terça-feira, 25 de outubro de 2011

MICROANTOLOGIA QUASE TODA ERÓTICA DE MICROS E ROSAS




I. Pablo Neruda


LOS VEINTE POEMAS

1

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,

te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistirá en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin limite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


(Los Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada, 1923-1924.)



II.Manuel Bandeira



Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
         Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de                                                                                                              [dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
               nos longos da noite
                                                                                            um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                                                                        ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                                                                        ...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                                                                Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                        Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
          que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
             Ovos frescos e baratos
             Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
             Ao passo que nós
             O que fazemos
             É macaquear
             A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
                Rua da União...
                                           A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
               Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.
                         


 Rio, 1925.

(Libertinagem, 1930.)



III. Martha Medeiros


puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo,e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida


(Persona non grata, 1991.)




IV. Luiz Filho de Oliveira


Versos a uma mulher em pelos (em textos de Pablo a Manuel)*

a primeira mulher adulta
despida à minha vida
não me-veio versos nus
ou alumbramentos
foi nua revista a mim –
menino – por uma libertina
oferecida:  amiga de umas
intenções quintas!

mas que encontro!
o primeiro de tanto encanto
do lado contra um sexo oposto!
em imagem parada extática era
tão vida a rosa-púbis da estrela!

e a segui-la noutra cena
o cérebro ainda (cores vidas!)
e em seguida – desenhada – foi
arte & libido proibidas (minhas)
mas em papel verde tinta – esquisito!

e que esperança
de tê-la sim (não foto ou gravura)
pu-la em meu rijo pênis jovem!


(Num Porto Maior, que é certamente um Campo Alegre.)


* A Martha, uma poeta sem medos, somente Medeiros.


(Onde Humano, 2009.)
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Os dentes mordem a memória em cenas teresinas



Conheci um cara – na verdade, um senhor de mais de meia idade, -pra- de seus cinquent’anos – que tinha uma singularidade notável (notável, aqui, passa pela constatação e pelo incrível). Eu, menino, àquela época, somente pude comprovar isso e aquelas conversas que rolavam nas rodas dos cara grande ou dos cara da turma (na fulerage!), quando vi-o-ouvi lá mesmo, no bairro Primavera, onde morava seo Mílton, essa singular pessoa. Vou chamar-ele pelo nome verdadeiro; é mais prático e menos chato. Acredito que aquele que lesse este texto iria estranhar, neste escrevê-lo inicialmente, se o-chamasse com um nome enigmático, que deixasse encoberto a verdadeira identidade dessa pessoa, pra não ser indiscreto (ou com medo de “um processo nas costas”?).
Essa era a ideia; esta: eu queria esconder a identidade do personagem para não causar nenhum tipo de constrangimento à família dele, já que seo Mílton não mais está entre nós. Porisso, queria me-referir a ele, neste texto, como Desmillôr. Sim, na minha ideia, essa estratégia seria um chiste, uma espécie de trocadilho com o esquesitúnico nome de um meu Guru, o do Méier, lá do Rio: o Milton. Ria: era pra levar em consideração o contrário do que aconteceu com o Millôr quando foi registrado em cartório seu nome. lendo? Então? Entanto, chamar-ele assim, de seo Milton, mantém mais o respeito e destaca melhor o fato; não o nome do cara. O processo, aqui, é outro; embora não seja assim tããããoo criativo ou desrespeitoso. Mas deixem os nomes, passemos à primeiríssima cena.
Poissim, a primeira vez que me-encontrei com seo Milton foi numa “pegadinha” que os cara da turma armaram pra mim: me-pediram pra perguntar as horas pra ele, que vinha chegando na quitanda do meu pai, seo Luizim. O bairro, em situação inicial de narrativa. Manhã, sem aula. A gente jogava bola? Talvez. Nem notei a fulerage; fiz cara de sério, pois era um homem que vinha vindo, um siô. Apesar de que ele usava somente uma bermuda, de chinelos, traje que é natural pros teresinenses, que o solo habitam de mais de quarenta graus. Bodim, mas no melhor português que dominava, perguntei: Que horas são, por favor? À resposta (Vai-te à merda, seo filha da “tuta”!), aquele estrondar de assonância: AH!AH!AH!AH!AH!AH!AH!AH! Ah, assim não vale! Seo Milton puto-das-calça comigo. Hem-hém, entendi tudo: ele não tinha dente algum na boca; sua fala – que onda! – era muito engraçada. Não que eu tenha entendido a frase de seo Milton me-xingando totalmente da forma como transcrevi acima, mas o “tuta” foi assim mesmo que ele pronunciou. A bilabial /pê/ não saía como devia. Que peça da vida: é muita comédia daqueles sons!
Manca: a dificuldade que ele tinha de articular fonemas, como o palatal /xê/ (exemplo: em “chuvendo”) ou os velares /quê/ e /guê/ (em “pataca” e “a”), por conta da ausência dos dentes, criava toda a piada: fonemas, como esses, na boca de seo Milton, eram transformados em outros sons e, inevitavelmente, som de gargalhadas. Taí  um fato de que os linguistas – deve-se-considerar também os “boquistas”? – não falam (pode ler que, pelos “estudos acadêmicos”, há um “preconceito necessário” de se-considerar somente a “boca completa de dentes”): a ausência dos dentes transforma um fonema em outro, e isso cria cada cena, cada som. É, mas esse papo de alguém optar por viver sem os dentes é algo muito trocadilhesco mesmo: é estridente  gargalhada por conta dessas cenas tantas. Algumas são muita comédia. Porisso, vamassistir o humorista, que risa (risos).
É, já escrevi em outro texto que a anedota do “doutor Gojoba” já virou piada nos palcos locais; ela deixou de ser domínio dum pedaço dum bairro e avançou para querer ser domínio duma cidade. Um texto que, de boca em ouvidos, se-espalhou pelos dedos no teclado em que pus a minha cabeça inquieta já o-é há mais de mil’horas. E mais: com a rede mundial de computadores, os textos são duplicados muito velozmente; com isso, o risco do anonimato; essa espécie de “domínio do público” sobre todos os títulos que forem espalhados pelas telas da rede. Quem copia os textos não quer saber de direitos autorais. Dá-lhe confusão de direitos e dinheiros! Seria coisa séria? Sim, mas o papo aqui é outro, já disse. Assino: as cenas cômicas de seo Milton não são minhas; somente a forma em que as-escrevo aqui, neste texto. Quem deve ser o profissional que contará esse papel cômico? Quem souber que suba o pano!

