quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A JOGAR ESCATOLOGIA NA LÓGICA DA AMBIGUIDADE



politicaca

políticos de merda:
mentem-a-grana-sujam-na-
privada-pública


#*%$!@*(_+*;%$**$%!()*&;¨%$#@¨;*()*¨%$@!!!!!



A veia cagadeira está com defeito, mas a salvação divina...

 
O camelô, entre suas bugigangas,
mais um tolete de bosta vende,
feito de um plástico, bem creme,
cor de merda serenada, manca?


O seu católico devoto cliente,
com problemas anais ("nas ancas!"),
fez uma promessa a uma Santa
e espera não mais ficar doente.


Não era prudente um ex-voto dum cu,
e dessas ousadias a Igreja não gosta;
apois, o fiel escolheu (ai, Jesu!)
comprar do camelô esse tolete de bosta!


– Meu Deus, não vá-se-injuriar,
nem diga que essa bosta não presta,
pois, em sua graça, está o meu curar
dessa doença corroída de sangue: merda! 



(LUIZ FILHO DE OLIVEIRA. Das Bocadas Infernéticas. WEB: Deleitura, 2011.)




segunda-feira, 15 de agosto de 2011

AQUELAS FLORES AINDA SALTAM NO MEU CÉU!


Quase nenhum garoto do bairro Primavera do final da década de 70 e início da de 80 deixava de admirar os paraquedistas (o hífen foi retirado para não atrapalhar a queda) que executavam suas manobras lá pras bandas da curva do rio Poti, talvez perto da floresta de fósseis que há em seu leito, depois da ponte da Frei Serafim. Com seus paraquedas redondos, aproveitando a corrente de ar que os levaria até a pista do aeroporto, passando por cima de nosso bairro (que beleza!); aquilo era surpreendente para qualquer criança setentoitentona, e isso não era diferente para mim, que vinha, como já o-disse noutras vezes, de uma cidadezinha do interior, que me-madrastou mansamente: essa Alto Longá – domundopróximo – distante. Em Teresina, nesses idos, olhávamos os meninos para cima, à espera de todos (e, em expectativa, de um) pularem.
Hem-hém. Quão fácil era prender a atenção de crianças assim! Sim, tão pouco era necessário. E, imaginem só, assistir à audácia daqueles homens: o desafio de confiar em equipamentos, em tecnologia de afronta à gravidade – dane-se Newton; todos queríamos vê-los saltando davincianamente para um voo planado por asas de tecido sintético! Redondinhos. Sim, os paraquedas ainda eram os redondos, mesmo o italiano engenhoso tendo-os pensado piramidalmente mais pesados e quadrados e os nossos contemporâneos, mais leves e retangulares, com a possibilidade de o paraquedas ter manobrada a sua direção. Então, os meninos de olho no céu, à procura dos pontinhos coloridos que desabrochavam uma flor salva-vidas; perigosa ideia do desejo humano do voar, oqual, ainda hoje, renova suas asas com as penas de outra tecnologia, criada da ciência. Quer ler? Hoje, agosto de 2011, aposto se há tanto alguém nesta ilha terrena que ainda queira voar com o grego, usando as asas de cera que Dédalo criou para si e seu filho, Ícaro (não escrevo do paraquedas de Da Vinci, porque isso já foi feito; a foto que ilustra esse texto comprova-o!).
É, o não ter asas para voar deu ao humano a possibilidade de trabalhar com as mãos (estendam-se os braços), esses Oficiais de Justiça do cérebro. Foram essas mãos, por exemplo, que criaram essa possibilidade de sobreviver qualquer um que pule de qualquer lugar (estático ou célere) estando a tantos metros do chão. Claro que esse “qualquer um” foi somente para ilustração de que há pessoas que fazem isso. Mas não o-é para todos. Para nós, os meninos que observávamos estupefatos de alegria aquela loucura de se-atirar de um avião a mais de dois mil metros de altitude, ainda não havia nada que se-comparasse a isso. E, nesta linha mesma, me-vem à mente o nome dum homem (claro que havia outros com ele!); não, digo, de seu apelido: Louro. Loro (pra confirmar a nossa “morte do ditongo”, já praticada pelos espanhóis, de mais antiga língua).
Quem era esse cara? Ainda hoje sei pouco sobre ele. Certa vez, aqui, em Teresina, encontrei um seu filho, um fotógrafo, de nome Cleyton, não lembro bem (sei que o-conheço), que falou qual era o verdadeiro nome de Louro, seu pai, mas infelizmente perdi isso em minhas agendas; foi mal, Cleyton (nem sei se seu nome é escrito assim), mas talvez alguém possa reconstituir os fatos dessa história teresina, que, junto-com os meninos, também eu vi. Isso, se não já o-tiverem feito. Talvez alguns poucos possam-se-lembrar de Louro e de seus companheiros de saltos. Eles são os primeiros em nossa capital? Eles, de fato e de saltos, não deixaram quaisquer seguidores pelos ares dessas suas quedas de lá-longe? Quem sabe? Sei que foram ousados. Nem sei se há ainda, aqui, nesta capital, algum grupo que pratique paraquedismo. Aliás, há paraquedismo ainda, aqui, em Teresina, como havia naquela época?
Vixe, eram muitos saltos! Acredito que fosse uma espécie de clube de paraquedismo. Não posso confirmá-lo, mas isto, sim: o Louro era “o Cara”. Era o nome que os caras (como os meninos nos-chamávamos) mais pronunciavam. Todos, abestalhados com aquela habilidade, que vem desde os acrobatas chineses, precursores do paraquedismo de “altas altitudes”, até a ideia-cabeça de Leonardo, o início de uma sequência de ousadias, que ofereceram ao público um Fausto De Veranzio, um Sebastan Le Normand, um Jean-Pierre Blanchard, que já saltava com paraquedas dobrável de seda, ou um André-Jacques Garnerin, o primeiro a desafiar as grandes altitudes, ou uma Genevieve Labrosse, a primeira mulher, e sua sobrinha, Elise, que fez mais de 40 saltos, o que, para a época, era algo surpreendente. Não; somente eles eram ousados a tal ponto no céu. Ah, esses saltos sempre foram perigosos, e nossa expectativa de meninos roía as unhas e nossos heróis tiveram que pagar o preço com suas próprias vidas-próprias e eu, de boca aberta ainda e olhos espremidos, calibrando o olhar, e este texto, por réquiem profano, saltando do meu cérebro, pulando com as mãos nesta tela.
Ao Louro, estas “memórias póstumas”. Elas, que, pelo céu de minha boca passam palavras, puladas por mim, a sonorizar as imagens, que gravadas no “paraquedas do meu cérebro” ficaram a saltar. Não eram elas a borboleta preta nas rodas do quarto, mas pareciam floresinhas pequeninas (bem pituibinhas!) no céu do meu bairro, daquela cidade do tempo em que os meninos, na primavera das idades e no Primavera de suas casas, estavam de olho duro no céu. O salto que eu ainda espero é o de Louro. Como, hoje, o paraquedas pode ser manobrado pelo paraquedista, como tento fazer com estas palavras que saltam de mim num céu de página branca (papel ou tela), quero que ele caia dentro deste poema:


Outra inscrição para um túmulo no ar (o segundo voo)

Meninos,
nas matinês dos
domingos, lá pras
bandas da curva do
rio – com o Poti abaixo
(sim, uma garantia?) –, um
passarinho de metal desovava
no céu sementinhas; e vinham caindo
velocíssimas para, em seguida, abrirem-se
como florzinhas: pequeninas ilhas de cores teresinas,
paridas pelo voo dessas aves ocas, loucas pelas alturas terrenas!
Os meninos esperávamos, sobretudo, sobre todas as altitudes, pelo Louro,
o principal pontinho do grupo dos pulos nos ares do abismo, o príncipe dos
comentários dos caras do bairro, do Primavera  (sempre abismados, os meninos);
entanto, estávamos tão abaixo de entendermos a altura dessa Física, de um artefato
saltado do entendimento davinciano e longíquo. Ah, seos meninos, eu vi também os
saltos do Louro pelo brancinzazul do céu do meu bairro soltos; primaveral flor de vento que voa, e todas voam: o pouso sobre o desejo tão grande e tão baixinho (mítico?) de voar acima dos telhados dos olhos primaverinos. – Lá vai o Louro saltar! – Lá vem o louco! – Lá vai no vento indo. – Vai pro aeroporto. Esse foi o salto que caiu dentro do encanto dos meninos de boca aberta: – Quede os paraquedas? – Quedê? – Cadê? Que pena. Ninguém mais os-espera. Como flores soltas na corrente de ar: elas, pelos louros do desafio à queda-livre, presas dentro deste poema, dos céus das páginas, saltam nos









olhos
dum menino
teresino.



sábado, 13 de agosto de 2011

Três poemas de um novo escritor das antigas



A tela de barro escreveu-se líquido cristal

A pegada
é cuneiforme?
Então, vai, acunha!


novivíssimo escrito do antigo

o escriba egípcio hoje
bem nesta tela com pixels
com esse estilete teclescreve

seu papel (antigo)
rasga ritos & passagens
para esta página líquida   





desmente o trabalho manual da mente

o estilo
ainda nas mãos está 
gravando outras páginas mesmas:

argila, metais, pergaminho, pedras,
papiro, papel (do Nilo),
eletrônica tela...

nelas,
tanta linguagem: sons,
e palavras mil, poemas, imagens...



