sexta-feira, 13 de maio de 2011

NOTAS DUM PIAGA DE CÁ DO PIAUÍ


Quando eu fui editar o meu segundo trabalho em poesia, Onde Humano (Teresina: Nova Aliança, 2009), achei importante fazer algumas notas de esclarecimento acerca de determinados termos e expressões que apareceriam nos poemas desse livro. Era justo, pois muitos dos que fossem lê-lo, não versados em piauiês, nordestinês ou sertanês, poderiam não entender certos vestígios dos falares que incorporei em minha língua.


Pensei: eles não vão ter a mesma intimidade que tive ao ler os autores que compunham a “Literatura do Norte”, como escreveu Tobias Barreto acerca dos livros de cultura nordestina, daqueles com sotaque da terrinha. Tá lendo? Esse “diminutivo emotivo” é coisa de nordestino mais que todos, do que tudo de brasileiro; esse falar que faz sentido, por exemplo, no texto de Francisco Gil Castelo-Branco, Ataliba, o Vaqueiro. Nessa obra (a primeira que trata do tema “seca” na literatura brasileira), o prosador piauiense demonstra claramente a sua preocupação em descrever o falar do sertão Piauí do século XIX e em deixar claro o significado de palavras ou expressões regionais que utilizava em sua prosa; afinal, estava ele escrevendo no Rio de Janeiro de 1878, no jornal Diário de Notícias, para um público diverso, leitores de folhetim que desconheciam o falar de sua “terra de piagas”. Não é de se-estranhar, portanto, que ele dê uma explicação dicionarizada a alguns termos do falar do sertão piauiense utilizados no seu texto, sobretudo, aos que dizem respeito à atividade do “herói do sertão”, o vaqueiro (não é Jerônimo; é Ataliba!): perneira, guarda-peito, gibão, , febre malina, cachingando, dentre tantos regionalismos; brasileiríssimos!


Continuei pensando: esses possíveis leitores também não iriam ter um idílio com os idiotismos do sertão brasileiro (do Norte ou Centro-Norte), como eu tive ao ler o famigerado Grande Sertão: Veredas, essa prosa maravilhosa do seo João. Ah, viver escrevendo é mesmo algo muito perigoso! Pensei terminando: os meus leitores que não forem dessas “quadradezas” não vão-se-sentir em casa, ao provarem do hem-hém, do de-nelson, do vixe, do bodim, do Lá no Piauí ou mesmo dos sentidos que podem ser explorados a partir da etimologia do nome deste estado: Piauí.


Foi justo; eu fiz: pus umas tantas notas no livro, as quais me-deram muito trabalho para defini-las. Porém, de todas elas, aqui, neste sítio, gostaria de me-reportar-me-repetindo a duas delas somente. A primeira é aquela em que me-refiro à expressão Lá no Piauí, que, gostem ou não os piauienses, remete às origens deste estado, à “terra de gado” ou à “Fazenda Piauí”, como escreve o Aírton Sampaio (autor daqui do Piauí). A outra nota é a que implica a explicação sobre a origem da palavra Piauí, de sua etimologia. Para início desta conversa-escrito, vou começar por esta última, porquanto a mais necessária; porisso, a primeira. Na referência a essa nota, faço menção ao que escreveu o douto professor de História e de Filologia Ludwig Schwennhagen, membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena, Áustria, em seu livro Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado, primeiro, pela Imprensa Oficial do Piauí, em 1928, e em segunda (1970), terceira (1976) e quarta (1986) edições, pela Livraria Editora Cátedra, do Rio de Janeiro, com apresentação e notas de Moacir C. Lopes.  


Esta nota aqui, portanto, é importante, porque (notem!), desde que me-conheço-por-gente, eu já ouvia a explicação de que o nome Piauí significava “terra de piau”. E leiam que eu ainda não sabia desta significação de “rios dos piaus ou rio dos peixes de pele manchada”, que ensinou o professor A. Tito Filho nas notas que escreveu para a reedição da obra Cronologia Histórica do Estado do Piauí, de Francisco Augusto Pereira da Costa, em  1974, no Rio de Janeiro, pela Editora Artenova. É, muitos rios; então, muita água rolava. Assim, o peixe era raiz também. Não está aí o nosso emepebelíssimo instrumentista Renato Piau para tocar no assunto? Quantos conterrâneos ainda não no-fazem como ele, grafam (e garfam!) o peixe para dar a isca (a pista!) de que são piauienses?


