segunda-feira, 14 de março de 2011

MICROANTOLOGIA PARA MICROS



I

À CIDADE DA BAHIA

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!


DEFINE A SUA CIDADE

MOTE:
De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver:

um furtar, outro foder.


Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem Digesto, e Colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
De dous ff se compõe.
 

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.


Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Bahia tem letras cinco,
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
Um furtar outro foder.


(Gregório de Matos, Salvador, Bahia, século XVII.)



 

II

MINHA TERRA 
 
Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha;
- Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pr'as bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
- É uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de Abril.
Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
- É uma terra encantada
- Mimosa jardim de fada -
Do mundo todo invejada,
Que o mundo não tem igual.

Não, não tem, que Deus fadou-a
Dentre todas - a primeira:
Deu-lhe esses campos bordados,
Deu-lhe os leques da palmeira,
E a borboleta que adeja
Sobre as flores que ela beija,
Quando o vento rumoreja
Na folhagem da mangueira.
É um país majestoso
Essa terra de Tupã,
Desde'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
- Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.
Ao lado da cachoeira,
Que se despenha fremente,
Dos galhos da sapucaia.
Nas horas do sol ardente,
Sobre um solo d'açucenas,
Suspensas a rede de penas
Ali nas tardes amenas
Se embala o índio indolente.
Foi ali que noutro tempo
À sombra do cajazeiro
Soltava seus doces carmes
O Petrarca brasileiro;
E a bela que o escutava
Um sorriso deslizava
Para o bardo que pulsava
Seu alaúde fagueiro.

Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios:
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.
Foi ali, no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;

Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!
Um povo ergueu-se cantando
- Mancebos e anciãos
–E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
- Portugal! Somos irmãos!
Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam - guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!

Se brasileiro nasci
Brasileiro hei de morrer,
Que um filho daquelas matas
Ama o céu que o viu nascer;
Chora, sim, porque tem prantos,
E são sentidos e santos
Se chora pelos encantos
Que nunca mais há de ver.
Chora, sim, como suspiro
Por esses campos que eu amo,
Pelas mangueiras copadas
E o canto do gaturamo;
Pelo rio caudaloso,
Pelo prado tão relvoso,
E pelo tié formoso
Da goiabeira no ramo!
Quis cantar a minha terra,
Mas não pode mais a lira;
Que outro filho das montanhas
O mesmo canto desfira,
Que o proscrito, o desterrado,
De ternos prantos banhado,
De saudades torturado,
Em vez de cantar - suspira!

Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!

Depois... o caçador chega cantando,
À pomba faz o tiro...
A bala acerta e ela cai de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.
E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-á consigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sozinho, a voz desfalecida,
Dormir no meu jazigo.
E - morta - a pomba nunca mais suspira
À beira do caminho;
E como a juriti, - longe dos lares -
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho!

(Casemiro de Abreu, Lisboa, Portugal, século XIX.)




III

TODOS CANTAM SUA TERRA, TAMBÉM VOU CANTAR A MINHA*

sou um homem desesperado andando à margem do rio Parnaíba
sou um homem com Glauber Rocha na cabeça e uma câmara na mão
andando fico à margem de minha terra:
TRISTERESINA.
terra nos olhos da lente.
só filmo planos gerais.
planos
o meduna.
ando pelas ruas mas tudo de repente é novo para mim:
a vermelha. a grama. o meu caso de amor. a estação da estrada de
ferro teresina-são luís um dia de manhã.
minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti.e a melhor água do mundo.
e um poço.
e um menino.
como posso agora cantar minha terra;
estando tão longe-perto dela.
como posso eu e essa miséria louca

descobrir destruir as ruínas do lar
citação: NÃO TEREMOS DESTRUÍDO NADA SE NÃO DESTRUIRMOS AS RUÍNAS

(Torquato Neto, Rio de Janeiro, capital, século XX.)

___________________________________________
*Poema póstumo, publicado no segundo número da revista Arraia Pajeurbe, de Fortaleza-CE, em 2004, e não incluído na recém-editada reunião das obras completas do poeta em dois volumes, Torquatália, lançada pela Editora Rocco.




IV


 
reinscreve um poeta a seu passo a nova capital & a passada capitania de Piaguí1*
     
tristeresina: um quê de semelhante
estás ao que era nosso antigo estado
(rico de nativos mortos por gados)
em este mote alheio & cambiante

se a ti tocou-te a máquina mercado
esse ouro que apaga muito brilhante
a nós todos aqui tem-nos-tratado
com os dous ff dum poema dantes

deste estado – a quem não deste por renques
as carnes como o-fez à gente ruda
de Bahia Pernambuco Minas (mortes!) –

há quem alegoricamente tente
fazer ainda uma vaca bojuda
para carnes & poemas de corte



(De Oeiras, Salvador, Ouro Preto, Recife a Teresina, em estados de Brasil.)