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Doutor Gojoba, do Primavera pro mundo





Dentro da política habitacional planejada pelo Banco Nacional da Habitação (BNH) para Teresina, a construção do conjunto Primavera, em 1966, foi a terceira obra desse tipo na capital piauiense, antecedida que foi pelos conjuntos Tabuleta e São Raimundo. O Primavera fez, pois, parte da estratégia do governo para atrair a população do interior do Piauí para a “Cidade Verde”, como Coelho Neto a-cunhou (que trocadilho escroto!). Isso deu certo. A partir desse período, a população da “primeira capital planejada do Brasil” passou de noventa e tantos para quase quatrocentos mil habitantes. Somente nos dois primeiros anos desse projeto, de 1966, época do primeiro conjunto habitacional da capital, até 1968, quando foi construído o Parque Piauí, o quinto conjunto, foram vendidas à população cerca de três mil unidades habitacionais. Haja casa para tantos casos!
O meu, o-escrevo: a atração de minha família, vinda do Alto Longá em 1974, também se-deu por esses planos e planejamentos. É. Também, porque mamãe passou um tempão nas oiças de papai pedindo pra ele nos trazer para a capital, para estudar. Ladainha de mãe, coro de professora; alguns de vocês sabem. Persistência, mundivisão, sabença. Assim – ou asnão! –, o Primavera entra nisso, sim; e entramos nele em um Misto (um caminhão com uma boleia de passageiros e uma outra parte, uma carroceria para cargas) fretado por meu pai para trazer-nos e a nossa muda, que dizia tudo – éramos “matueiros”! –, a esta Canaã urbana. Ao chegarmos à “Capital Mafrense”, nossa família, nove pessoas, foi morar em frente às Quadras B e C desse conjunto, no bairro Primavera, que surgiu, claro, a partir daquele.
Foi, então, que o nosso cenário mudou completamente: de bois e bodes a carneiros e cabras e galinhas, que nos-rodeavam na Fazenda Criolis, de nossa família, passando pelas paisagens em volta da casa na rua..., em Alto Longá, chegamos aos “cabras de peia”,  às comadres e aos “caras” desta cidade. Cenário novo; novas personagens. E, ainda mais, um novo palco para nós: papai comprou uma casa nova na outra esquina do mesmo quarteirão onde morávamos, pois a que habitávamos era de aluguel. Obras, nessa nova casa, ainda inacabada: paredes sem reboco, piso bruto, banheiro externo, cerca de arame... É melhor chamar um pedreiro. Obragem.
Era uma vez, então, o Gojoba, o pedreiro da área, do bairro, ou melhor, do conjunto. Gojoba morava lá embaixo; é fácil chamá-lo. “Às vezes, até no domingo dá, se eu não tiver bebendo”. Gojoba era querido de todos, principalmente, dos filhos do seo Domingo, o alfaiate. Netão, Pedro Cão, Zé “Orea” e Paulo Cenoura, se tiverem bebendo, o Gojoba tava lá. E foi desse jeito que aconteceu uma anedota conhecidíssima no Primavera, entre os  moradores das décadas de 70 e 80, claro. Ela virou até piada na boca do humorista Dirceu Andrade. É, foi hilário. Caso de anedota mesmo. História pra boi sorrir!
Mas não vou contá-la literalmente; tentarei somente escrever o que possivelmente tenha havido. Não sei se o Pedro Cão já havia-se-formado ou se ainda estava cursando Medicina na UFPI. O certo é que haveria uma festa, parece-me que ligada aos acadêmicos desse curso. Pedro Cão, claro, deveria ir. Aliás, sempre ia a esse tipo de comemoração. Só que a decisão foi tomada numa bebedeira da turma, talvez na quitanda do seo Juarez ou, quem sabe, em frente de casa, com a criatividade de se-misturar a bebida destilada com algum refresco de fruta (o maracujá, por exemplo, dava um coquetel excelente), para fazer o bate-bate, ou com qualquer refrigerante, dependo da cachaça utilizada, para fazer a cuba, o hi-fi (pra minha turma, simplesmente, "vodka com Fanta laranja"). Nas farras mais baquianas, o Gojoba dava o barro de sua graça, e o pessoal socializava a bebida. Pois é, numa dessas, a turma decidiu que levaria Gojoba para uma festa. Aliás, Doutor Gojoba; era assim que eles iriam apresentá-lo a todos. Nisso, certo, havia uma boa dose (dá-lhe, cana!) de preconceito ou de previdência quanto a possíveis preconceitos de outras pessoas. Afinal, Gojoba era um simples pedreiro. É, Gojoba ia ser o Doutor Gojoba, o que é que tem?
Botou uma beca o Gojoba, e vamos lá. Festa vai, bebidas vêm; Gojoba já estava entrosado com todos, inclusive, com as colegas de curso de Pedro Cão. Era Doutor Gojoba pra cá; Doutor Gojoba pra lá. “Doutor Gojoba, o senhor acredita que...”. “Doutor Gojoba, o senhor já estudou aquele caso...”. “Doutor Gojoba...”. Gojoba, a princípio, achou graça dessa parada de “Doutor”. “Porra, aqui tá chei de coroa!”. Curtiu à vontade, principalmente, porque as acadêmicas o acharam muito engraçado. E a bebida descendo a goela, gelada ou quentíssima. E a cabeça foi enchendo. “Doutor Gojoba, cadê seu copo?”. “Doutor Gojoba, espere mais um pouco”. “Doutor Gojoba, isso; Douto Gojoba, aquilo”. Gojoba ficou cheio disso e se-levantou com a fala-desfecho da anedota:
– Que porra de Doutor Gojoba! Que nada! Eu sou é pedreiro e vou é embora; amanhã eu tenho que acordar cedo, pois eu tenho é três metros de muro pra levantar!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poesia: um dos ondes humanos