                                           CENA QUALQUER        
(Seo Milton, peruando o jogo de baralho, desmente Irãmílton, seu filho.)

SEO TÓIM CRUZ: Ô Milton, traz lá uns peixes pra gente, daqueles que o Irãmílton disse que pescou, hoje, no Poti.
SEO MILTON: O Iramilton foi “petá”, mas ele num sabe “petá”; ele num “peta” “pête dande”. Quando ele vai “petá", ele só “péta” “patata”. Só “péta” “Patata”!


Não é falta alguma de respeito, mas não havia quem não risse estando numa cena dessa, aqui, no bairro. Ó o que acontecia: seo Milton, quando falava, não considerava que estava pensando num fonema e que pronunciava outro. É algo assim como acontece com um motoqueiro que fala com você com o capacete na cabeça, pensando que está sendo reconhecido, já que ele o-conhece. Algo assim: seo Milton pensava na palavra, mas não executava certos fonemas, pela total ausência de dentes. Ele não observava essa mudança, manca! E foi isso que tornou uma outra cena que ele fez com Irãmílton algo o mais engraçado (a meu rir) que soube sobre ele.

Sem humor negro; estou memorando cenas de quando ele ainda andava entre nós, os primaverenses, mas a forma como as palavras “pescar” e “pataca” (pataca é – era? – um peixe miúdo que havia no rio Poti daquela época, quando ainda não havia níveis insuportáveis de coliformes fecais na água, entre a ponte da Frei Serafim e a do Primavera); poissim, a forma como essas palavras eram pronunciadas por seo Milton impunha todo o humor popular que há nessas cenas miúdas, dessa “arraia”, essa gentalha grande de pessoa. Coisa de mano da cidade, com muita graça. É risada mesmo! Isso é que é fulerage, nessa língua de terras contíguas: tupi, português, galego, espanhol, francês, latim. É, todos riam, nas rodas de baralho do bairro: no seo Antóim, no seo Miranda, no seo Zezé, no seo Tóim Tuz (“tradução” de seo Milton pro nome de seo Tóim Cruz < Antóim Cruz < Antônio Cruz).