(Luiz Filho de Oliveira, Teresina, Piauí, século XXI.)


_____________________________________________________
* A Cineas, homem com letras, de cimos Sãos & Santos.

1. Piaguí: como era escrito o nome que, a partir de 1739, passou a ser grafado Piauí, conforme escreveu Ludwig Schwennhagen no seu excelente Os Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil - de 1.100 a.C a 1.500 d.C., publicado, pela primeira vez, em Teresina, em 1928.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LIBERDADA EM QUALQUER LÍNGUA, POESIA CONTRA AUTORITARISMOS EXTREMOS



A poesia sempre esteve no meio das confusões do caminho das gentes; atirada pedra, paus, espadas, tiros, coquetéis molotov; todos, a grito. Sabemos disso e disto: ela deve, sim, estar pondo fogo, por estes dias, em muita língua pelas bandas de ocidentes e orientes extremos de autoritarismos, feitos de sociedades anônimas & companhias ilimitadas. É o que deve ser: atirar textos de protestos contra aqueles que não querem ser justos como agentes públicos; questionar as cotas de ilícitos e as contas dos bancos desses corruptos de alto custo (que há corrupções de todos os preços, sabemos e vendemos nós!); exigir que pessoas que assumem cargos políticos devam proceder (e trabalhar!) como todos os agentes públicos a serviço de reinos, nações , Estados, sei lá o quê.

Sabemos: o que se-passou na Tunísia, no Egito passou à Jordânia, ao Iêmen, à Líbia, ao Barém, ao Marrocos (ver outros países!), e deve-se passar também no Brasil, apesar de nossa guerra parecer pacífica (o voto, aqui, ainda vai demorar muito para ser essa “injeção letal” nas veias da politrick, de Peter Macintosh, ou da nossa politicaca). É, Tosh, se eles não querem ceder e negociar; não se deve dar paz à negociação. Não. Tudo bem: seria excelente se aquela história de “todos fazerem a sua parte” desse certo. Paz é bom, mastambém é bomba, é bem conquistado a duras penas se não há um concílio para a conciliação, como prega, em plagas brasileiras, o Poder Judiciário. É ruim, hem? Ter sido provocado, enganado, roubado e ter de ficar calado. Não. Tudo mal: isso ainda acontece – e como! –, e, para tanto, façamos uma trégua pela poesia, para ela; aqui, revivamos, o reggae-poema de Peter Macintosh, este:


Equal rigths


Everyone is crying out for peace
None is crying out for justice
I don't want no peace
I need equal rights and justice



Everybody want to go to heaven
But nobody want to die
I don't want no peace
I need equal rights and justice


What is due to Caesar
You better give it on to Caesar
I don't want no peace
I need equal rights and justice


And what belong to I and I
You better give it up to I
I don't want no peace
I need equal rights and justice


Everyone heading for the top
But tell me how far is it from the bottom
I don't want no peace
I need equal rights and justice


Everyone is talking about crime
Tell me who are the criminals
I don't want no peace
I need equal rights and justice


There be no crime
Equal rights and justice
There be no criminals
Everyone is fighting for
Palestine is fighting for
Down in Angola
Down in Botswana
Down in Zimbabwe
Down in Rhodesia
Right here in Jamaica


Todo-Mundo quer o céu; Ninguém quer morrer. É, também disse isso o Gil, do alto de seus saberes, em seus autos satíricos. Na minha poesia satírica, também, sempre parti de um mote logo pensando a existência da nossa espécie: há, sim, pessoas que podem ser consideradas melhores do que outras; é só estabelecer critérios. Não há duvidar: muitos anos mexendo com a coisa pública acaba fazendo muito político mexer nela (“a mão na cumbuca”, lembra?); tanto, chega fede (essa é a construção a que foi reduzida o padrão “que chega a feder”, por estas terras).

A questão não é somente se é melhor ter um político técnico-especializado, um profissional liberal, um graduado ou pós por universidades, um militar ou algum Tiririca ou Romário da vida. Não. É muito simples, entanto, aqui, no Brasil (e em quantos países?), isso ainda não é possível. Leiam: somente há de ter o pretendente ética, de realizar as funções do cargo e de agir dentro da lei (esse lugar-comum que tantos não frequentam). Não tem errada: acredito que um Congresso Nacional, em certos países, deveria ser uma espécie de grupos de sindicatos, de representações de estratos da sociedade, de pessoas, que, além de estarem enraizadas em seus bairros, suas zonas, seus distritos etc., estão relacionadas a certas áreas de atuação profissional. Se todos querem ser profissionais, por que os políticos devem ser amadores? E leiam que estou dizendo “político profissional” não no sentido que nós, brasileiros, damos a políticos que fazem das câmaras, das assembleias e dos senados da vida seu ganha pão, dinheiro e circo (não está aí ainda José Sarney para fazer inveja a qualquer Muammar Kadafi da vida?); não, falo de profissionalismo no sentido de que alguém, para ser vereador, deputado, senador ou presidente de país, deve ser um profissional atuante em determinadas áreas de trabalho, ter um mínimo de experiência em determinada serviço ou coisa do tipo.