catalogação da obra ou o poema dá obragem

poesia universal
poesia via-lacteana
poesia sistêmico-solar
poesia terrenumana
poesia sul-ocidental
poesia sul-americana

poesia brasileira
poesia nordestina
poesia meio-nortista
poesia piauienssísima
poesia campurbana
poesia todo-bairrista

poesia caseira
poesia de gabinete
poesia de mesa
poesia de papel
poesia de tela:
poesia mesma!

(Em qualquer desses lugares e neles todos.)


Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2003.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

ESTOU “DIRETAMENTE INTERESSADO” EM METADE DE SUA CASA


Desde que nos disponibilizaram esta promoção “a folote”, que é a internet, nunca mais fiz leituras de jornais impressos como o fazia anteriormente à assunção dessa “atitude suspeita”. É, jornais online, como o JB, a Folha, o Globo, o New York Time, o Le Monde, o El País, e o Meio-Norte, claro (não escute o escuro da minha opinião, não), a preço de lan house ou a de modem pré-pago ou de conta mensal com “os gigantes da rede” é algo que não se deve deixar de aproveitar mesmo. Tudo bem, há diferenças. Apois. Isturdiinha (sábado, 03/07), eu estava folheando o jornal Meio-Norte impresso (a redundância é um exemplo pros meus alunos; mania de professor!), aproveitando o que a padaria onde tomo café oferece “de grátis”, e não é que me deparei com este “argumento rabulesco”, meu povo: o plebiscito sobre a criação do Gurgueia deve ocorrer apenas nas cidades que comporão o suposto Estado, que, segundo o “genial” autor dessa tese, é, sim, a “população diretamente interessada” nessa divisão, conforme reza a Constituição.
Não, não, o senhor está certo, “doutor” (pus as aspas porque não sei se o ilustre advogado, que é o autor da tese aludida acima, é, de fato – e de direito! –, pós-graduado com um doutoramento). O senhor está certo, porque não tenho dúvidas de que a maioria da população dessa região está realmente “interessada” nessa divisão do Piauí em dois; o que se dirá dos políticos! Mas não quero discutir, aqui, essa questão secundária; o que venho defender, com este meu texto, é algo primevo (daqui, do Primavera, ou de lá, do primitivo das Capivaras!), é o meu direito de estar “diretamente interessado” em ser consultado se houver um plebiscito acerca dessa separação, separatistas! Não, data venia, “doutor” – e dados (data!) venham! –, eu não concordo com o senhor nem com os sul-piauienses (por que não denominam o novo Estado de Piauí do Sul, como o querem os sul-maranhenses a respeito do Estado deles?). E, para “marcar o território" dessa minha oposição, gostaria de propor-lhe uma questão satírico-jurídica, que eu chamarei de “A questão de Hermanomeu” (como falei, essa titulação é só para dar ares ao texto de “profundo”, “sapiente”, “intelectual”, manca?).
Explico; melhor, argumento, ou melhorinda, proponho, merimão: se o senhor tivesse um imóvel (tá bom, uma casa!) registrado em seu nome e lhe fosse proposto dividi-lo entre mim e o senhor, nas mesmas proporções em que se quer dividir este Estado em Piauí e Gurgueia, quem deve ser consultado para decidir essa questão, somente eu ou eu e o senhor? Que bom que o senhor tem a opinião de que deve ser somente eu quem deva decidir um tal “interesse público”. Estou precisando mesmo de uma “verba” como essa. Quanta palavra e quanto número vão ser gastos! Estava precisando disso. Mas não se preocupe, não há possibilidade de “coabitarmos o mesmo lar”; por isso e pela legítima “incompatibilidade de gênios”, venderei a minha parte a alguém, e a pessoa que tem a preferência é o senhor mesmo. Pra ficar na paz, mano. E digo mais: não se preocupe, pois há “saída jurídica” para uma proposição tão tola quanto essa; ainda mais, que é feita por um estudante graduado em Letras, que efeito terá? Deixa quieto.