Aqueles moradores que habitavam na parte da rua Professora Lídia Cunha e os que moravam nas quadras B e C do Conjunto Primavera já conheciam os coroas que formavam aquela trupe de baralho todas as noites. Onde fosse o jogo (as casas onde jogavam eram escolhidas alternadamente, conforme a conveniência) havia muita comédia entre aqueles velhos do Primavera. E nós, meninos, muitas vezes, só bicando a conversa deles, peruando o jogo. Com isso, essas pérolas descobertas, que eram faladas entre eles sem nenhum problema; só tiração de onda mesmo! Com os meninos, não vem, não: Seo filha da “tuta”!  Masporém, com mais velhos, claro, seo Milton não brigava tanto; mesmo porque eles eram muito maliciosos quando queriam fazer seo Milton falar ou porque a conversa acabava dando nesses sons engraçados. Quando um dos parceiros de baralho perguntou se a mulher de seo Mílton estava viajando, não há dúvidas de que foi a maior algazarra quando ele respondeu: É, mas ela disse que lá num bom, não, pois tá “tudendo” muito. “Tudendo”: imagina como os coroas interpretaram essa pronúncia. Lógico: ninguém pensou em “chuvendo”; só dispararam a metranca de riso, pros lados do satírico obsceno.

Grande figura, seo Milton. Pai, principalmente, de Arlindo (para o Paulim, irmão do Maribel, tinha de ser Arfeio!) e de Irãmílton, aquele daquela cena que julguei a mais hilária de todas; aquela de que falei anteriormente e de que, agoraqui, darei testemunho àquele que ler este texto. É muita comédia mesmo! O registro dessa cena foi passado a mim por intermédio da Eliana, uma das amigas das minhas irmãs. Com certeza, tem o toque do pessoal do seo Miranda, eles tinham uma tendência terrível à sátira.

A CENA MAIS CÔMICA
(Seo Milton ensinando o alfabeto a Irãmílton na sala da casa, na quadra B do Conjunto Primavera.)

SEO MILTON (Com muita paciência): Repete “tomido” [comigo]: Á.
IRÃMÍLTON: Á.
SEO MILTON: Bê.
IRÃMÍLTON: Bê.
SEO MILTON: Cê.
IRÃMÍLTON: Cê.
SEO MILTON: Dê.
IRÃMÍLTON: Dê.
SEO MILTON: É.
IRÃMÍLTON: É.
SEO MILTON: Éfe.
IRÃMÍLTON: Éfe.
SEO MILTON: Gê.
IRÃMÍLTON: Gê.
SEO MILTON: Adá.
IRÃMÍLTON: Adá.
SEO MILTON: Adá, não: Adá!
IRÃMÍLTON: Adá!
SEO MILTON (Um pouco impaciente): Adá, não: Adá!!!
IRÃMÍLTON: Adá!
SEO MILTON: (Bem mais impaciente): Adá, não, seo tôrra: Adá!!!!!!
IRÃMÍLTON: Adá, pai!
SEO MILTON (Dá um brogue no Irãmílton): Adá, não, tôrra, repete “tomido”: Adá!!!!!!!!!!!
IRÃMÍLTON: Adá, pai!!!!!!!!!! (Mais um brogue e seo Mílton sai zangado.)

Foi hilária mesmo essa lição de casa! Nossa, seo Milton novamente foi traído pela sensação de estar pronunciando o fonema correto estando a falar outro! E o mais irônico de tudo é que, na transformação dos fonemas que se-dava com seo Milton, no meio de tantos sons, ele ainda conseguia, sem dente algum na boca, pronunciar, na maioria das vezes, os fonemas linguodentais /tê/ e /dê/ e também os labiodentais, /fê/ e /vê/. Isso é que é um personagem pronto pra fazer parte, com essa cena acima, do anedotário loco-nacional. Taí, gente, é só espalhar. A graça se-deu assim. Fácil. Nas rodas do bairro.