Tal significação ainda hoje é propagada em cadeiras (de madeira, pois o C... é De Ferro!) de escolas desta minha terra quentíssima. Isso eu li no próprio professor e filólogo A. Tito Filho, como o-escrevi acima, nas notas que esse estudioso piauiense fez à excelente obra de Francisco Augusto Pereira da Costa, historiador pernambucano que residiu no Piauí quando exerceu cargo público no governo. E notem que, na primeira edição da Cronologia, como já o-constatara Schwennhagen em 1928, Pereira da Costa cita documentos do Estado, dos séculos XVII e XVIII, nos quais aparecem escritas as palavras que eram utilizadas para nomear Piauí. Vamos ler o que escreveu (a ótica é dele!) o lente austríaco acerca da etimologia dessa palavra:


“A chave para compreender a fundação e significação das ‘Sete Cidades’ dá-nos o antigo nome de Piauhy, que era ‘Piaguí’. Nos documentos históricos que juntou F. A. Pereira da Costa na sua excelente ‘Cronologia’, encontramos as formas: Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, mas nunca Piauhy [observem que, em 1928, o nome do Estado ainda era escrito assim!], que apareceu pela primeira vez em 1739. Somente nos primeiros séculos do Império foi adotada, como nome oficial da província, a grafia Piauhy, e ignorantes explicam esse nome como ‘rio de peixe piau’.


“Piaguí não pode ter outro significado do que ‘Casa (...), terra dos piagas’, a terminação i, na língua tupi, indica o ‘locativo’, como em latim, no grego e nas línguas pelasgas. As letras i e y significam no tupi ‘água’ ou ‘riacho’, na posição de prefixo, como em igara, igarapé, Ipiranga, Icatu etc. Existem exceções dessa regra; mas ‘Piaguí’ não é uma tal” (Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1986, p.103.).

 

Desconjuro! Vixe, que weltanschaaung, Schwennhagen! É muita mundivisão junta numa significação, aparentemente, tão simples; o que mostra toda a “catigoria” desse historiador tão ignorado pela comunidade científica desta pátria que não no-pariu, e ainda mais deste estado! Mas essa é uma questão de que tratarei somente adiante; agoraqui, o que quero escrever, primeiro, é que essas referências ao Piauí, como Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, Schwennhagen leu no livro de Pereira da Costa em sua primeira versão, a de 1909, já que esse intelectual austríaco residiu em Teresina no final da década de 1920. Na edição da Cronologia que tenho às mãos, a de 1974, da Editora Artenova, pude constatar a presença de Piaguí, Piagohy, Piaguhy e Piaugui; portanto, não aparecem, nessa segunda edição do livro de Pereira da Costa, duas nomeações citadas pelo austríaco (Piagoy e Piagohi), e ainda são acrescidas duas outras (Piagohy e Piaugui) à lista toda. Contudo, essa barafunda não afunda a observação de Schwennhagen de que “o antigo nome de Piauhy era Piaguí”; ao contrário, reforça-a mais ainda.


Será que A. Tito Filho ignorava mesmo essa explicação de Schwennhagen ou quis somente sustentar a sua hipótese (muito distinta da do austríaco)? Por que ele não levou em consideração as palavras citadas nos documentos apontados por Pereira da Costa, já que elas estão presentes na edição, publicada sob os auspícios do Estado do Piauí, em que, nela, A. Tito, trabalhou em 1974? Quem morrer saberá, porque quem vive este texto, como eu, vivo, (data venia: datas vão!) discorda da versão do mestre piauiense. E o-faço não somente pelos argumentos que utiliza em seu livro Ludwig Schwennhagen (o que já seria suficiente, a meu escrever, ler e ver), mastambém pelo que escreve o próprio A. Tito Filho em uma das notas da edição de 1974; senão, leiamos:


“Bugyja Brito trata exaustivamente do y em palavras tupis, quando passaram ao português. O y representava o som gutural de certas palavras. Foi o caso de Piauí: ‘Presenciei – diz ele – no interior do Estado do Piauí, não faz muitos anos, em zonas de pleno sertão, indivíduos segregados em virtude da falta de intercâmbio com a capital e com outros municípios mais florescentes, manterem a pronúncia da palavra Piauí como se fosse um som entre Piaurü e Piaugü, o que significa que, quando se grafou a palavra Piauhy, isto é, quem a fez, primitivamente, escreveu-a com h e y (há documentos em que apareceram as formas Piaguy e Piauguhy) a fim de que fosse traduzido um som equivalente. Um h aspirado junto a um y daria a pronúncia que foi então usada e que é a mesma que nos pareceu, naquela oportunidade, ter-se mantido nas zonas entre indivíduos remanescentes de antigos silvícolas” (Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1974, p.58.).


Poisbem, não resta dúvida de que essa raiz piag- faz parte da origem do nome hoje escrito Piauí, pois não são poucos os registros dela em documentos oficiais do Estado, dos séculos XVII e XVIII. A significação de “terra, casa de piagas” é, portanto, a mais plausível porque, se levarmos em consideração outros cronistas da história brasileira, leremos que o próprio padre José de Anchieta fora chamado, pelos nativos brasileiros do século XVI, de o “grande piahy”, ou seja, o grande piaga, o grande sacerdote; o que confere ao nome Piaguí essa denotação relativa a “piaga”. Não importa se metaplasmos incansáveis alteraram a grafia do topônimo “Piauí”; a origem dá-nos “piaga”, é fato, escrito. Os argumentos históricos e linguísticos listados por Schwennhagen são contundentes, atestam isto: essa significação é legítima. Resta saber de onde vêm as fontes de A. Tito Filho, para compará-las às do austríaco, apois.


Porfim, a segunda nota de que gostaria de escrever, a qual, aqui, se-torna a última, é aquela em que trato de um verso muito conhecido Brasil afora quando, ainda hoje, deve-se fazer uma referência ao Piauí. Não lembram ou não leram? Até o Oswald o-pôs na capa da primeira edição do seu Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade. É uma redondilha menor: no Piauí. Esse verso, mesmo em tempos de infernet, continua sendo lembrado por muitas pessoas de outros estados quando o papo é o Piauí. Não é para menos, esse pentassílabo faz parte de uma quadrinha declamada pelo vaqueiro Mateus, (“O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro/ Lá no Piauí.”), que o historiador pernambucano Pereira Costa afirma estar presente num auto de Natal pernambucano, um cavalo-marinho, de fins do século XVII, ao tempo da colonização do Piauí. Para Sílvio Romero (leia a postagem anterior a esta neste mesmo sítio; nela, há mais detalhes), no seu livro Cantos Populares do Brasil, esse cavalo-marinho é do final do século XVIII.


Datas a parte das notas, o texto colhido por Sílvio Romero ou aquele a que se referia em suas pesquisas Pereira da Costa, é, certamente, prova cabal para que se-evite assertivas completamente tortas, sem rumo, acerca dessa quadrinha, como as que li em um livro daqui do Piauí (não sei se era um volume da UBE-PI; parece que sim, mas não me perguntem sobre os dados catalográficos desse livro, que eu me-desfiz dele) ou para que não cante a música acrescentando a expressão “Ó, maninha!” (que nem é um pentassílabo!) antes do último verso, como a maioria das gentes faz hoje. Isso, inclusive, transforma a estrofe numa quintilha: “O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro,/ Ó maninha,/ Lá no Piauí!”. Essa é a versão que é difundida na internet em qualquer sitiozinho de música ou mesmo de qualquer bobagem (há verdadeiros absurdos; quanta desinformação!). Ela também foi reproduzida numa obra daqui, Coisas Piauienses na Visão Cabocla, de Luiz Rocha, publicado em Teresina, em 1995, pela Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves! Ninguém sabia desse equívoco? Quem sabe! O que eu sei é que é esse o modo de cantar que está presente, hoje, na memória do povo, no folclore popular; o que eu não sei é se esse modo de cantar foi difundido a partir do uso dessa “quadrinha” num musical do teatro de revista carioca, da primeira metade do século XX. Não sei; daí, talvez essa popularidade pelo Brasil afora.



