sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poesia: um dos ondes humanos


catalogação da obra ou o poema dá obragem

poesia universal
poesia via-lacteana
poesia sistêmico-solar
poesia terrenumana
poesia sul-ocidental
poesia sul-americana

poesia brasileira
poesia nordestina
poesia meio-nortista
poesia piauienssísima
poesia campurbana
poesia todo-bairrista

poesia caseira
poesia de gabinete
poesia de mesa
poesia de papel
poesia de tela:
poesia mesma!

(Em qualquer desses lugares e neles todos.)


Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2003.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

ESTOU “DIRETAMENTE INTERESSADO” EM METADE DE SUA CASA


Desde que nos disponibilizaram esta promoção “a folote”, que é a internet, nunca mais fiz leituras de jornais impressos como o fazia anteriormente à assunção dessa “atitude suspeita”. É, jornais online, como o JB, a Folha, o Globo, o New York Time, o Le Monde, o El País, e o Meio-Norte, claro (não escute o escuro da minha opinião, não), a preço de lan house ou a de modem pré-pago ou de conta mensal com “os gigantes da rede” é algo que não se deve deixar de aproveitar mesmo. Tudo bem, há diferenças. Apois. Isturdiinha (sábado, 03/07), eu estava folheando o jornal Meio-Norte impresso (a redundância é um exemplo pros meus alunos; mania de professor!), aproveitando o que a padaria onde tomo café oferece “de grátis”, e não é que me deparei com este “argumento rabulesco”, meu povo: o plebiscito sobre a criação do Gurgueia deve ocorrer apenas nas cidades que comporão o suposto Estado, que, segundo o “genial” autor dessa tese, é, sim, a “população diretamente interessada” nessa divisão, conforme reza a Constituição.
Não, não, o senhor está certo, “doutor” (pus as aspas porque não sei se o ilustre advogado, que é o autor da tese aludida acima, é, de fato – e de direito! –, pós-graduado com um doutoramento). O senhor está certo, porque não tenho dúvidas de que a maioria da população dessa região está realmente “interessada” nessa divisão do Piauí em dois; o que se dirá dos políticos! Mas não quero discutir, aqui, essa questão secundária; o que venho defender, com este meu texto, é algo primevo (daqui, do Primavera, ou de lá, do primitivo das Capivaras!), é o meu direito de estar “diretamente interessado” em ser consultado se houver um plebiscito acerca dessa separação, separatistas! Não, data venia, “doutor” – e dados (data!) venham! –, eu não concordo com o senhor nem com os sul-piauienses (por que não denominam o novo Estado de Piauí do Sul, como o querem os sul-maranhenses a respeito do Estado deles?). E, para “marcar o território" dessa minha oposição, gostaria de propor-lhe uma questão satírico-jurídica, que eu chamarei de “A questão de Hermanomeu” (como falei, essa titulação é só para dar ares ao texto de “profundo”, “sapiente”, “intelectual”, manca?).
Explico; melhor, argumento, ou melhorinda, proponho, merimão: se o senhor tivesse um imóvel ( bom, uma casa!) registrado em seu nome e lhe fosse proposto dividi-lo entre mim e o senhor, nas mesmas proporções em que se quer dividir este Estado em Piauí e Gurgueia, quem deve ser consultado para decidir essa questão, somente eu ou eu e o senhor? Que bom que o senhor tem a opinião de que deve ser somente eu quem deva decidir um tal “interesse público”. Estou precisando mesmo de uma “verba” como essa. Quanta palavra e quanto número vão ser gastos! Estava precisando disso. Mas não se preocupe, não há possibilidade de “coabitarmos o mesmo lar”; por isso e pela legítima “incompatibilidade de gênios”, venderei a minha parte a alguém, e a pessoa que tem a preferência é o senhor mesmo. Pra ficar na paz, mano. E digo mais: não se preocupe, pois há “saída jurídica” para uma proposição tão tola quanto essa; ainda mais, que é feita por um estudante graduado em Letras, que efeito terá? Deixa quieto.
Contudo, quero continuar defendendo meu grito com tudo, na tubada deste texto. Rápido e rasteiro. Grosso modo, grosseiro. Mas o ser ruda a minha opinião não a desqualifica nem a “tipifica criminalmente”. E menos: citar o artigo, o parágrafo, o inciso ou a alínea da Constiuição Federal ou, como queira o advoguês, da Carta Magna não dá autoridade a seu argumento, seo dotô. Arrepare que, com isso, o siô pode estar até rabulando, e isso é feio se é assim (se é assado não sei, mas a batata está...). Apois. Na Constituição, a expressão “a população diretamente interessada”, no caso de nosso (?) plebiscito, refere-se à do Piauí. Por quê? Ora, se a Constituição é Federal e a divisão de que trata essa questão é a de um Estado da Federação; então, a quem isso “interessa diretamente”, senão à população desse Estado, nesse caso, a do Piauí (afinal, cineasmente falando, essa pôrra ainda nem foi dividida!)? Assunte: eu já metendo gente (olha o respeito, nem pense num “em” nesse lugar!) importante nessa pendenga. Vixe, deus-me-livre de me topar com o Ancião. Não quero briga, mestre; isso só se não tiver jeito. Mas eu tô é brincando mesmo.
Escrevo: pilera à parte, não tem nadazaver esta minha opinião com despeito ou falta de respeito. Hem-hém, e este cabôco do interior do Piauí (ilustres Piaguí e Tabajaras!) é besta por acaso? Não sou nenhum bodim pra querer caçar conversa com um “doutor da lei”, nem com um Mestre das Letras. Eu mesmo não quero papo: o meu ponto final nessa questão abre as reticências para o debate de quem quiser. Minha opinião é esta: eu devo, sim, ser consultado sobre essa divisão do Piauí, constitucionalmente falando. E não vou mentir (mesmo sem ter medo dessa parada pagã, cristã ou muçulmana de inferno): sou contra. E pronto. E ponto (senão, me dá metade da sua casa, dotô). Eita terrinha quintura; o mais besta, aqui, é presidente de qualquer furdunço.