Contudo, quero continuar defendendo meu grito com tudo, na tubada deste texto. Rápido e rasteiro. Grosso modo, grosseiro. Mas o ser ruda a minha opinião não a desqualifica nem a “tipifica criminalmente”. E menos: citar o artigo, o parágrafo, o inciso ou a alínea da Constiuição Federal ou, como queira o advoguês, da Carta Magna não dá autoridade a seu argumento, seo dotô. Arrepare que, com isso, o siô pode estar até rabulando, e isso é feio se é assim (se é assado não sei, mas a batata está...). Apois. Na Constituição, a expressão “a população diretamente interessada”, no caso de nosso (?) plebiscito, refere-se à do Piauí. Por quê? Ora, se a Constituição é Federal e a divisão de que trata essa questão é a de um Estado da Federação; então, a quem isso “interessa diretamente”, senão à população desse Estado, nesse caso, a do Piauí (afinal, cineasmente falando, essa pôrra ainda nem foi dividida!)? Assunte: eu já tô metendo gente (olha o respeito, nem pense num “em” nesse lugar!) importante nessa pendenga. Vixe, deus-me-livre de me topar com o Ancião. Não quero briga, mestre; isso só se não tiver jeito. Mas eu tô é brincando mesmo.
Escrevo: pilera à parte, não tem nadazaver esta minha opinião com despeito ou falta de respeito. Hem-hém, e este cabôco do interior do Piauí (ilustres Piaguí e Tabajaras!) é besta por acaso? Não sou nenhum bodim pra querer caçar conversa com um “doutor da lei”, nem com um Mestre das Letras. Eu mesmo não quero papo: o meu ponto final nessa questão abre as reticências para o debate de quem quiser. Minha opinião é esta: eu devo, sim, ser consultado sobre essa divisão do Piauí, constitucionalmente falando. E não vou mentir (mesmo sem ter medo dessa parada pagã, cristã ou muçulmana de inferno): sou contra. E pronto. E ponto (senão, me dá metade da sua casa, dotô). Eita terrinha quintura; o mais besta, aqui, é presidente de qualquer furdunço.



Por Luiz Filho de Oliveira, poeta de um Estado só e de dois livros apenas, BardoAmar e Onde Humano.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Hans Staden narrou, Theodor de Bry desenhou e eu poetei (satírica mente)



onde o protesto é um parente distante no tribunal mais próximo

conforme testemunho
tão bem ilustrado por Theodor editor ilustre
os tupis criaram o modelo universal de churrasqueira
(aquela com um gradeado para segurar a carne da presa)
bem ao gosto & ao tamanho do Brasil: pro mundo capital!

portanto e por tanto e mais tantos por cento do lucro devido
exije indenização por essa patente nativa
um poeta (à parte) nesta ação contra o mercado
que o modelo tem copiado após o alemão Hans
levar a brasa embora nas memórias
mora?
(talvez juro)

(Em churrasco de poesia, comendo irmãozinhos de outras tribos.)


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

NOTAS DUM PIAGA DE CÁ DO PIAUÍ


Quando eu fui editar o meu segundo trabalho em poesia, Onde Humano (Teresina: Nova Aliança, 2009), achei importante fazer algumas notas de esclarecimento acerca de determinados termos e expressões que apareceriam nos poemas desse livro. Era justo, pois muitos dos que fossem lê-lo, não versados em piauiês, nordestinês ou sertanês, poderiam não entender certos vestígios dos falares que incorporei em minha língua.


