

a variações nestas cenas.

(Luiz Filho de Oliveira)

domingo, 18 de janeiro de 2015

DÉCIMAS MALDIZENTES

Pela décima voz versa chulo o Poeta: É foda!

Tal Poeta conhece (e -ceu!) muita gente fuleira,
aquela gente do tipinho que achava que era
a tal da última bolacha do saco, aquela geladeira,
os que, sorrindo, não estão nem pra brincadeira:
e ela era somente uma tal de maridinha infiela;
eles, uns ignorantezinhos muito maus, hipócritas;
o verme, este, um merdinha de um recalcado merda;
ele, adamado, de sexo não assumido, nutria ser comida;
eles, uma baita de uma canalha muito descontrolada!

Ela? Sempre se-achou muito esperta,
porque aprendeu o jogo dos ratos cedo;
viu que homens roem bocetas como queijo
e armou que elas são ratoeiras se abertas.
Não considerou não aceitar o acesso, a janela;
excluiu seu “paizinho” por impulsos e beijos,
fechando um destino e abrindo as pernas!
Ah! E ele, bodim, nem imaginava que ela
só seria revelada em imagens por terceiros:
e ela era só uma tal de maridinha infiela!

Eles? Diziam que são melhores, Poeta,
do que cê imaginava que ainda era, certo?
Da alegria deles, prova dos nove, o que resta
é le-fazer todo o mal que eles, juntos, puderem:
nunca tardam ; a telefonema anônimo, teclam
torpedos-injúrias, arma do fogo que le-atiram,
e desenham calúnias num enredo à sua casa,
acreditando que vá les-dar crédito – idiotas!
E o que são é somente este Poeta quem posta:
eles, uns ignorantezinhos muito maus, hipócritas.

Ele? A falsidade de gente grande desde pequeno,
por conta de não-sei-o-quê que ora le-faltava
para completar a sua vidinha. Mesmo sabendo
que o Poeta não le-trazia falsa a sua amizade,
criticava-o sem reservas, com todos os atacantes!
O traíra queria também do Poeta uma sua namorada,
a que tinha a boceta mais linda e cheirosinha na área;
animal FDP, não foi capaz de aceitar a rejeição dada.
Quando doutro livro seu, risada a inveja, de si, fede
o verme; este, um merdinha de um recalcado merda.

“Ela”? Também se-achava – e se-acha! Por isso,
essas aspas “fashion”, femininas como adereços,
lenços de seda para limpar o preconceito do texto
do que não for honesto, e ser homoamorafetivo;
poresse vizinho mal falado no bairro florido
ser de todos sabido & flagrado um tal “viado”,
que malfalava baitolamente de seus ímpares,
numa sequência de canalhices  deslavadas,
com a preferida preferência: acusar de ser biba.
Ele, adamado, sexo não assumido, nutria ser comida.
                                        
Esses? Todos eles são os de que todos sabem:
que nenhum tem um tiquinho do tanto que pensam
ter e espalham, vírus, no tecido da Rede, infectando
a vida de ações covardes contra quem não tem tanto
contra eles, que não são mais nada são para o Poeta:
“Se eu não preciso de vocês para viver uma vida minha;
então, façam favor de seguir adiante, que não adianta;
é preciso excluir, amigos, esses tipinhos, como esses tais
que, eletronicamente maledicentes, malpoetam a teclado.

Eles, uma baita de uma canalha muito descontrolada!”


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

itabira.com

Postagem do e-mail político-literário enviado a Carlos

O poeta municipal, caro Carlos,
assinado com operadora não local,
nas Redes, tecla-se mundial,
como o estadual e o federal –,
nunca menos que estes pixels!

A parir versos à Paris, à Lestes,
a estes sítios potianos – antunante,
dobalance, pivante, salgademente! –,
a telas de distância doutros poetas
– d’Este mesmo que poema estas páginas! –,
o poeta municipal escreve em rede laudas e
laudas aos amigos em compartilhamento,
que les-curtem a comentários emoticons
ou d plvrs q vc ctrl c cntrl v add: blz!

Enquanto isso, este poeta bairrista xista que
os seguidores estão à solta; é só adicioná-los!

E comentar o comentário: kkkkkkkkkkkkkkk!


(Luiz Filho de Oliveira)