Por Luiz Filho de Oliveira, poeta de um Estado só e de dois livros apenas, BardoAmar e Onde Humano.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Hans Staden narrou, Theodor de Bry desenhou e eu poetei (satírica mente)



onde o protesto é um parente distante no tribunal mais próximo

conforme testemunho
tão bem ilustrado por Theodor editor ilustre
os tupis criaram o modelo universal de churrasqueira
(aquela com um gradeado para segurar a carne da presa)
bem ao gosto & ao tamanho do Brasil: pro mundo capital!

portanto e por tanto e mais tantos por cento do lucro devido
exije indenização por essa patente nativa
um poeta (à parte) nesta ação contra o mercado
que o modelo tem copiado após o alemão Hans
levar a brasa embora nas memórias
mora?
(talvez juro)

(Em churrasco de poesia, comendo irmãozinhos de outras tribos.)


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

NOTAS DUM PIAGA DE CÁ DO PIAUÍ


Quando eu fui editar o meu segundo trabalho em poesia, Onde Humano (Teresina: Nova Aliança, 2009), achei importante fazer algumas notas de esclarecimento acerca de determinados termos e expressões que apareceriam nos poemas desse livro. Era justo, pois muitos dos que fossem lê-lo, não versados em piauiês, nordestinês ou sertanês, poderiam não entender certos vestígios dos falares que incorporei em minha língua.


Pensei: eles não vão ter a mesma intimidade que tive ao ler os autores que compunham a “Literatura do Norte”, como escreveu Tobias Barreto acerca dos livros de cultura nordestina, daqueles com sotaque da terrinha. Tá lendo? Esse “diminutivo emotivo” é coisa de nordestino mais que todos, do que tudo de brasileiro; esse falar que faz sentido, por exemplo, no texto de Francisco Gil Castelo-Branco, Ataliba, o Vaqueiro. Nessa obra (a primeira que trata do tema “seca” na literatura brasileira), o prosador piauiense demonstra claramente a sua preocupação em descrever o falar do sertão Piauí do século XIX e em deixar claro o significado de palavras ou expressões regionais que utilizava em sua prosa; afinal, estava ele escrevendo no Rio de Janeiro de 1878, no jornal Diário de Notícias, para um público diverso, leitores de folhetim que desconheciam o falar de sua “terra de piagas”. Não é de se-estranhar, portanto, que ele dê uma explicação dicionarizada a alguns termos do falar do sertão piauiense utilizados no seu texto, sobretudo, aos que dizem respeito à atividade do “herói do sertão”, o vaqueiro (não é Jerônimo; é Ataliba!): perneira, guarda-peito, gibão, , febre malina, cachingando, dentre tantos regionalismos; brasileiríssimos!