Tiririca e Romário, por exemplo, podem muito bem fazer bastante pelas artes (sobretudo as manifestações artísticas populares; olha o circo aí, palhaço!) e pelos esportes (se-liga, aí, chapa, logo você que sabe tão bem do bem e do mal do futebol brasileiro e internacional). Está aí, então, um bom momento para que um palhaço seja levado a sério (porque, afinal, no mínimo, ele tem a sua experiência como artista circense) e para que a marra do baixinho jogue duro contra a corrupção que já está rolando solta nas reformas ou nas construções de estádios dos estados em que vai haver partidas da Copa do Mundo de 2014. Escrevo: assim como deve-se eleger deputados e senadores por distrito, também haveria de ser diversa as representações profissionais desses parlamentares num Congresso Nacional. Assim, haveria um número X de deputados representantes de áreas-chave, como a saúde, a educação, a segurança, a agricultura, o comércio e a indústria, o meio ambiente, as matrizes energéticas, o trabalho, a justiça etc., como são divididos os ministérios, por exemplo.

O concurso é isto: ninguém deve ser impedido de concorrer a uma vaga para um serviço público, seja o de vereador, seja o de deputado, seja o de senador, seja, enfim, o de presidente ou de rei ou de “líder supremo” (o que for!), desde que, é claro, tenha competência para realizar esses trabalhos. É engraçado verouvir o Tiririca tirar onda da cara dos “deputados profissionais” dizendo o que disse tanto em sua campanha, que não sabia o que esses parlamentares faziam (muitos deles nem sabem mesmo!). É, o povo sabia que era verdade; porisso, votou nele. Um absurdo de voto! Um absurdo? Não. E já que Brasília, esse verdadeiro lugar-comum, é o retrato do país, o povo pagou pra ver. E há que lembrar-se sempre: há poder para tirá-lo do cargo, se ele não trabalhar o que deve. Nisso temos uma melhor possibilidade do que aqueles que moram em países chefiados por alguém que se-acha no poder de garantir a vitaliciedade de si mesmo. Apesar de toda a zorra na polititica brasileira, não gostaria de morar em nenhum desses países norte-africanos ou orientais, que estão em tais mãos.

O que escrevo pro Brasil, portanto, é que o povo esperamos que a lei, mesmo comprida, cheia de atalhos, seja cumprida por esses que elegemos para o executivo e o legislativo de todo o país. Trabalhem como devem. Chega de falso teatro! Ah, Sucupiras da vida, o seu Dias era homem de luta; queria, pois, seus dias finados! Para o Brasil e o mundo: há que lutar bastante, no verbo ou no ferro (como queiram). E, nessa bronca toda, há este poeta que entra com o grito de Gregório de Matos, de Tomás Antônio Gonzaga ou de Luiz Gama, com a lira maldizentemente satírica, a fim de cobrar o texto da Carta Magna relendo as Cartas Chilenas para espantar toda essa bodarrada! E, então, o verso faz-se poemas de escárnios e de maldizeres, digo, isto:

 
politicaca não-escatológica com um ex-voto em forma de um tolete (de plástico!)


políticos de merda!
país cu!
boga!


juízes cagados!
dinheiro sujo!
bosta!


não tapa o nariz
tapa na cara
seo merda!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A poesia medieval é a medida velha para uma nova mente

Desde que comecei a lecionar a disciplina Literatura no primeiro ano do ensino médio, o meu interesse pela literatura medieval foi ficando cada vez mais forte. A partir disso, os poemas-canções dos trovadores galego-portugueses, assim como o teatro vicetino e os poemas palacianos, passaram a fazer parte da minha leitura com uma frequência mais habitual do que na minha época de estudante universitário do curso de Letras.

Assim, nomes como cantiga, esparsa, vilancete, mote, glosa foram-se tornando comuns também na minha produção poética. Claro que, a princípio, isso se-deu por influência da minha necessidade de estudar esses conteúdos para trabalhá-los em sala de aula; depois, por interesse na história da língua portuguesa, que é, evidentemente, a “matéria-prima primordial” da minha poesia. O meu primeiro poema, em estilo medieval, incluído no livro BardoAmar, de 2003, foi uma esparsa (o adjetivo “esparso” significa “isolado”, “separado”), poema constituído por uma única estrofe, como este de Sá de Miranda, presente no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende:

Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador;
eu nam, e agora com dor
quero perder meus sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d’ouvir as sereias;
eu não me soube guardar:
fui-vos ouvir nomear,
fiz minh’alma e vida alheas.