Tudo isso são hipóteses; como a que eu construí acerca da explicação que registrou a historiadora (sim, lembro-me que era uma mulher) no livro a que me-referi acima. É o seguinte: ela escreveu, no seu texto, que a quadrinha foi criada a partir de um fato ocorrido na Câmara Federal, quando a capital do Brasil ainda era o Rio de Janeiro. É cinematograficamente hilária a cena: um cearense (lá vem a piada!), estando deputado federal pelo Piauí, ao receber, em pleno plenário (vazio?),  uma ligação dando conta de que seu boi predileto, o Mimoso (?), morrera, diz os famosos versos: “O meu boi morreu./ Que será de mim?” (não lembro se havia os dois versos finais). Como escrevi, eu não tenho mais esse livro, mas acredito que seja isso mesmo que estava escrito nele. Se estiver equivocado, me-corrijam.


Se houver outro sentido, não no-sei. Ainda bem que fui ter, nos livros, com F. A. Pereira da Costa, Ludwig Schwennhagen e Sílvio Romero; senão estaria ignorante da história dessas versões, informações dignas destas notas. Hem-hém, menino. Eu quero que saibam que elas existem, para que todos tomem o seu assento quanto ao significado do nome deste sítio. Porisso, daqui, repito, perito, aos Piagas Filhos:


O meu boi vivo;

Que serão pra mim!

Manda buscar todos,

Cá pro Piauí!



sexta-feira, 15 de abril de 2011

DE LÁ DE PERNAMBUCO

A partir deste ano, procurarei, com mais intensidade, postar textos importantes (não que os meus não no-sejam!) para a cultura piauiense e, por extensão, para a brasileira, a mundial. Textos mundanos, laicos, científicos, populares, artísticos, o diabo-a-quatro (ou os deuses-de-quatro!). E, para iniciar essa“prestação de serviço”, postarei um texto que remete à referência ao Piauí mais conhecida (?) no Brasil, a famigerada quadrinha: “O meu boi morreu!/ Que será de mim?/ Manda buscar outro?/ Lá no Piauí” (esse negócio de “ó maninha” foi verso inventado no teatro de revista?).


Pois bem, essa quadrinha tão cantada Brasil afora está dentro de um cavalo-marinho pernambucano. Para quem não conhece, o cavalo-marinho é uma versão pernambucana do bumba-meu-boi; nele, há música vocal, dança, cenas dramáticas, ação, poesia improvisada, música instrumental, máscaras e fantasias. “O enredo do Cavalo-marinho concentra-se em torno do Capitão, um proprietário rural que tinha deixado suas terras sob o controle de Mateus e Sebastião, dois vaqueiros. O Capitão deseja celebrar a volta dele às suas terras, mas, os vaqueiros não deixam. O Capitão manda um Soldado tirar a licença à força, e ele consegue, após muita confusão cômica e pancadas altas, mas, sem dor, das bexigas de boi que o Mateus e o Sebastião usam como armas e instrumentos musicais” (http://www.overmundo.com.br/.).


O Texto que você vai ler, a seguir, foi coletado por Sílvio Romero e publicado no livro Cantos Populares do Brasil. Para esse estudioso, esse reisado é datado do século XVIII; já, para Pereira da Costa, ele é do final do século XVII. De uma ou de outra data, o que esse texto traz de importante é que nele há a primeira referência ao Piauí como “terra de gado”, vinda de outro canto do país (com o trocadilho mesmo, pois é cavalo-marinho e bumba-meu-boi!). Vamos ao texto original:



REISADO DO CAVALO MARINHO E DO BUMBA-MEU-BOI*




CENA I
(O Cavalo marinho a dançar e o Coro)
Coro:
Cavalo-marinho
Vem se apresentar,
A pedir licença
Para dançar.
Cavalo-marinho,
Por tua atenção
Faz uma mesura
A seu capitão.
Cavalo-marinho
Dança muito bem;
Pode-se chamar
Maricas meu bem.
Cavalo-marinho
Dança bem baiano;
Bem parece ser
Um pernambucano.
Cavalo-marinho
Vai para a escola
Aprender a ler
E a tocar viola.
Cavalo-marinho
Sabe conviver;
Dança o teu balanço
Que eu quero ver.
Cavalo-marinho,
Dança no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Cavalo marinho,
Dança na calçada;
Que o dono da casa
Tem galinha assada.
Cavalo-marinho,
Você já dançou:
Mas porém lá vai,
Tome que eu lhe dou.
Cavalo-marinho,
Vamo-nos embora;
Faze uma mesura
À tua senhora.
Cavalo-marinho,
Por tua mercê,
Manda vir o boi
Para o povo ver.


CENA II
(O Amo, o Arlequim, o Mateus, o Boi, o Coro, o Sebastião e o Fidelis.)


Amo:
O' arlequim,
O' pecados meus,
Vai ,chamar Fidelis,
E também Mateus.
O' meu arlequim.
Vai chamar Mateus,
Venha com o boi
E os companheiros seus.


Arlequim:
O' Mateus, vem cá.
Sinhô está chamando;
Traze o teu boi,
E venhas dançando.
Só achei o Mateus,
Não achei Fidelis;
Bem se diz que negro
Não tem dó da pele.


Amo:
O' Mateus, cadê o boi?


Mateus:
Olá, olá, olá,
Boio tá p 'ra cá,
Boio tá p'ra cá. . .
Se minha boio chegou
Eu tá aqui;
E que foi esse
Pur aqui?
O' meu xinhô,
Cadê-lo o Bastião,
Cadê-Ia- o Fidere?
Para onde fôro?
Venham cá vocês (para o coro)
E também o boio.


Coro:
Vem, meu boi lavrado,
Vem fazer bravura,
Vem dançar bonito,
Vem fazer mesura,
Vem fazer mistérios,
Vem fazer beleza;
Vem mostrar o que sabes
Pela natureza.
Vem dançar, meu boi,
Brinca no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Este boi bonito
Não deve morrer;
Porque só nasceu
Para conviver.


Mateus:
O' boio, dare de banda,
Xipaia esse gente,
Dare pra trage,
E dare pra frente. . .
Vem mai pra baxo,
Roxando no chão
E dá no pai Fidere,
Xipanta Bastião. . .
Vem pra meu banda
Bem difacarinha,
Vai metendo a testa
No Cavalo-marinha.
Ô, ô, meu boio,
Desce desse casa,
Dança bem bonito
No meio da praça. ..
Toca esse viola,
Pondo bem miúdo;
Minha boio sabe
Dançá bem graúdo.


Coro:
Toca bem esta viola
No baiano gemedô,
Que o Mateus e o Fidelis
São dois cabras dançadô.
No passo da juriti,
Tico-tico, rouxinó,
Se Fidelis dança bem,
O Mateus dança milhó.
O tocadô da viola
Tem os olhos muito esperto,
O som da sua viola
Parece-me um céu aberto.
Eu quero boa viola
Para fazer toda a festa,
O bom pandeiro concerta
O samba na floresta.
Eu fui dos que nasci
Na maré dos caranguejos,
Quanto mais carinhos faço,
Mais desprezado me vejo.
Como sou filho do povo,
Tenho o dom da natureza;
Não sou feliz, mas bem passo
Com toda a minha pobreza.
Dança o boi, dança o Mateus,
Dançam todos os vaqueiros;
Dançam que hoje nós temos
Grande festa no terreiro.


Mateus:
Para, para, para!
Quero dizer um recado:
- Boi dançou, dançou;
Mai agora tá deitado!


Sebastião:
Ah! pracêro meu,
Boio de sinhô morreu. . .


