quinta-feira, 2 de abril de 2020

INSTRUMENTISTA DE POESIA: POESISTA


Foto: maestrorochasousa.blogspot.com/



Conheci o maestro Luiz Santos na saudosa Escola Técnica Federal do Piauí (ETFPI), em 1983, quando, com mais dois colegas de sala de aula, o Aroldo e o Neto, decidimos ser alunos de música e aprender a tocar um instrumento musical -- e claro, estar entre aqueles que faziam parte da banda de música da ETFPI!

Não lembro que instrumento o Neto queria aprender a tocar, mas eu e Aroldo queríamos clarinete (Olha aí, Suzy Reis, sempre quis ser o Lula Molusco! kkk). A ideia foi linda -- a música sempre fez parte de minha vida, como diletante ouvinte --, mas, infelizmente, não fomos muito longe nessa "ideia-prima". Primeiro, que essa decisão de qual instrumento iríamos tocar não era tão simples assim, havia a decisão do maestro, o mestre, claro; segundo, que havia também a disponibilidade dos instrumentos da banda, já que não eram tantos assim. E, para meu espanto de iniciante nesse universo dos instrumentistas, recebi assustado um instrumento que desconhecia existir e que tinha um nome esquisito, bufônico: trompa. Me-desculpem os admiradores desse instrumento, mas o susto foi hilariante. A decepção, essa foi desmotivante.


Não consegui ir adiante; meus colegas, também. Não nos-saímos bem, como outros alunos dessa mesma época se-saíram: o Luiz Santos, o Wilker Marques (?!), o Daniel Aracacy, e tantos. O que valeu, ao menos, foi ter convivido alguns dias com essa figura da música piauiense, autor do hino do meu River Atlético Clube.

Fui mal. Foi mal. Ainda bem que ainda trago a música comigo. Como-a todo dia e trago... A poesia foi o único instrumento que aprendia a tocar e, com ela, hoje, eu faço músicas...