Além da esparsa que compus, alguns outros poemas de BardoAmar também apresentavam alguma referência à poesia medieval, em relação ao vocabulário, claro, pois, quanto ao conteúdo, não há nenhuma possibilidade, já que sou um poeta de outra época. Porisso, não há como reeditar uma postura (no caso, amorosa) como esta que aparece no vilancete do Conde do Vimioso, também presente no Cancioneiro Geral:

Meu amor, tanto vos amo,
que meu desejo não ousa
desejar nennhuma cousa.

Porque, se a desejasse,
logo a esperaria,
e se eu a esperasse,
sei que vós anojaria:
mil vezes a morte chamo
e meu desejo não ousa
desejar-me outra cousa.


Como eu disse, dessa poesia somente é possível copiar-lhe as formas, pois um conteúdo como esse em que o eu-lírico diz que o desejo deve ser afastado da relação amorosa é algo improvável na poesia contemporânea (a não ser que seja uma poesia de cunho religioso). E mais: desejar a morte para si mesmo também é algo que não faz parte de meu projeto de vida amorosa. Isso fica para esses poetas ou compositores de músicas “melosas” que querem agradar a um público lacrimoso.

Não sei se é do agrado de todos (claro que sei que não é!), mas os poemas de que falei são estes que lerá a seguir. O primeiro é a esparsa; o segundo é um vilancete. Vamos a eles:

esparso

gatinha... te-amei de amor
pré-antigo, moderno-pós,
pois (ai!) contracanto arteiro:
“teu não a mim não foi cor!”;
entre tantos, mais não digo,
posto, assim, cantarão
que, então, sendo não-amigos,
verso inverso o verso ubíquo:
que eu não sinta o ex-coração!


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar, 2003.)




vilão ser-te por amar a esta velha forma antiga


meu amor – tanto te-amo
que meu desejo são ousa
desejar-te minha lousa

por que bem te-escrevinhasse
pela pele em poesia
o que nos-registra o enlace
entre a tua vida e a minha
palavras mil eu reclamo
e tal ideia repousa
no teu corpo – minha lousa


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano, 2009.)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

AOS MESTRES COM CARONA




I


ACT IV, SCENE I.


The forest.


(Enter ROSALIND, CELIA, and JAQUES)


JAQUES
I prithee, pretty youth, let me be better acquainted
with thee.


ROSALIND
They say you are a melancholy fellow.


JAQUES
I am so; I do love it better than laughing.


ROSALIND
Those that are in extremity of either are abominable
fellows and betray themselves to every modern
censure worse than drunkards.


JAQUES
Why, 'tis good to be sad and say nothing.


ROSALIND
Why then, 'tis good to be a post.


JAQUES
I have neither the scholar's melancholy, which is
emulation, nor the musician's, which is fantastical,
nor the courtier's, which is proud, nor the
soldier's, which is ambitious, nor the lawyer's,
which is politic, nor the lady's, which is nice, nor
the lover's, which is all these: but it is a
melancholy of mine own, compounded of many simples,
extracted from many objects, and indeed the sundry's
contemplation of my travels, in which my often
rumination wraps me m a most humorous sadness.


ROSALIND
A traveller! By my faith, you have great reason to
be sad: I fear you have sold your own lands to see
other men's; then, to have seen much and to have
nothing, is to have rich eyes and poor hands.

JAQUES
Yes, I have gained my experience.


ROSALIND
And your experience makes you sad: I had rather have
a fool to make me merry than experience to make me
sad; and to travel for it too!


(William Shakespeare. As You Like It. 1599/1560.)






II


“– ‘Que bom que é estar triste e não dizer cousa alguma!’ – Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura, - jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma cousa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora essa expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.”

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881.)






III


recado afiado ao sir inglês


se é bom estar
triste sem dizer nada
manca só esta machadada:


melhor é amar
mulheres em uma
ou mulher em várias!


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar. 2003.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Microantologia ao máximo de micros: poemas de piauienses brasileiros de poesia


Esta microantologia, organizada ao prazer que me-dão estes versos, é por conta, ainda, da facilidade que a Rede proporciona a quem acesso tiver a tal tecnologia. O edito: neste sítio, edito muito. Porisso, daqui pro seu micro, gravo este arquivo da viva poesia em que vivo: uns poetas de “lá do Piauí” (incluindo-me não por acaso, por prestados serviços): , Da Costa e Silva, Mário Faustino, H. Dobal, Torquato Neto (in memoriam) e Luiz Filho de Oliveira (vivinho-da-silva).