(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Deleituras Crônicas, 2011.)

domingo, 18 de setembro de 2011

AINDA SATÍRICA, A MENTE, À MODA DAS ANTIGAS



O poder do Poeta continua sendo a Boca dos Infernos


Pode o Poeta,
Ser rico,
ser pobre;
que não é de cobre
a Sua amizade 
é mais forte!
é honesta!

Pode o Poeta,
por palavras,
pôr pedradas
em Sua fala ao inimigo,
que só irá atingi-lo
e desfigurá-lo
a metáforas!

Pode o Poeta,
andar térreo,
andar nas nuvens,
de jeito meio aéreo;
qu'inda é dos Infernos
a Sua Boca de Guerra:
"Mato-os!"

Pode o Poeta,
colar de prata & pena,
colar, em Seu poema,
um mote dum Mestre velho,
que lerá seco Seu verbo,
pela pilhéria com veneno
aos vermes!

Pode o Poeta,
a licença poética,
à licença dar poéticas
em Seu rudo verso,
que aqueles ledores
bem maldizente lerão
Sua lírica acérrima!
 

Pode o Poeta,
a mar de poesias,
amar o que le-faria
um legítimo assassino;
que a ficção, por atrevido,
moldará Sua boca
de satírico!




(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Das Bocadas Infernéticas. WEB: Deleitura, 2011.)



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A JOGAR ESCATOLOGIA NA LÓGICA DA AMBIGUIDADE



politicaca

políticos de merda:
mentem-a-grana-sujam-na-
privada-pública


#*%$!@*(_+*;%$**$%!()*&;¨%$#@¨;*()*¨%$@!!!!!



veia cagadeira está com defeito, mas a salvação divina...

 
O camelô, entre suas bugigangas,
mais um tolete de bosta vende,
feito de um plástico, bem creme,
cor de merda serenada, manca?


O seu católico devoto cliente,
com problemas anais ("nas ancas!"),
fez uma promessa a uma Santa
e espera não mais ficar doente.


Não era prudente um ex-voto dum cu,
e dessas ousadias a Igreja não gosta;
apois, o fiel escolheu (ai, Jesu!)
comprar do camelô esse tolete de bosta!


 Meu Deus, não vá-se-injuriar,
nem diga que essa bosta não presta,
pois, em sua graça, está o meu curar
dessa doença corroída de sangue: merda! 



(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Das Bocadas Infernéticas. WEB: Deleitura, 2011.)




segunda-feira, 15 de agosto de 2011

AQUELAS FLORES AINDA SALTAM NO MEU CÉU!