Pensei: eles não vão ter a mesma intimidade que tive ao ler os autores que compunham a “Literatura do Norte”, como escreveu Tobias Barreto acerca dos livros de cultura nordestina, daqueles com sotaque da terrinha. Tá lendo? Esse “diminutivo emotivo” é coisa de nordestino mais que todos, do que tudo de brasileiro; esse falar que faz sentido, por exemplo, no texto de Francisco Gil Castelo-Branco, Ataliba, o Vaqueiro. Nessa obra (a primeira que trata do tema “seca” na literatura brasileira), o prosador piauiense demonstra claramente a sua preocupação em descrever o falar do sertão Piauí do século XIX e em deixar claro o significado de palavras ou expressões regionais que utilizava em sua prosa; afinal, estava ele escrevendo no Rio de Janeiro de 1878, no jornal Diário de Notícias, para um público diverso, leitores de folhetim que desconheciam o falar de sua “terra de piagas”. Não é de se-estranhar, portanto, que ele dê uma explicação dicionarizada a alguns termos do falar do sertão piauiense utilizados no seu texto, sobretudo, aos que dizem respeito à atividade do “herói do sertão”, o vaqueiro (não é Jerônimo; é Ataliba!): perneira, guarda-peito, gibão, sô, febre malina, cachingando, dentre tantos regionalismos; brasileiríssimos!


Continuei pensando: esses possíveis leitores também não iriam ter um idílio com os idiotismos do sertão brasileiro (do Norte ou Centro-Norte), como eu tive ao ler o famigerado Grande Sertão: Veredas, essa prosa maravilhosa do seo João. Ah, viver escrevendo é mesmo algo muito perigoso! Pensei terminando: os meus leitores que não forem dessas “quadradezas” não vão-se-sentir em casa, ao provarem do hem-hém, do de-nelson, do vixe, do bodim, do Lá no Piauí ou mesmo dos sentidos que podem ser explorados a partir da etimologia do nome deste estado: Piauí.


Foi justo; eu fiz: pus umas tantas notas no livro, as quais me-deram muito trabalho para defini-las. Porém, de todas elas, aqui, neste sítio, gostaria de me-reportar-me-repetindo a duas delas somente. A primeira é aquela em que me-refiro à expressão Lá no Piauí, que, gostem ou não os piauienses, remete às origens deste estado, à “terra de gado” ou à “Fazenda Piauí”, como escreve o Aírton Sampaio (autor daqui do Piauí). A outra nota é a que implica a explicação sobre a origem da palavra Piauí, de sua etimologia. Para início desta conversa-escrito, vou começar por esta última, porquanto a mais necessária; porisso, a primeira. Na referência a essa nota, faço menção ao que escreveu o douto professor de História e de Filologia Ludwig Schwennhagen, membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena, Áustria, em seu livro Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado, primeiro, pela Imprensa Oficial do Piauí, em 1928, e em segunda (1970), terceira (1976) e quarta (1986) edições, pela Livraria Editora Cátedra, do Rio de Janeiro, com apresentação e notas de Moacir C. Lopes.  


Esta nota aqui, portanto, é importante, porque (notem!), desde que me-conheço-por-gente, eu já ouvia a explicação de que o nome Piauí significava “terra de piau”. E leiam que eu ainda não sabia desta significação de “rios dos piaus ou rio dos peixes de pele manchada”, que ensinou o professor A. Tito Filho nas notas que escreveu para a reedição da obra Cronologia Histórica do Estado do Piauí, de Francisco Augusto Pereira da Costa, em  1974, no Rio de Janeiro, pela Editora Artenova. É, muitos rios; então, muita água rolava. Assim, o peixe era raiz também. Não está aí o nosso emepebelíssimo instrumentista Renato Piau para tocar no assunto? Quantos conterrâneos ainda não no-fazem como ele, grafam (e garfam!) o peixe para dar a isca (a pista!) de que são piauienses?