De Da Costa e Silva, esse soneto, predominantemente em decassílabo heroico, em que o eu-lírico apresenta um ponto de vista, a princípio, aterrador, graças à frieza com que o expõe. Em seu Sangue, de 1908, já aparece uma verve que vai sangrar mais ainda em Augusto dos Anjos: a utilização de uma nomenclatura de caráter científico na poesia. Tudo bem, que isso em poesia, aqui, no Brasil, foi feito primeiro por um poeta piauiense: Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, em seu livro de estreia, O Ímpio Confundido, impresso em Lisboa, na Tipografia de A. I. S. de Bulhões, em três edições (1835, 1836 e 1837). Pela personalidade forte que tinha Da Costa e Silva, não é de se-estranhar que essa mundivisão do eu-lírico seja a do próprio poeta; já que ele sempre foi um cidadão assaz probo e que nunca iria compactuar-se com “os traidores do Amor e da Verdade”. Grita, poeta:


Ódio Bendito


Meu ser é como o ser perverso e doente
Do ladrão, do bandido, do assassino...
Corre em meu sangue o fluido viperino
Do vírus tenebroso da serpente.


Mente-me o olhar; mente-me o lábio; mente
Dentro em meu peito o coração tigrino,
Zombando dos caprichos do Destino,
Num ódio estranho, altivo e repelente...

Bendito este Ódio aos homens miseráveis,
Aos torpes embusteiros execráveis
E aos traidores do Amor e da Verdade!


Bendito este Ódio bom, santo, orgulhoso,
Que me oferece o torturado gozo
De querer mal a toda Humanidade!


(Da Costa e Silva. Sangue. 1908.)


De Mário Faustino, essa balada (com direito a envoi), de tom elegíaco, composta como um réquiem profano ao poeta estadunidense Hart Crane, que, de fato, em 1932, jogou-se ao mar, durante uma viagem do México aos Estados Unidos. Apesar de a dedicatória referir-se a uma poeta, na edição da poesia completa de Mário, organizada por Benedito Nunes, há uma referência de que esse poema foi dedicado, na verdade, a um poeta. Poema comovente, de imagens fortes. Mergulha, poeta:


Balada


(Em memória de uma poeta suicida)




Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o fato
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura),


Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura!
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!


Envoi


Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.


(Mário Faustino. O Homem e sua Hora. 1955.)


De H. Dobal, esse poemeto épico, em que aparecem, entrecortados, o texto histórico e o texto literário, na composição de um anti-heroi, um “matador de índios” que habitavam a terra brasilis do Piauí. A força da palavra contra a força das armas. Atira, poeta:


EL MATADOR


“1776 - Agosto, 1º - Tem começo a guerra contra os índios Pimenteiras, para a qual marchou neste dia, da cidade de Oeiras, uma forte expedição militar sob o comando do tenente-coronel João do Rêgo Castello Branco.”


De sangue e de fogo
se faz um nome.
No sangue e no fogo
se desfaz a história
de muitas vidas.


A sangue e fogo
a ferro e fogo
um homem liquida
seus semelhantes.


“... foram presos uns e postos em pedaços outros, trazendo-se as orelhas destes que se pregavam nos logares públicos da aldeia.”


No sangue
a crueldade desnecessária
No sangue
A violência contra os desarmados.


“... manda logo o tenente-coronel o seu filho Felix do Rêgo e alguns agregados atraz os Gueguezes...”
“... mataram parte delles e levaram as cabeças que poseram em mastros na aldeia de S. Gonçalo para o tempo as consumir.”


Ao preço de tantas vidas
Sua vida se perde
Do consumo do tempo.


Não matador de touros
toureador da morte
vencedor dos verões.
Matador de índios.
Sua glória triste
pesa sobre nós.
Sobre sua memória
pesa a morte inglória
das nações tapuias.


“... e alcançando sucessivamente as malocas dos Tapuyas, os vão passando todos a ferro.”


Tenente-coronel dos auxiliares
João do Rêgo Castello Branco
chefe da tropa
senhor dos trabalhos
castigos e desgostos,
matador de índios.


“No ano de 1870 vendo-se o tenente-coronel João do Rêgo na missão de S. Gonçalo com menos índios que desejava para mandar em seu serviço.”


Sem firmeza
nos ajustes de paz.
Firme na guerra
a todos os índios.
Rápido na guerra
lança os proclamas
as derramas
de gente
farinha
cavalos e bois.


O coronel João do Rêgo, apesar de velho e quase cego, tomou a acargo a conquista; porque de alquebrado de fôrças não tinha perdido a mania de querer achar o el-dourado.”


Índios e ouro
seu sonho execrando.
A lagoa dourada
o rio do Sono:
se revolve em sangue
a sede de ouro.