Mateus:
A t'embora, bobo,
O boio divertiu muito,
Agora ficou cansado;
Toca bico do ferrão,
Pra tu vê como arrevira
E te dá no chão.


CENA III
(Os mesmos, o Doutor, Capitão do mato, D. Frigideira, Catarina, e o Padre; caído o boi, foge F'ielelis, chama-se um capitão do campo para o prender e um Doutor para curar o Boi; aparece um Padre para fazer o casamento ele Catarina.)


Mateus:
Minha boi morreu!
Que será de mim?
Manda buscá outro
Lá no Piauí.


Amo:
O' Mateus,cadê o boi?


Mateus:
Sinhô, O boi morreu. . .


(Sai o Mateus espancado pelo amo)


Amo:
Ó Mateus vá chamar
O doutor para curar
O meu rico boi:
Quero saber do Fidelis
Para onde foi.
Ó Sebastião, vá a toda a pressa,
Chame o Capitão do mato,
Dê as providência,
Que traga o Fidelis
Na minha presência.


(Chegando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam D. Frigideira e Catanrina, e Sebastião quer casar com esta; aparece o Padre para este fim.)


Padre:
Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco;
Não sou padre, não sou nada;
Singular sou como os outros.


Coro:
Ó chente, que quer dizer
Um padre nesta função?
É sinal de casamento,
Ou alguma confissão.


Padre:
Bula hem na prima,
Bata no bordão;
Arribo a função,
Não se acabe não.


Doutor (para Mateus):
Ó negro, teu desaforo
Já chegou aonde foi;
Quando tu me chamares
É pra gente e não pra boi.


Mateus:
Ah! uê, ah! uê!
Troco miúdo
Tu vai recebê.


(O Capitão campo dá com o Fidelis e vai prendê-lo.)


Capitão:
Eu te atiro, negro,
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão.


(O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra.)


Coro:
Capitão de campo,
Veja que o mundo virou,
Foi ao mato pegar negro,
Mas o negro lhe amarrou.


Capitão:
Sou valente afamado,
Como eu pode não haver;
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr.


(Finda-se aqui a função saindo todos a cantar.)




*(Obtido em http://pt.wikisource.org/wiki/reisadodocavalomarinhoedobumba-meu-boi, acesso em 15/05/09.)

Lido isso, não há que se-inventar alguma história de que essa quadrinha foi criada por fulano de tal quando era deputado e foi informado da morte de seu boi predileto ou mesmo que se-ecoar essa quadrinha com um quinto (?!) verso (o tal de "Ó maninha!"). Estou com Romero e Pereira da Costa: a referência original é o cavalo-marinho pernambucano e nele aparece uma quadra. Se é do século XVII ou do XVIII, depois se-vê.  O certo é que a quadra famosa aparece com a variação do falar caipira/sertanejo de Mateus; por isso, a "desconcordância" no primeiro verso, "Minha boi morreu!", que, para manter a redondilha menor, substituímos hoje por "O meu boi morreu!".

Foram esses versos que chamaram a atenção dos Andrade, os modernistas famosos (Mário e Oswald)para o nosso sumidíssimo Piauí. Aquele, nos seus estudos acerca do folclore brasileiro; este, como referência ao nosso estado na capa de seu livro "Primeiro Caderno do Aluno de Poesia", obra e autores que tanto foram objetos de meus desejos e estudos. Portanto, quando Mateus canta hoje estes versos, eu respondo em coro uno:

O meu boi tá vivo!
Que serão para mim!
Manda chamá todos
Cá pro Piauí!




sábado, 26 de março de 2011

AQUI DA POESIA DO BRASIL

Após estes dois poemas de Mário de Andrade, apresento-lhes três poemas meus que dialogam um pouco com esse meu mestre de sempres!


EU SOU TREZENTOS


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(Mário de Andrade)


DOIS POEMAS ACREANOS
a Ronald de Carvalho

I

DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

II

ACALANTO DO SERINGUEIRO

Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
"Sagrados" como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme ...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme...