terça-feira, 24 de março de 2020

POSTAGEM ABERTA AO LEÃO: DREAD OR ALIVE




    Isturdiinha veio à minha mente reminiscências do quandonde morei em Timon, na velha Flores, numa casa, no cimo da Rua 40, distante da “cidade”, separado por uma rua de areia e barro e pedra e mato e areia e pedra e mato e barro. E se chovesse! Aff! Essa casa, que não era muita engraçada, eu comprei com muita aula, afinal, Profe que não trabalha não engole sapo! Não é mesmo, dona Cobra?
    Essa estada em Timon foi ocupada principalmente da vontade de vender aquela casa: terreno farto, 40 por 55; bons ares; toda murada; com construção faltando somente acabamento; piso bruto. Capitalismo também. Tempo de espera de venda do imóvel. Masporém, houve muita produtividade nesse tempo. Isso tudo, por volta de 2000 a 2004, marromeno, que as datas não as-gravo. Isso é mais coisa pro Stefano, o “Look at” (não por acaso, o-consultei para lembrar o nome verdadeiro do personagem de que trata esta crônica!). Eu lembro que, nesse período, em que mantive hospedado de europeus a bandidos rasos, tive um período dando teto a um cantor e compositor de Feira de Santana, na Bahia: Leão Negro ou, como lembrou o “Look at”, o Eliseu, seu nome real (sem trocadilho kayano!).
    Essa figura é o exemplo típico do músico negro pé na estrada, que tem aquela espécie “Jam session” no roteiro de viagem daqueles músicos das antigas, à la Robert Johnson e os blueseiros estadunidenses. Coisa assim. Na música do Leão (“Judah”), há referências ao trem, tão caro a esses bluesmen dantigamente. Leão era um andarilho. Queria estar em tudo o que era de lugar. “Melhor não poderia estar”. Disso ele partilhava. Taí uma coisa que aparece na sua música e que se confirma na sua vida! É, pois o Leão era de uma surpresa atrás da outra, beirando (e caindo dentro muitas vezes!) a irresponsabilidade. Que foi? Essa pergunta mesmo, que é título de música e tudo, é um exemplo desse comportamento: ela é o questionamento ao outro que estranhou de ele, Leão, estar fumando a erva rastafári, a ganja, a kaya, daquele jamaicano que ele tanto admirava, Bob Marley...
    Assim como Ludwig Schwennhagen, que escreveu seu único livro no Piauí, em 1928, Leão Negro somente conseguiu gravar seu primeiro CD também aqui em Teresina, no Piauí, com muita luta e o “mãetrocínio” de Clarice, sua amante (em todos os sentidos) timonense. Vi a correria de Leão para gravar o CD somente com o apoio de mais dois músicos (não sei se foi apenas um). Ele fez voz (principal e backing vocals), guitarra e baixo. As músicas – acredito – já estavam bem definidas. Afinal, ele chegou a nossa cidade já com alguma carreira percorrida por tantos lugares. Sei que, quando esteve em minha casa, ele fazia shows por Teresina e Timon já cantando essas suas composições. O CD saiu e Leão partiu para mais uma de suas viagens (também sem trocadilho!). Foi a Fortaleza, andou por Belém, não sei bem. Muitos lugares. Nem sei se ainda se encontra vivo – ouvi notícias de que sim. Por isso, a chamada ao trocadilho tosheano: Dread or alive. Estão muito vivos ou mortos de alegria os dreads leoninos? Alguém sabe do paradeiro desse músico?
    “Negro assanhado, negro atrevido, sem patrão e sem senhor”, como diz a música duns Malungos aqui, do Piauí. Ele não sujou na entrada nem na saída, mas fez muita bobagem nessa sua estada por estas paragens. Uma coisa é certa: deixou sua música conosco. E leiam que não foi somente as gravadas em CD. Ficou comigo, Leão, a música que fizemos juntos, naquele dia de puro misticismo negro. Dia em que ele me falou de Raul Bopp e de que “queria conhecer algo desse cara”. Algo que ecoava em mim por haver gostado de Bopp à primeira leitura! Mostrei a ele um livro do poeta antropofágico que tinha em casa: “Mironga e Outros Poemas”, da Companhia das Letras. E não é que ele, Leão, abriu o livro e bateu em cima do poema “Abisag” e, em vez de lê-lo, foi logo cantando. Que mistério maravilhoso, a música junto à poesia. Um negro que conhecia o poeta dos “poemas negros”. E mais: um poema com um sabor místico, algo parecido com que o filho de Davi cantou no Cântico dos Cânticos: um erotismo fino, mas picante (com trocadilho!).
    Foi epifânica aquela cena. Foi como um sopro, dum fôlego só a música fumaçou no ar: puro sândalo! Depois, alguns ajustes, e refrão, e ritmos, e comungamos a música, que chegou viva à minha mente e foi gravada como disco. Rígido ritmo em mente... Poema comovente, esse pedido desafiador ao Rei doente... Abysag implorando por amor de carne:

     “Meu corpo é teu, Senhor, queres beijá-lo?
     Por que colheste, no horto em que eu vivia,
     Meu corpo em flor de tâmara macia,
Sem teres forças para machucá-lo?”

   Ah, Leão, espero que onde esteja, você possa escutar ou ler esse meu texto, pois estas vibrações positivas hão de cantar aquele seu sorriso, amigo, nos disco do divino.
Jah bless you!

DAS BOCADAS INFERNÉTICAS


Assalto à mão teclada

Com a tela encoberta toda
por um tecido de códigos,
cobrindo o rosto de propósito,
um hacker le-assaltou agora,
há segundos atrás num chat,
quando le-apontou um mouse velho
e levou do bolso do poeta o quanto
ele teclou texto em sua conta.
– Copylantra!



(Luiz Filho de Oliveira. Das Bocadas Infernéticas. Editora Penalux: Guaratinguetá, 2016.)