Os corpos no campo
para o pasto das feras.
Passados à espada


Acoroazes
Pimenteiras
Gueguezes


raça extinta
lembrança extinta
nomes nações
apagados
no próprio sangue.


Matador de índios.
A fama de seu nome.
Sua memória em sangue
se repete.


(H. Dobal. O Dia sem Presságios. 1970.)


De Torquato Neto, esse poema em que pensa logo e versa o enigma que ele era. Verso livre; poesia viva. Vive, poeta:


Cogito


Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


Eu sou como eu sou
Agora
Sem grandes segredos dantes
Sem novos secretos dentes
Nesta hora


Eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim.


Eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


(Torquato Neto. Os Últimos Dias de Paupéria. 1972.)


De mim, um poema em que revisito todos esses poetas acima para homenagear um artista plástico, depois de bater de frente com uma sua tela, na galeria que tem seu nome, na Oficina da Palavra, em Teresina, Piauí. Pinta, poeta:


sobre o realismo plástico artista: um homem em sua obra*


de tinta de sangue
fez-se teu nome – Fernando –
personalíssimo & transferível ao poema


pelo bendito ódio à vida
que se-gerou imagem sangüenta
de tanta pintura & quanta violência!


ah... quadro profundo!
teus punhos teu ventre teu grito teu estilo
compunham tua mais crua obra prima & derradeira


(No Primavera; próxima, a praça que tem, sim, seu nome próprio.)


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. 2009.)


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* Em memória de Fernando, um artista plástico do meu bairro, nessa rota pela Costa de duas artes piauienses. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A mim mesmo, poetas, poemas autossatíricos

Nesta postagem de hoje, eu estava pensando em escrever um texto que não seria aquela coisa, do tipo “meu querido diário...”, típico desses aborrecentes que interditam a internet com suas baboseiras. Não. Masporém escreverei algo muito pessoal: meio queixa, meio desabafo... inteiro de intenções lírico-maldizentes! Minha pena não é mais o lápis ou a esferográfica nem tanto de escrever a máquina. É esta tela eletrônica; a página, este blog. Ainda bem que esse espaço evoluiu, no sentido da mais alta responsabilidade; cresceu para ser uma mídia particular, que enceta um novo público-alvo: pessoas interessadas em frequentar o lugar-comum, a roda de fogo. Ou como diria Carlos, o expor-se-às-bancas. É isso. Outra vez, por saber fazê-lo, querer mostrá-lo e ter o acesso pago e o espaço de graça neste sítio eletrônico, também escrevo eu. Ô paginazona grande da porra!

Hem-hém. Foi por isso que o blog cresceu, ou melhor, a internet. Foi esse querer produzir porque há um espaço em que todos podem postar o que quiser; foi o criar esse espaço crítico, onde a luta é o vale-tudo (cuidado com o dedo no olho e o chute nas partes); foi o conquistar este poder – de quem pode usá-la, de graça ou paga, claro! –, que possibilitou esse trânsito de ideias. Como ficou mais fácil realizar o trabalho e mostrá-lo ao público. E que público! Capaz de transformar estultos em celebridades (esse conceito midiático de quem é muito assediado, acessado, visto em revistas, vídeos, telas, novelas...), mastambém de dar reconhecimento àqueles que, de fato, devem recebê-lo. E mais: como, hoje, o acesso a obras nunca Camões navegadas (deixe o doce estilo novo para depois) é muitíssimo mais redundante, é acessível; o rotundo globo está na rede, pescado. Meu Diabo, quem diria que eu poderia ter às mãos – às mãos, como cópia, claro –, um dia, um exemplar de Compilaçam de Todalas obras de Gil Vicente ou mesmo do livro de estreia do jovem poeta Lycurgo José Henrique de Paiva, Flores da Noite, lançados nos séculos XVI, o do português, e XIX, o do piauiense?

Não escrevo responder a isso. É, mastambém acho, Milton: nesse mar, há 99% de besteira e 1% de coisa que escapa. Escuro (chega de claridade!), senão isso não seria vida, e sim, ficção. Onde mesmo se anda esbarrando em gênios ou em genialidades? Dá licença, Aladim, aqui, não tem essa de conversa para rei dormir, não. Porisso, digo isto que escrevo: escrevo poesia há alguns pares de ano, desde o final da década de (19)80, e até a publicação em volume de meu primeiro livro, em 2003, ainda não havia sido levado em consideração por nenhum crítico literário, aqui, de Teresina, Piauí; e nacional, então, nem se-escreve! É, algo complexo, pois, para alguém escrever sobre um livro de poesia, das duas, uma: ou é trabalho acadêmico (isso para aqueles poetas que têm uma obra reconhecida pela crítica) ou é trabalho pago em salários, qualidade ou amizade. Do primeiro tipo de trabalho ainda estou longe; dos segundos, nem tanto. Destes, gostaria de escrever acerca dos que me-consideraram a qualidade; apesar de já ter sido entrevistado por jornalistas pagos, semiprofissionais, e de já ter-me beneficiado de amizade para tanto.