Tal significação ainda hoje é propagada em cadeiras (de madeira, pois o C... é De Ferro!) de escolas desta minha terra quentíssima. Isso eu li no próprio professor e filólogo A. Tito Filho, como o-escrevi acima, nas notas que esse estudioso piauiense fez à excelente obra de Francisco Augusto Pereira da Costa, historiador pernambucano que residiu no Piauí quando exerceu cargo público no governo. E notem que, na primeira edição da Cronologia, como já o-constatara Schwennhagen em 1928, Pereira da Costa cita documentos do Estado, dos séculos XVII e XVIII, nos quais aparecem escritas as palavras que eram utilizadas para nomear Piauí. Vamos ler o que escreveu (a ótica é dele!) o lente austríaco acerca da etimologia dessa palavra:


“A chave para compreender a fundação e significação das ‘Sete Cidades’ dá-nos o antigo nome de Piauhy, que era ‘Piaguí’. Nos documentos históricos que juntou F. A. Pereira da Costa na sua excelente ‘Cronologia’, encontramos as formas: Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, mas nunca Piauhy [observem que, em 1928, o nome do Estado ainda era escrito assim!], que apareceu pela primeira vez em 1739. Somente nos primeiros séculos do Império foi adotada, como nome oficial da província, a grafia Piauhy, e ignorantes explicam esse nome como ‘rio de peixe piau’.


“Piaguí não pode ter outro significado do que ‘Casa (...), terra dos piagas’, a terminação i, na língua tupi, indica o ‘locativo’, como em latim, no grego e nas línguas pelasgas. As letras i e y significam no tupi ‘água’ ou ‘riacho’, na posição de prefixo, como em igara, igarapé, Ipiranga, Icatu etc. Existem exceções dessa regra; mas ‘Piaguí’ não é uma tal” (Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1986, p.103.).

 

Desconjuro! Vixe, que weltanschaaung, Schwennhagen! É muita mundivisão junta numa significação, aparentemente, tão simples; o que mostra toda a “catigoria” desse historiador tão ignorado pela comunidade científica desta pátria que não no-pariu, e ainda mais deste estado! Mas essa é uma questão de que tratarei somente adiante; agoraqui, o que quero escrever, primeiro, é que essas referências ao Piauí, como Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, Schwennhagen leu no livro de Pereira da Costa em sua primeira versão, a de 1909, já que esse intelectual austríaco residiu em Teresina no final da década de 1920. Na edição da Cronologia que tenho às mãos, a de 1974, da Editora Artenova, pude constatar a presença de Piaguí, Piagohy, Piaguhy e Piaugui; portanto, não aparecem, nessa segunda edição do livro de Pereira da Costa, duas nomeações citadas pelo austríaco (Piagoy e Piagohi), e ainda são acrescidas duas outras (Piagohy e Piaugui) à lista toda. Contudo, essa barafunda não afunda a observação de Schwennhagen de que “o antigo nome de Piauhy era Piaguí”; ao contrário, reforça-a mais ainda.


Será que A. Tito Filho ignorava mesmo essa explicação de Schwennhagen ou quis somente sustentar a sua hipótese (muito distinta da do austríaco)? Por que ele não levou em consideração as palavras citadas nos documentos apontados por Pereira da Costa, já que elas estão presentes na edição, publicada sob os auspícios do Estado do Piauí, em que, nela, A. Tito, trabalhou em 1974? Quem morrer saberá, porque quem vive este texto, como eu, vivo, (data venia: datas vão!) discorda da versão do mestre piauiense. E o-faço não somente pelos argumentos que utiliza em seu livro Ludwig Schwennhagen (o que já seria suficiente, a meu escrever, ler e ver), mastambém pelo que escreve o próprio A. Tito Filho em uma das notas da edição de 1974; senão, leiamos:


“Bugyja Brito trata exaustivamente do y em palavras tupis, quando passaram ao português. O y representava o som gutural de certas palavras. Foi o caso de Piauí: ‘Presenciei – diz ele – no interior do Estado do Piauí, não faz muitos anos, em zonas de pleno sertão, indivíduos segregados em virtude da falta de intercâmbio com a capital e com outros municípios mais florescentes, manterem a pronúncia da palavra Piauí como se fosse um som entre Piaurü e Piaugü, o que significa que, quando se grafou a palavra Piauhy, isto é, quem a fez, primitivamente, escreveu-a com h e y (há documentos em que apareceram as formas Piaguy e Piauguhy) a fim de que fosse traduzido um som equivalente. Um h aspirado junto a um y daria a pronúncia que foi então usada e que é a mesma que nos pareceu, naquela oportunidade, ter-se mantido nas zonas entre indivíduos remanescentes de antigos silvícolas” (Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1974, p.58.).