Quase nenhum garoto do bairro Primavera do final da década de 70 e início da de 80 deixava de admirar os paraquedistas (o hífen foi retirado para não atrapalhar a queda) que executavam suas manobras lá pras bandas da curva do rio Poti, talvez perto da floresta de fósseis que há em seu leito, depois da ponte da Frei Serafim. Com seus paraquedas redondos, aproveitando a corrente de ar que os levaria até a pista do aeroporto, passando por cima de nosso bairro (que beleza!); aquilo era surpreendente para qualquer criança setentoitentona, e isso não era diferente para mim, que vinha, como já o-disse noutras vezes, de uma cidadezinha do interior, que me-madrastou mansamente: essa Alto Longá – domundopróximo – distante. Em Teresina, nesses idos, olhávamos os meninos para cima, à espera de todos (e, em expectativa, de um) pularem.
Hem-hém. Quão fácil era prender a atenção de crianças assim! Sim, tão pouco era necessário. E, imaginem só, assistir à audácia daqueles homens: o desafio de confiar em equipamentos, em tecnologia de afronta à gravidade – dane-se Newton; todos queríamos vê-los saltando davincianamente para um voo planado por asas de tecido sintético! Redondinhos. Sim, os paraquedas ainda eram os redondos, mesmo o italiano engenhoso tendo-os pensado piramidalmente mais pesados e quadrados e os nossos contemporâneos, mais leves e retangulares, com a possibilidade de o paraquedas ter manobrada a sua direção. Então, os meninos de olho no céu, à procura dos pontinhos coloridos que desabrochavam uma flor salva-vidas; perigosa ideia do desejo humano do voar, oqual, ainda hoje, renova suas asas com as penas de outra tecnologia, criada da ciência. Quer ler? Hoje, agosto de 2011, aposto se há tanto alguém nesta ilha terrena que ainda queira voar com o grego, usando as asas de cera que Dédalo criou para si e seu filho, Ícaro (não escrevo do paraquedas de Da Vinci, porque isso já foi feito; a foto que ilustra esse texto comprova-o!).
É, o não ter asas para voar deu ao humano a possibilidade de trabalhar com as mãos (estendam-se os braços), esses Oficiais de Justiça do cérebro. Foram essas mãos, por exemplo, que criaram essa possibilidade de sobreviver qualquer um que pule de qualquer lugar (estático ou célere) estando a tantos metros do chão. Claro que esse “qualquer um” foi somente para ilustração de que há pessoas que fazem isso. Mas não o-é para todos. Para nós, os meninos que observávamos estupefatos de alegria aquela loucura de se-atirar de um avião a mais de dois mil metros de altitude, ainda não havia nada que se-comparasse a isso. E, nesta linha mesma, me-vem à mente o nome dum homem (claro que havia outros com ele!); não, digo, de seu apelido: Louro. Loro (pra confirmar a nossa “morte do ditongo”, já praticada pelos espanhóis, de mais antiga língua).
Quem era esse cara? Ainda hoje sei pouco sobre ele. Certa vez, aqui, em Teresina, encontrei um seu filho, um fotógrafo, de nome Cleyton, não lembro bem (sei que o-conheço), que falou qual era o verdadeiro nome de Louro, seu pai, mas infelizmente perdi isso em minhas agendas; foi mal, Cleyton (nem sei se seu nome é escrito assim), mas talvez alguém possa reconstituir os fatos dessa história teresina, que, junto-com os meninos, também eu vi. Isso, se não já o-tiverem feito. Talvez alguns poucos possam-se-lembrar de Louro e de seus companheiros de saltos. Eles são os primeiros em nossa capital? Eles, de fato e de saltos, não deixaram quaisquer seguidores pelos ares dessas suas quedas de -longe? Quem sabe? Sei que foram ousados. Nem sei se há ainda, aqui, nesta capital, algum grupo que pratique paraquedismo. Aliás, há paraquedismo ainda, aqui, em Teresina, como havia naquela época?
Vixe, eram muitos saltos! Acredito que fosse uma espécie de clube de paraquedismo. Não posso confirmá-lo, mas isto, sim: o Louro era “o Cara”. Era o nome que os caras (como os meninos nos-chamávamos) mais pronunciavam. Todos, abestalhados com aquela habilidade, que vem desde os acrobatas chineses, precursores do paraquedismo de “altas altitudes”, até a ideia-cabeça de Leonardo, o início de uma sequência de ousadias, que ofereceram ao público um Fausto De Veranzio, um Sebastan Le Normand, um Jean-Pierre Blanchard, que já saltava com paraquedas dobrável de seda, ou um André-Jacques Garnerin, o primeiro a desafiar as grandes altitudes, ou uma Genevieve Labrosse, a primeira mulher, e sua sobrinha, Elise, que fez mais de 40 saltos, o que, para a época, era algo surpreendente. Não; somente eles eram ousados a tal ponto no céu. Ah, esses saltos sempre foram perigosos, e nossa expectativa de meninos roía as unhas e nossos heróis tiveram que pagar o preço com suas próprias vidas-próprias e eu, de boca aberta ainda e olhos espremidos, calibrando o olhar, e este texto, por réquiem profano, saltando do meu cérebro, pulando com as mãos nesta tela.
Ao Louro, estas “memórias póstumas”. Elas, que, pelo céu de minha boca passam palavras, puladas por mim, a sonorizar as imagens, que gravadas no “paraquedas do meu cérebro” ficaram a saltar. Não eram elas a borboleta preta nas rodas do quarto, mas pareciam floresinhas pequeninas (bem pituibinhas!) no céu do meu bairro, daquela cidade do tempo em que os meninos, na primavera das idades e no Primavera de suas casas, estavam de olho duro no céu. O salto que eu ainda espero é o de Louro. Como, hoje, o paraquedas pode ser manobrado pelo paraquedista, como tento fazer com estas palavras que saltam de mim num céu de página branca (papel ou tela), quero que ele caia dentro deste poema:


Outra inscrição para um túmulo no ar (o segundo voo)

Meninos,
nas matinês dos
domingos, lá pras
bandas da curva do
rio – com o Poti abaixo
(sim, uma garantia?) –, um
passarinho de metal desovava
no céu sementinhas; e vinham caindo
velocíssimas para, em seguida, abrirem-se
como florzinhas: pequeninas ilhas de cores teresinas,
paridas pelo voo dessas aves ocas, loucas pelas alturas terrenas!
Os meninos esperávamos, sobretudo, sobre todas as altitudes, pelo Louro,
o principal pontinho do grupo dos pulos nos ares do abismo, o príncipe dos
comentários dos caras do bairro, do Primavera  (sempre abismados, os meninos);
entanto, estávamos tão abaixo de entendermos a altura dessa Física, de um artefato
saltado do entendimento davinciano e longíquo. Ah, seos meninos, eu vi também os
saltos do Louro pelo brancinzazul do céu do meu bairro soltos; primaveral flor de vento que voa, e todas voam: o pouso sobre o desejo tão grande e tão baixinho (mítico?) de voar acima dos telhados dos olhos primaverinos. – Lá vai o Louro saltar! – Lá vem o louco! – Lá vai no vento indo. – Vai pro aeroporto. Esse foi o salto que caiu dentro do encanto dos meninos de boca aberta: – Quede os paraquedas? – Quedê? – Cadê? Que pena. Ninguém mais os-espera. Como flores soltas na corrente de ar: elas, pelos louros do desafio à queda-livre, presas dentro deste poema, dos céus das páginas, saltam nos









olhos
dum menino
teresino.



sábado, 13 de agosto de 2011

Três poemas de um novo escritor das antigas



A tela de barro escreveu-se líquido cristal

A pegada
é cuneiforme?
Então, vai, acunha!


novivíssimo escrito do antigo

o escriba egípcio hoje
bem nesta tela com pixels
com esse estilete teclescreve

seu papel (antigo)
rasga ritos & passagens
para esta página líquida   





desmente o trabalho manual da mente

o estilo
ainda nas mãos está 
gravando outras páginas mesmas:

argila, metais, pergaminho, pedras,
papiro, papel (do Nilo),
eletrônica tela...

nelas,
tanta linguagem: sons,
e palavras mil, poemas, imagens...



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Doutor Gojoba, do Primavera pro mundo