Mas a riqueza mesmo está em ter uma fortuna crítica aristotelicamente nascida por geração espontânea. Pensamento & vontade. Sobre meu primeiro livro, por exemplo, excetuando-se a apresentação dele, feita pelo poeta Elio Ferreira, li algumas poucas palavras, ou melhor, alguns parágrafos, do cronista José Maria de Vasconcelos, em uma sua coluna dominical no Jornal Meio-Norte, de Teresina, no ano de 2004. Aliás, em seu texto, José Maria fez somente uma análise de um poema de BardoAmar. Interessante, inclusive, a análise. Não cito informações mais precisas sobre isso, porque perdi o exemplar do jornal; poderia até pôr algum excerto desse texto nesta crônica.

Poissim, de lá até aqui, restaram os comentários orais dos mais próximos. Tudo como deve acontecer com quem tem uma distribuição nestes números: 1.000 exemplares em 2003 e mais 1.000, em 2004. E menos: genialidade. Contudo, trabalhei para avançar de fase; com tudo, de-com-força! E, para satisfação minha, fui incluído nos verbetes dos poetas do Portal de Poesia Ibero-americana, organizado pelo poeta Antonio Miranda no sítio eletrônico www.antoniomiranda.com.br/. E leiam que eu somente o-conheço por fotos, vídeos e, agora, emails. Nesse caso, foi o passo da obra (ela chegou à capital federal) que decidiu minha sorte e, certamente, algum talento. Recentemente, fui incluído também no Dicionário Biográfico Virtual de Escritores Piauienses, organizado por Adrião Neto no sítio www.usinadeletras.com.br/exibelotexto. Esta última inclusão, não nego, foi por procura minha. Mastambém se-deve ao fato de já estar com o segundo livro publicado em volume, Onde Humano (Teresina: Nova Aliança, 2009). Quantos poetas não passam do primeiro livro, por ausência de compromisso com a poesia ou por qualquer outra coisa, como ocorreu com o nosso Lycurgo!

É pouquíssimo, eu sei; explico: sou lento e uso lentes; misturo as letras com tudo. Entanto, com meu segundo livro, pude, de direito, ser considerado por dois críticos literários de fato: um, poeta; outro, cientista. Este, Francisco da Cunha e Silva Filho, doutorado pela UFRJ; aquele, Francisco Miguel de Moura, mestre pela escritura. Tudo bem, eu ofereci a obra a eles, masporém não nos-obriguei a escrever acerca de livro algum. Foi gentileza deles, gentilhomens. E, quanto a isso, não escrevo nada; quem quiser dá uma lida, os textos estão tanto no sítio www.portalentretextos.com.br/ quanto nos blogs dos dois críticos literários piauienses, em http://franciscomigueldemoura.blogspot.com/ e em http://asideiasnotempo.blogspot.com/*. Escrevo, entanto, com as teclas firmes de quem sabe aonde quer chegar: o ponto final, que inicia a frase seguinte. Tenho compromisso com a poesia, e isso não é prosa, não. Apois, eu sou homem de letras (com L de qualquer tamanho!), e, em ou com elas, eu escrevo poesia. Vejo na ação desses dois críticos uma simpatia pela qualidade de minha produção poética. E o mais importante: vejo, em cada um dos textos, um motivo para esta crônica.

Com o texto de Cunha e Silva Filho, lembro os conselhos que Tobias Barreto de Meneses deu a Lycurgo de Paiva, ou melhor, “as considerações oferecidas antes da publicidade de Flores da Noite”, extraídas do Jornal do Recife de 30 de abril de 1866, escritas por Tobias e revistas depois por ele mesmo. Leiam estes excertos:


É um livro de versos, cuja leitura fez-me conceber bem fundadas esperanças sobre o seu autor. (...) em quem a meditação e o estudo têm muito que aperfeiçoar. (...) Outros dir-lhe-iam – deixa isso que não é para ti – nós dir-lhe-emos – estuda, pensa e prossegue. (...) Familiarize-se com os grandes poetas do século, e tenha a ousadia de querer segui-los, não de dizer o que eles dizem, mas de ir aonde eles vão.