Poisbem, não resta dúvida de que essa raiz piag- faz parte da origem do nome hoje escrito Piauí, pois não são poucos os registros dela em documentos oficiais do Estado, dos séculos XVII e XVIII. A significação de “terra, casa de piagas” é, portanto, a mais plausível porque, se levarmos em consideração outros cronistas da história brasileira, leremos que o próprio padre José de Anchieta fora chamado, pelos nativos brasileiros do século XVI, de o “grande piahy”, ou seja, o grande piaga, o grande sacerdote; o que confere ao nome Piaguí essa denotação relativa a “piaga”. Não importa se metaplasmos incansáveis alteraram a grafia do topônimo “Piauí”; a origem dá-nos “piaga”, é fato, escrito. Os argumentos históricos e linguísticos listados por Schwennhagen são contundentes, atestam isto: essa significação é legítima. Resta saber de onde vêm as fontes de A. Tito Filho, para compará-las às do austríaco, apois.


Porfim, a segunda nota de que gostaria de escrever, a qual, aqui, se-torna a última, é aquela em que trato de um verso muito conhecido Brasil afora quando, ainda hoje, deve-se fazer uma referência ao Piauí. Não lembram ou não leram? Até o Oswald o-pôs na capa da primeira edição do seu Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade. É uma redondilha menor: Lá no Piauí. Esse verso, mesmo em tempos de infernet, continua sendo lembrado por muitas pessoas de outros estados quando o papo é o Piauí. Não é para menos, esse pentassílabo faz parte de uma quadrinha declamada pelo vaqueiro Mateus, (“O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro/ Lá no Piauí.”), que o historiador pernambucano Pereira Costa afirma estar presente num auto de Natal pernambucano, um cavalo-marinho, de fins do século XVII, ao tempo da colonização do Piauí. Para Sílvio Romero (leia a postagem anterior a esta neste mesmo sítio; nela, há mais detalhes), no seu livro Cantos Populares do Brasil, esse cavalo-marinho é do final do século XVIII.


Datas a parte das notas, o texto colhido por Sílvio Romero ou aquele a que se referia em suas pesquisas Pereira da Costa, é, certamente, prova cabal para que se-evite assertivas completamente tortas, sem rumo, acerca dessa quadrinha, como as que li em um livro daqui do Piauí (não sei se era um volume da UBE-PI; parece que sim, mas não me perguntem sobre os dados catalográficos desse livro, que eu me-desfiz dele) ou para que não cante a música acrescentando a expressão “Ó, maninha!” (que nem é um pentassílabo!) antes do último verso, como a maioria das gentes faz hoje. Isso, inclusive, transforma a estrofe numa quintilha: “O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro,/ Ó maninha,/ Lá no Piauí!”. Essa é a versão que é difundida na internet em qualquer sitiozinho de música ou mesmo de qualquer bobagem (há verdadeiros absurdos; quanta desinformação!). Ela também foi reproduzida numa obra daqui, Coisas Piauienses na Visão Cabocla, de Luiz Rocha, publicado em Teresina, em 1995, pela Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves! Ninguém sabia desse equívoco? Quem sabe! O que eu sei é que é esse o modo de cantar que está presente, hoje, na memória do povo, no folclore popular; o que eu não sei é se esse modo de cantar foi difundido a partir do uso dessa “quadrinha” num musical do teatro de revista carioca, da primeira metade do século XX. Não sei; daí, talvez essa popularidade pelo Brasil afora.



Tudo isso são hipóteses; como a que eu construí acerca da explicação que registrou a historiadora (sim, lembro-me que era uma mulher) no livro a que me-referi acima. É o seguinte: ela escreveu, no seu texto, que a quadrinha foi criada a partir de um fato ocorrido na Câmara Federal, quando a capital do Brasil ainda era o Rio de Janeiro. É cinematograficamente hilária a cena: um cearense (lá vem a piada!), estando deputado federal pelo Piauí, ao receber, em pleno plenário (vazio?),  uma ligação dando conta de que seu boi predileto, o Mimoso (?), morrera, diz os famosos versos: “O meu boi morreu./ Que será de mim?” (não lembro se havia os dois versos finais). Como escrevi, eu não tenho mais esse livro, mas acredito que seja isso mesmo que estava escrito nele. Se estiver equivocado, me-corrijam.


Se houver outro sentido, não no-sei. Ainda bem que fui ter, nos livros, com F. A. Pereira da Costa, Ludwig Schwennhagen e Sílvio Romero; senão estaria ignorante da história dessas versões, informações dignas destas notas. Hem-hém, menino. Eu quero que saibam que elas existem, para que todos tomem o seu assento quanto ao significado do nome deste sítio. Porisso, daqui, repito, perito, aos Piagas Filhos:


O meu boi tá vivo;

Que serão pra mim!

Manda buscar todos,

Cá pro Piauí!