DAS BOCADAS INFERNÉTICAS


Poeseu com Objetiva*

(Fala um dos dois poetas, distantes mil tons.)

– Ih, Millôr é o mió!
É só o mie-da-pipoca!
Eh, fulerage da peste!
É o que vejo com esta joça.

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* Esse poema foi escrito estando o Guru do Méier ainda vivíssimo em pessoa, no início do séc. XXI (xi!), em seu-mestre-mandou, ao milloriano “Poeminha sem objetivo”.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Das Bocadas Infernéticas

A blogar uma carta satírica de Vila Rica a tristes Brasílias


Ó Cláudio, Tomás, Doroteu, Critilo,
minhas saudações, ainda que tardias!
Cumpre a mim refletir o mal vivido
nesta missiva, que ao povo analisa,
novamente, as cenas, se pôr digo
tal pena moderna-pós, o teclado,
no mal que não vem de Chile, de fato;
a glosar este mote, teclo à Rede e
“sei que o que les-escrevo são verdades
e que vêm muito bem ao nosso caso”.

As peripécias, as mesmas, caríssimos,
e, Poeta, com meu vício, teclo às páginas
dos grandes do país e dos pequenos
os casos do mal vivido, na intriga:
a putinha ainda dá a justo soldo
e, nua, ela continua bem vestida;
os religiosos (gozosos) devoram
homens, mulheres, meninos, meninas;
os governantes, públicos agentes,
comerciantes, policiam incestos,
que mantêm com a enxerga da justiça!

Também não poderiam ser diferentes
as consequências que provêm disso:
o avesso é, sim, excelente exemplo!
Por que não le-apresentar, pois tão caro?
É certo que nem todos têm os olhos
que um Tomé teve pra ver de perto:
o poder de milícia à Vila Rica
hoje é política, Critilo – sério! –,
já que a pizza dos deputados é
prato cheio prouto golpe, Senado!

Tudo caminha prum mesmo lugar;
se o dinheiro vem do cofre, bem sujo –
“Tá branco, lavadas verdinhas banco:
governo é injustiça; um homem, dinheiro!” –
e, se a milícia corrupta hoje no país
coage o povo como antes, isso faz
parte desses negócios com os ternos.
De fato: a força força a porta, o muro!
Sempre foram aptos ao optar os corruptos
pelas finíssimas mãos fidindignas!

E mais: quais religiosos conseguem –
quem sabe a punhetas ou outras técnicas –
ficar sem fazer delícias com o sexo
pelo tempo que dizem amar seus deuses?
Aqui, padres, pastores, pais de santo
comem seu rebanho até em seus templos,
o que hoje é fácil de provar, exemplos
há tantos, prova gravada: movimento!
Ah! mulheres, o de sempre: conventres
cobertos em catre santo, fazendo...

Que esses agentes, públicos, privados,
sagrados, laicos, reais, literários,
sejam o que devem ser neste espetáculo;
visto que este texto está a gravá-los
vestidos de improviso fora do ato.
Sabem os grandes, meus Tomás e Cláudio,
que o público da informática máquina,
não rechaça a chance de gravar,
seja de Paços, gabinetes, pastas,
tantas cenas de ilícitos cortadas.

Apois, não apostem se uma postagem
não pode escrevinhar a imagem sua,
ou se uma dessas câmeras não grava
seus truques por vídeos ou fotográficas
imagens vivas em voz telefônica,
“que dessas insolências que les-conto
não só pode ver quem mora no Chile”:
a Rede toda assiste, lê, responde.
Salve esses parentes da carta anônima,
que ora incitam tristes Brasílias de hoje!


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* LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Das Bocadas Infernéticas. Ed. Penalux, 2016.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

DELEITURA SATÍRICA




CANTIGA DE BOSO RODAR

- Lagarta printada,
quem foi que te printou?
- Foi o Boso caganeira,
que, por aqui, cagou!

No templo da igreja,
lavava dinheiro!
- Puxa, lagarta,
do nosso governo!!