Lycurgo devia ter lido isso com menos entusiasmo; é o que diz Monsenhor Chaves, pela leitura da história do vate oeirense, sua biografia, e também pelo que se-pode ler da sua bibliografia – além de Flores da Noite, deixou somente duas peças teatrais, Quedas Fatais, encenada, e Voos e Quedas, inédita. Porisso, está enganado quem talvez pense que, apesar de grato pela análise feita pelos dois críticos, eu não saiba que devo estudar muito para atingir um nível reconhecidamente reconhecido pela crítica nacional; quiçá, universal (o planeta Terra, esse nosso universo!). Sei dessa responsabilidade de poeta, meu caríssimo Cunha. Até mesmo porque sou um poeta nascido da escola; minhas primeiras escrituras em formato poema surgiram no ambiente escolar, inclusive, minha primeira publicação foi em um jornal alternativo, A Voz da Uruçu, editado Por Manoel Barcelar, o Tubá, e amigos, na cidade de Uruçuí, Sul do Piauí, em 1985, um poema de que somente me-recordo vagamente. Foi na escola que li o tanto de poeta que existe no mundo inteiro. Sei da imensidão do trabalho.

Tudo bem, que talvez eu possa querer-ser e, com isso, pense ser o bom, mais do que o rei; porisso, tenho que maldizer desses costumes e trovar um poema satírico que fiz para mim mesmo após participar de um concurso de poesia promovido pela Fundação Cultural do Piauí (FUNDAC); acredito que em 2008. Eu estava certo de que classificaria Onde Humano entre os três primeiros, escrito e visto que já havia classificado BardoAmar em segundo, em 2000. E mais: eu acreditava mesmo que iria ganhar o concurso. Toma! Aguenta a lapingochada (sem conotação sexual, essa palavra soa muito bem a pancada que levei). Fiz o poema, que serviu para mim e serve para tantos fins.

Foi assim que me-lembrei dele, isturdia, por conta de um sentimento parecido que tive. Escrevo: eu fui participar de um sarau em que iria ser distribuída uma pequena antologia dos poetas que haviam sido homenageados ao longo do ano de 2010 nos seus eventos. Fui certo de que, ao menos, um poema meu estaria no libreto que seria distribuído lá; e havia combinado comigo mesmo que iria interpretá-lo com toda a honra; todavia, para surpresa minha, não havia nada de mim na antologia. E seo ninga veio falar comigo dessa incoerência sem graça. Fiquei sem, também. Fulerage! Calma. Senta, que lá vem o poema. Sente só, ou melhor, manca:



Depois do leiteiro morto foi o padeiro após o concurso de biscoitos finos



Aqueloutro poeta creu

em estar bem classificado,

assado, e – crau! – assim

comeu-ele um grupo

de crus jurados, osquais,

escrutando seu trabalho,

à mesa, sentados, para

o bardo-padeiro, receitaram:

“Mais atenção ao preparo;

crua, ainda, a massa;

procure mais amaciá-la ,

pois o povo só provará dela

quando descansada!”



Bem feito (não sei se escrito!). Assim deve ser o ser: não querer-ser; ser somente. Concursos são concurso. Quanto à minha poesia, ela vai bem, obrigada que é a sujeitar-se às minhas jornadas de trabalho: de tecla em tecla o eu-poeta enche as páginas. Nunca mais querer cantar de o-cara. Mas querer teclar de blog sempre. Esses espaços abrem outros e outra oportunidade para alongar a prosa, pois li no blog de Francisco Miguel de Moura, em seu texto acerca de minha poesia, o segundo motivo para esta crônica: quando ele afirma que eu devo aparecer em dicionários literários de poetas piauienses.

Então, lembrei um segundo poema satírico, em que o ele-antilírico tem a ver com um poeta aqui da terrinha; jovem, tem muito tempo de se-recuperar dos vacilos cometidos com a gramática da língua. Não que ele seja um bodim; não, ele é esperto. Masporém o mínimo que se-espera de um poeta e, por imposição, de todo escritor é que ele, ao menos conheça sua língua (o leque que ele estende), tenha proficiência ao usá-la, já que, em poesia, excetuando-se a importância do tema, é o manuseio dela(s) que faz o poeta ser apreciado pelos consumidores de biscoitos finos. Erros grosseiros dão para ser percebidos de dois tipos: ou há uma falha de digitação, como ocorreu em Onde Humano (leia que estou tirando o meu da reta), na pág. 60, no segundo verso, no qual faltou um M em “era”, ou é incompetência linguística mesmo, pois desconhecer o uso do subjuntivo de verbos como pôr e ter e seus derivados é um exemplo claro disso, não tem desculpas. Poisnão, destilo um tiquim de escárnio neste poema que também é a minha cara. A minha casa é esta carapuça. Mora?



Ô língua afiada da peste!



Aqueloutro poeta

quer ser verbete-vedete

em dicionários, enciclopédias, telas;



quer ser

lido em escolas,

revistas, ônibus, festas;



mas sequer rege

a lâmina do verbo

que versa... e fere-se!




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* O texto de Francisco Miguel de Moura e a primeira parte do de Cunha e Silva Filho são as duas postagens anteriores; as partes restantes do texto de Cunha Filho postarei posteriormente neste blog.