Continuei pensando: esses possíveis leitores também não iriam ter um idílio com os idiotismos do sertão brasileiro (do Norte ou Centro-Norte), como eu tive ao ler o famigerado Grande Sertão: Veredas, essa prosa maravilhosa do seo João. Ah, viver escrevendo é mesmo algo muito perigoso! Pensei terminando: os meus leitores que não forem dessas “quadradezas” não vão-se-sentir em casa, ao provarem do hem-hém, do de-nelson, do vixe, do bodim, do Lá no Piauí ou mesmo dos sentidos que podem ser explorados a partir da etimologia do nome deste estado: Piauí.


Foi justo; eu fiz: pus umas tantas notas no livro, as quais me-deram muito trabalho para defini-las. Porém, de todas elas, aqui, neste sítio, gostaria de me-reportar-me-repetindo a duas delas somente. A primeira é aquela em que me-refiro à expressão Lá no Piauí, que, gostem ou não os piauienses, remete às origens deste estado, à “terra de gado” ou à “Fazenda Piauí”, como escreve o Aírton Sampaio (autor daqui do Piauí). A outra nota é a que implica a explicação sobre a origem da palavra Piauí, de sua etimologia. Para início desta conversa-escrito, vou começar por esta última, porquanto a mais necessária; porisso, a primeira. Na referência a essa nota, faço menção ao que escreveu o douto professor de História e de Filologia Ludwig Schwennhagen, membro da Sociedade de Geografia Comercial de Viena, Áustria, em seu livro Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil, de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado, primeiro, pela Imprensa Oficial do Piauí, em 1928, e em segunda (1970), terceira (1976) e quarta (1986) edições, pela Livraria Editora Cátedra, do Rio de Janeiro, com apresentação e notas de Moacir C. Lopes.  


Esta nota aqui, portanto, é importante, porque (notem!), desde que me-conheço-por-gente, eu já ouvia a explicação de que o nome Piauí significava “terra de piau”. E leiam que eu ainda não sabia desta significação de “rios dos piaus ou rio dos peixes de pele manchada”, que ensinou o professor A. Tito Filho nas notas que escreveu para a reedição da obra Cronologia Histórica do Estado do Piauí, de Francisco Augusto Pereira da Costa, em  1974, no Rio de Janeiro, pela Editora Artenova. É, muitos rios; então, muita água rolava. Assim, o peixe era raiz também. Não está aí o nosso emepebelíssimo instrumentista Renato Piau para tocar no assunto? Quantos conterrâneos ainda não no-fazem como ele, grafam (e garfam!) o peixe para dar a isca (a pista!) de que são piauienses?


Tal significação ainda hoje é propagada em cadeiras (de madeira, pois o C... é De Ferro!) de escolas desta minha terra quentíssima. Isso eu li no próprio professor e filólogo A. Tito Filho, como o-escrevi acima, nas notas que esse estudioso piauiense fez à excelente obra de Francisco Augusto Pereira da Costa, historiador pernambucano que residiu no Piauí quando exerceu cargo público no governo. E notem que, na primeira edição da Cronologia, como já o-constatara Schwennhagen em 1928, Pereira da Costa cita documentos do Estado, dos séculos XVII e XVIII, nos quais aparecem escritas as palavras que eram utilizadas para nomear Piauí. Vamos ler o que escreveu (a ótica é dele!) o lente austríaco acerca da etimologia dessa palavra:


“A chave para compreender a fundação e significação das ‘Sete Cidades’ dá-nos o antigo nome de Piauhy, que era ‘Piaguí’. Nos documentos históricos que juntou F. A. Pereira da Costa na sua excelente ‘Cronologia’, encontramos as formas: Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, mas nunca Piauhy [observem que, em 1928, o nome do Estado ainda era escrito assim!], que apareceu pela primeira vez em 1739. Somente nos primeiros séculos do Império foi adotada, como nome oficial da província, a grafia Piauhy, e ignorantes explicam esse nome como ‘rio de peixe piau’.