(Mário de Andrade. Clan do Jabuti, 1927.)


cantiga da amiga lírica*

ah! minha amiga
da Galiza tocante vens
não em naus carracas galeões
masporém via vida linguagens genes
e os ais que guarda teu nome bem aí
desecoam cantigas também aqui (lá no Piauí!)
onde seguros os portos se-contracolonizam
com o legado das cortes de longe
das ondas do mar de Vigo
ou de ulissiponense gente

ai! minha amiga
 re-volto mar música poema
      onde naufragaram as perguntas
      que cantando gaiado fizeste – e tanto!
      frente aos humanos sentidos a natureza
      não nos-entende (isso é mesmo coisa das gentes!)
      não perguntes pois ao verde pinho nem às ondas
      que não se-ocupam de nenhuma música-poema
      aonde inscrito anda este teu amigo lírico
      que vivo aqui cantando – e sempre-vivo!



(De Teresina a Timon, a passar por Vigo ou Lisboa.)


*A Laís, uma estudante minha amiga, bem-vinda de Galiza lírica.


mesa de bar do Rio (diálogo do poeta-mano com os manos do poeta)**

ó ali a nave louca
lá no Piauí!

– ela voa & diz loa
de mãos dadas com
o torto... um anjo!

– meus deuses!!!
que será de nós?

– eles já foram... mano
calma! esfria a cabeça
que o bode na brasa
vem depois do boi
e nem assou... espera!
morou?

hem-hém!


(Na última vinda do nauta da nave a Teresina.)

**Em memória de Wally, viajante-mente-sailor-moon, neste mundo sem Salomão com seus cânticos.



ondeAndradeandaretooutropoetatorto

brasileiro-acorde
te-acordo por não ter-te-visto ali
lá no Piauí!: lar do primitivo
dos humanos nossos de ondes passados
(né Niède?1  né Chovenágua?2)

e te-acordo por não ter contigo
café bebido e bebida cajuína cachaça vinho
– tragam pra mim um coquetel paulista:
mar + rio... tanto mar tanto rio... please!
e bebamos ao possível poema vivo
e a nota (não conta) cante o tom plurilíngue
e a harmonia ao som enxame!

masporém brasileiro-ser-guerreiro
num ringue acre pronta pra nos-matar
a escureza está – também a virgem mata! –
tangendo o ataúde o cantocalar
e nós cantamos este canto miscigenado:
tupi and not tupi
globe theatre ou municipal aqui
nesse chão que é também meu
brasileiro que nem eu!

e sem muito papo mansamente em porém
cena resistência – manosabença
pois nos jamais veremos entanto
te-sinto – meu poeta nativo – onde
este eu brasileiro que nem tu anda
ruminando outro brasileiro dormido
a le-desejarcuma enorme diferença
de crença e de desejo e de pensamento – o bem
da humanidade: aos bondes! de carrada!

e ainda brasileiro amigo: é bom
ter passado in tua vida in ronda paulistana
si rota policio circandandobliquamente
in estradas Andrades andadas extratos
de alguéns que nem eu & tu & ele
brasileiros que nem tudo!



(Em São Paulo, ante a entrada, na calçada do teatro municipal.)

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1. Niéde Guidon. Pesquisadora paulista responsável pela equipe que descobriu os sítios arquelógicos na Serra da Capivara. Esses estudos, realizados a partir da descoberta de inscrições rupestres e fósseis na região de São Raimundo Nonato, concluíram que o primeiro homem americano teria habitado o sertão piauiense, há cerca de 60 mil anos, contrariando outras teses sobre o início do povoamento das Américas.
2. Chovenágua. Apelido pelo qual era conhecido por populares, em Teresina, o cientista austríaco Ludwig Schwennhagen. Essa alcunha adveio da dificuldade de pronúncia do seu sobrenome. Chovenágua foi professor do Liceu Piauiense e escreveu um importantíssimo tratado histórico, Os Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil - de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado pela Companhia Editora do Piauí, em Teresina, no ano de 1928, no qual sustenta a tese de que esse povo de vocação marítima esteve no Piauí, que Sete Cidades seria um centro de confluência da nação Tupi, seus descendentes diretos e dos Cários, e que o tupi é uma língua do ramo pelasgo.