Dentro da política habitacional planejada pelo Banco Nacional da Habitação (BNH) para Teresina, a construção do conjunto Primavera, em 1966, foi a terceira obra desse tipo na capital piauiense, antecedida que foi pelos conjuntos Tabuleta e São Raimundo. O Primavera fez, pois, parte da estratégia do governo para atrair a população do interior do Piauí para a “Cidade Verde”, como Coelho Neto a-cunhou (que trocadilho escroto!). Isso deu certo. A partir desse período, a população da “primeira capital planejada do Brasil” passou de noventa e tantos para quase quatrocentos mil habitantes. Somente nos dois primeiros anos desse projeto, de 1966, época do primeiro conjunto habitacional da capital, até 1968, quando foi construído o Parque Piauí, o quinto conjunto, foram vendidas à população cerca de três mil unidades habitacionais. Haja casa para tantos casos!
O meu, o-escrevo: a atração de minha família, vinda do Alto Longá em 1974, também se-deu por esses planos e planejamentos. É. Também, porque mamãe passou um tempão nas oiças de papai pedindo pra ele nos trazer para a capital, para estudar. Ladainha de mãe, coro de professora; alguns de vocês sabem. Persistência, mundivisão, sabença. Assim – ou asnão! –, o Primavera entra nisso, sim; e entramos nele em um Misto (um caminhão com uma boleia de passageiros e uma outra parte, uma carroceria para cargas) fretado por meu pai para trazer-nos e a nossa muda, que dizia tudo – éramos “matueiros”! –, a esta Canaã urbana. Ao chegarmos à “Capital Mafrense”, nossa família, nove pessoas, foi morar em frente às Quadras B e C desse conjunto, no bairro Primavera, que surgiu, claro, a partir daquele.
Foi, então, que o nosso cenário mudou completamente: de bois e bodes a carneiros e cabras e galinhas, que nos-rodeavam na Fazenda Criolis, de nossa família, passando pelas paisagens em volta da casa na rua..., em Alto Longá, chegamos aos “cabras de peia”,  às comadres e aos “caras” desta cidade. Cenário novo; novas personagens. E, ainda mais, um novo palco para nós: papai comprou uma casa nova na outra esquina do mesmo quarteirão onde morávamos, pois a que habitávamos era de aluguel. Obras, nessa nova casa, ainda inacabada: paredes sem reboco, piso bruto, banheiro externo, cerca de arame... É melhor chamar um pedreiro. Obragem.
Era uma vez, então, o Gojoba, o pedreiro da área, do bairro, ou melhor, do conjunto. Gojoba morava lá embaixo; é fácil chamá-lo. “Às vezes, até no domingo dá, se eu não tiver bebendo”. Gojoba era querido de todos, principalmente, dos filhos do seo Domingo, o alfaiate. Netão, Pedro Cão, Zé “Orea” e Paulo Cenoura, se tiverem bebendo, o Gojoba tava lá. E foi desse jeito que aconteceu uma anedota conhecidíssima no Primavera, entre os  moradores das décadas de 70 e 80, claro. Ela virou até piada na boca do humorista Dirceu Andrade. É, foi hilário. Caso de anedota mesmo. História pra boi sorrir!
Mas não vou contá-la literalmente; tentarei somente escrever o que possivelmente tenha havido. Não sei se o Pedro Cão já havia-se-formado ou se ainda estava cursando Medicina na UFPI. O certo é que haveria uma festa, parece-me que ligada aos acadêmicos desse curso. Pedro Cão, claro, deveria ir. Aliás, sempre ia a esse tipo de comemoração. Só que a decisão foi tomada numa bebedeira da turma, talvez na quitanda do seo Juarez ou, quem sabe, em frente de casa, com a criatividade de se-misturar a bebida destilada com algum refresco de fruta (o maracujá, por exemplo, dava um coquetel excelente), para fazer o bate-bate, ou com qualquer refrigerante, dependo da cachaça utilizada, para fazer a cuba, o hi-fi (pra minha turma, simplesmente, "vodka com Fanta laranja"). Nas farras mais baquianas, o Gojoba dava o barro de sua graça, e o pessoal socializava a bebida. Pois é, numa dessas, a turma decidiu que levaria Gojoba para uma festa. Aliás, Doutor Gojoba; era assim que eles iriam apresentá-lo a todos. Nisso, certo, havia uma boa dose (dá-lhe, cana!) de preconceito ou de previdência quanto a possíveis preconceitos de outras pessoas. Afinal, Gojoba era um simples pedreiro. É, Gojoba ia ser o Doutor Gojoba, o que é que tem?
Botou uma beca o Gojoba, e vamos lá. Festa vai, bebidas vêm; Gojoba já estava entrosado com todos, inclusive, com as colegas de curso de Pedro Cão. Era Doutor Gojoba pra cá; Doutor Gojoba pra lá. “Doutor Gojoba, o senhor acredita que...”. “Doutor Gojoba, o senhor já estudou aquele caso...”. “Doutor Gojoba...”. Gojoba, a princípio, achou graça dessa parada de “Doutor”. “Porra, aqui tá chei de coroa!”. Curtiu à vontade, principalmente, porque as acadêmicas o acharam muito engraçado. E a bebida descendo a goela, gelada ou quentíssima. E a cabeça foi enchendo. “Doutor Gojoba, cadê seu copo?”. “Doutor Gojoba, espere mais um pouco”. “Doutor Gojoba, isso; Douto Gojoba, aquilo”. Gojoba ficou cheio disso e se-levantou com a fala-desfecho da anedota:
– Que porra de Doutor Gojoba! Que nada! Eu sou é pedreiro e vou é embora; amanhã eu tenho que acordar cedo, pois eu tenho é três metros de muro pra levantar!