“Piaguí não pode ter outro significado do que ‘Casa (...), terra dos piagas’, a terminação i, na língua tupi, indica o ‘locativo’, como em latim, no grego e nas línguas pelasgas. As letras i e y significam no tupi ‘água’ ou ‘riacho’, na posição de prefixo, como em igara, igarapé, Ipiranga, Icatu etc. Existem exceções dessa regra; mas ‘Piaguí’ não é uma tal” (Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1986, p.103.).

 

Desconjuro! Vixe, que weltanschaaung, Schwennhagen! É muita mundivisão junta numa significação, aparentemente, tão simples; o que mostra toda a “catigoria” desse historiador tão ignorado pela comunidade científica desta pátria que não no-pariu, e ainda mais deste estado! Mas essa é uma questão de que tratarei somente adiante; agoraqui, o que quero escrever, primeiro, é que essas referências ao Piauí, como Piaguí, Piaguhy, Piagoy e Piagohi, Schwennhagen leu no livro de Pereira da Costa em sua primeira versão, a de 1909, já que esse intelectual austríaco residiu em Teresina no final da década de 1920. Na edição da Cronologia que tenho às mãos, a de 1974, da Editora Artenova, pude constatar a presença de Piaguí, Piagohy, Piaguhy e Piaugui; portanto, não aparecem, nessa segunda edição do livro de Pereira da Costa, duas nomeações citadas pelo austríaco (Piagoy e Piagohi), e ainda são acrescidas duas outras (Piagohy e Piaugui) à lista toda. Contudo, essa barafunda não afunda a observação de Schwennhagen de que “o antigo nome de Piauhy era Piaguí”; ao contrário, reforça-a mais ainda.


Será que A. Tito Filho ignorava mesmo essa explicação de Schwennhagen ou quis somente sustentar a sua hipótese (muito distinta da do austríaco)? Por que ele não levou em consideração as palavras citadas nos documentos apontados por Pereira da Costa, já que elas estão presentes na edição, publicada sob os auspícios do Estado do Piauí, em que, nela, A. Tito, trabalhou em 1974? Quem morrer saberá, porque quem vive este texto, como eu, vivo, (data venia: datas vão!) discorda da versão do mestre piauiense. E o-faço não somente pelos argumentos que utiliza em seu livro Ludwig Schwennhagen (o que já seria suficiente, a meu escrever, ler e ver), mastambém pelo que escreve o próprio A. Tito Filho em uma das notas da edição de 1974; senão, leiamos:


“Bugyja Brito trata exaustivamente do y em palavras tupis, quando passaram ao português. O y representava o som gutural de certas palavras. Foi o caso de Piauí: ‘Presenciei – diz ele – no interior do Estado do Piauí, não faz muitos anos, em zonas de pleno sertão, indivíduos segregados em virtude da falta de intercâmbio com a capital e com outros municípios mais florescentes, manterem a pronúncia da palavra Piauí como se fosse um som entre Piaurü e Piaugü, o que significa que, quando se grafou a palavra Piauhy, isto é, quem a fez, primitivamente, escreveu-a com h e y (há documentos em que apareceram as formas Piaguy e Piauguhy) a fim de que fosse traduzido um som equivalente. Um h aspirado junto a um y daria a pronúncia que foi então usada e que é a mesma que nos pareceu, naquela oportunidade, ter-se mantido nas zonas entre indivíduos remanescentes de antigos silvícolas” (Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1974, p.58.).


Poisbem, não resta dúvida de que essa raiz piag- faz parte da origem do nome hoje escrito Piauí, pois não são poucos os registros dela em documentos oficiais do Estado, dos séculos XVII e XVIII. A significação de “terra, casa de piagas” é, portanto, a mais plausível porque, se levarmos em consideração outros cronistas da história brasileira, leremos que o próprio padre José de Anchieta fora chamado, pelos nativos brasileiros do século XVI, de o “grande piahy”, ou seja, o grande piaga, o grande sacerdote; o que confere ao nome Piaguí essa denotação relativa a “piaga”. Não importa se metaplasmos incansáveis alteraram a grafia do topônimo “Piauí”; a origem dá-nos “piaga”, é fato, escrito. Os argumentos históricos e linguísticos listados por Schwennhagen são contundentes, atestam isto: essa significação é legítima. Resta saber de onde vêm as fontes de A. Tito Filho, para compará-las às do austríaco, apois.


Porfim, a segunda nota de que gostaria de escrever, a qual, aqui, se-torna a última, é aquela em que trato de um verso muito conhecido Brasil afora quando, ainda hoje, deve-se fazer uma referência ao Piauí. Não lembram ou não leram? Até o Oswald o-pôs na capa da primeira edição do seu Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade. É uma redondilha menor: no Piauí. Esse verso, mesmo em tempos de infernet, continua sendo lembrado por muitas pessoas de outros estados quando o papo é o Piauí. Não é para menos, esse pentassílabo faz parte de uma quadrinha declamada pelo vaqueiro Mateus, (“O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro/ Lá no Piauí.”), que o historiador pernambucano Pereira Costa afirma estar presente num auto de Natal pernambucano, um cavalo-marinho, de fins do século XVII, ao tempo da colonização do Piauí. Para Sílvio Romero (leia a postagem anterior a esta neste mesmo sítio; nela, há mais detalhes), no seu livro Cantos Populares do Brasil, esse cavalo-marinho é do final do século XVIII.


Datas a parte das notas, o texto colhido por Sílvio Romero ou aquele a que se referia em suas pesquisas Pereira da Costa, é, certamente, prova cabal para que se-evite assertivas completamente tortas, sem rumo, acerca dessa quadrinha, como as que li em um livro daqui do Piauí (não sei se era um volume da UBE-PI; parece que sim, mas não me perguntem sobre os dados catalográficos desse livro, que eu me-desfiz dele) ou para que não cante a música acrescentando a expressão “Ó, maninha!” (que nem é um pentassílabo!) antes do último verso, como a maioria das gentes faz hoje. Isso, inclusive, transforma a estrofe numa quintilha: “O meu boi morreu./ Que será de mim?/ Manda buscar outro,/ Ó maninha,/ Lá no Piauí!”. Essa é a versão que é difundida na internet em qualquer sitiozinho de música ou mesmo de qualquer bobagem (há verdadeiros absurdos; quanta desinformação!). Ela também foi reproduzida numa obra daqui, Coisas Piauienses na Visão Cabocla, de Luiz Rocha, publicado em Teresina, em 1995, pela Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves! Ninguém sabia desse equívoco? Quem sabe! O que eu sei é que é esse o modo de cantar que está presente, hoje, na memória do povo, no folclore popular; o que eu não sei é se esse modo de cantar foi difundido a partir do uso dessa “quadrinha” num musical do teatro de revista carioca, da primeira metade do século XX. Não sei; daí, talvez essa popularidade pelo Brasil afora.



Tudo isso são hipóteses; como a que eu construí acerca da explicação que registrou a historiadora (sim, lembro-me que era uma mulher) no livro a que me-referi acima. É o seguinte: ela escreveu, no seu texto, que a quadrinha foi criada a partir de um fato ocorrido na Câmara Federal, quando a capital do Brasil ainda era o Rio de Janeiro. É cinematograficamente hilária a cena: um cearense (lá vem a piada!), estando deputado federal pelo Piauí, ao receber, em pleno plenário (vazio?),  uma ligação dando conta de que seu boi predileto, o Mimoso (?), morrera, diz os famosos versos: “O meu boi morreu./ Que será de mim?” (não lembro se havia os dois versos finais). Como escrevi, eu não tenho mais esse livro, mas acredito que seja isso mesmo que estava escrito nele. Se estiver equivocado, me-corrijam.


Se houver outro sentido, não no-sei. Ainda bem que fui ter, nos livros, com F. A. Pereira da Costa, Ludwig Schwennhagen e Sílvio Romero; senão estaria ignorante da história dessas versões, informações dignas destas notas. Hem-hém, menino. Eu quero que saibam que elas existem, para que todos tomem o seu assento quanto ao significado do nome deste sítio. Porisso, daqui, repito, perito, aos Piagas Filhos:


O meu boi vivo;

Que serão pra mim!

Manda buscar todos,

Cá pro Piauí!



sexta-feira, 15 de abril de 2011

DE LÁ DE PERNAMBUCO

A partir deste ano, procurarei, com mais intensidade, postar textos importantes (não que os meus não no-sejam!) para a cultura piauiense e, por extensão, para a brasileira, a mundial. Textos mundanos, laicos, científicos, populares, artísticos, o diabo-a-quatro (ou os deuses-de-quatro!). E, para iniciar essa“prestação de serviço”, postarei um texto que remete à referência ao Piauí mais conhecida (?) no Brasil, a famigerada quadrinha: “O meu boi morreu!/ Que será de mim?/ Manda buscar outro?/ Lá no Piauí” (esse negócio de “ó maninha” foi verso inventado no teatro de revista?).


Pois bem, essa quadrinha tão cantada Brasil afora está dentro de um cavalo-marinho pernambucano. Para quem não conhece, o cavalo-marinho é uma versão pernambucana do bumba-meu-boi; nele, há música vocal, dança, cenas dramáticas, ação, poesia improvisada, música instrumental, máscaras e fantasias. “O enredo do Cavalo-marinho concentra-se em torno do Capitão, um proprietário rural que tinha deixado suas terras sob o controle de Mateus e Sebastião, dois vaqueiros. O Capitão deseja celebrar a volta dele às suas terras, mas, os vaqueiros não deixam. O Capitão manda um Soldado tirar a licença à força, e ele consegue, após muita confusão cômica e pancadas altas, mas, sem dor, das bexigas de boi que o Mateus e o Sebastião usam como armas e instrumentos musicais” (http://www.overmundo.com.br/.).


O Texto que você vai ler, a seguir, foi coletado por Sílvio Romero e publicado no livro Cantos Populares do Brasil. Para esse estudioso, esse reisado é datado do século XVIII; já, para Pereira da Costa, ele é do final do século XVII. De uma ou de outra data, o que esse texto traz de importante é que nele há a primeira referência ao Piauí como “terra de gado”, vinda de outro canto do país (com o trocadilho mesmo, pois é cavalo-marinho e bumba-meu-boi!). Vamos ao texto original:



REISADO DO CAVALO MARINHO E DO BUMBA-MEU-BOI*




CENA I
(O Cavalo marinho a dançar e o Coro)
Coro:
Cavalo-marinho
Vem se apresentar,
A pedir licença
Para dançar.
Cavalo-marinho,
Por tua atenção
Faz uma mesura
A seu capitão.
Cavalo-marinho
Dança muito bem;
Pode-se chamar
Maricas meu bem.
Cavalo-marinho
Dança bem baiano;
Bem parece ser
Um pernambucano.
Cavalo-marinho
Vai para a escola
Aprender a ler
E a tocar viola.
Cavalo-marinho
Sabe conviver;
Dança o teu balanço
Que eu quero ver.
Cavalo-marinho,
Dança no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Cavalo marinho,
Dança na calçada;
Que o dono da casa
Tem galinha assada.
Cavalo-marinho,
Você já dançou:
Mas porém lá vai,
Tome que eu lhe dou.
Cavalo-marinho,
Vamo-nos embora;
Faze uma mesura
À tua senhora.
Cavalo-marinho,
Por tua mercê,
Manda vir o boi
Para o povo ver.


CENA II
(O Amo, o Arlequim, o Mateus, o Boi, o Coro, o Sebastião e o Fidelis.)


Amo:
O' arlequim,
O' pecados meus,
Vai ,chamar Fidelis,
E também Mateus.
O' meu arlequim.
Vai chamar Mateus,
Venha com o boi
E os companheiros seus.


Arlequim:
O' Mateus, vem cá.
Sinhô está chamando;
Traze o teu boi,
E venhas dançando.
Só achei o Mateus,
Não achei Fidelis;
Bem se diz que negro
Não tem dó da pele.


Amo:
O' Mateus, cadê o boi?


Mateus:
Olá, olá, olá,
Boio tá p 'ra cá,
Boio tá p'ra cá. . .
Se minha boio chegou
Eu tá aqui;
E que foi esse
Pur aqui?
O' meu xinhô,
Cadê-lo o Bastião,
Cadê-Ia- o Fidere?
Para onde fôro?
Venham cá vocês (para o coro)
E também o boio.


Coro:
Vem, meu boi lavrado,
Vem fazer bravura,
Vem dançar bonito,
Vem fazer mesura,
Vem fazer mistérios,
Vem fazer beleza;
Vem mostrar o que sabes
Pela natureza.
Vem dançar, meu boi,
Brinca no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Este boi bonito
Não deve morrer;
Porque só nasceu
Para conviver.


Mateus:
O' boio, dare de banda,
Xipaia esse gente,
Dare pra trage,
E dare pra frente. . .
Vem mai pra baxo,
Roxando no chão
E dá no pai Fidere,
Xipanta Bastião. . .
Vem pra meu banda
Bem difacarinha,
Vai metendo a testa
No Cavalo-marinha.
Ô, ô, meu boio,
Desce desse casa,
Dança bem bonito
No meio da praça. ..
Toca esse viola,
Pondo bem miúdo;
Minha boio sabe
Dançá bem graúdo.


Coro:
Toca bem esta viola
No baiano gemedô,
Que o Mateus e o Fidelis
São dois cabras dançadô.
No passo da juriti,
Tico-tico, rouxinó,
Se Fidelis dança bem,
O Mateus dança milhó.
O tocadô da viola
Tem os olhos muito esperto,
O som da sua viola
Parece-me um céu aberto.
Eu quero boa viola
Para fazer toda a festa,
O bom pandeiro concerta
O samba na floresta.
Eu fui dos que nasci
Na maré dos caranguejos,
Quanto mais carinhos faço,
Mais desprezado me vejo.
Como sou filho do povo,
Tenho o dom da natureza;
Não sou feliz, mas bem passo
Com toda a minha pobreza.
Dança o boi, dança o Mateus,
Dançam todos os vaqueiros;
Dançam que hoje nós temos
Grande festa no terreiro.


Mateus:
Para, para, para!
Quero dizer um recado:
- Boi dançou, dançou;
Mai agora tá deitado!


Sebastião:
Ah! pracêro meu,
Boio de sinhô morreu. . .


Mateus:
A t'embora, bobo,
O boio divertiu muito,
Agora ficou cansado;
Toca bico do ferrão,
Pra tu vê como arrevira
E te dá no chão.


CENA III
(Os mesmos, o Doutor, Capitão do mato, D. Frigideira, Catarina, e o Padre; caído o boi, foge F'ielelis, chama-se um capitão do campo para o prender e um Doutor para curar o Boi; aparece um Padre para fazer o casamento ele Catarina.)


Mateus:
Minha boi morreu!
Que será de mim?
Manda buscá outro
Lá no Piauí.


Amo:
O' Mateus,cadê o boi?


Mateus:
Sinhô, O boi morreu. . .


(Sai o Mateus espancado pelo amo)


Amo:
Ó Mateus vá chamar
O doutor para curar
O meu rico boi:
Quero saber do Fidelis
Para onde foi.
Ó Sebastião, vá a toda a pressa,
Chame o Capitão do mato,
Dê as providência,
Que traga o Fidelis
Na minha presência.


(Chegando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam D. Frigideira e Catanrina, e Sebastião quer casar com esta; aparece o Padre para este fim.)


Padre:
Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco;
Não sou padre, não sou nada;
Singular sou como os outros.


Coro:
Ó chente, que quer dizer
Um padre nesta função?
É sinal de casamento,
Ou alguma confissão.


Padre:
Bula hem na prima,
Bata no bordão;
Arribo a função,
Não se acabe não.


Doutor (para Mateus):
Ó negro, teu desaforo
Já chegou aonde foi;
Quando tu me chamares
É pra gente e não pra boi.


Mateus:
Ah! uê, ah! uê!
Troco miúdo
Tu vai recebê.


(O Capitão campo dá com o Fidelis e vai prendê-lo.)


Capitão:
Eu te atiro, negro,
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão.


(O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra.)


Coro:
Capitão de campo,
Veja que o mundo virou,
Foi ao mato pegar negro,
Mas o negro lhe amarrou.


Capitão:
Sou valente afamado,
Como eu pode não haver;
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr.


(Finda-se aqui a função saindo todos a cantar.)




*(Obtido em http://pt.wikisource.org/wiki/reisadodocavalomarinhoedobumba-meu-boi, acesso em 15/05/09.)

Lido isso, não há que se-inventar alguma história de que essa quadrinha foi criada por fulano de tal quando era deputado e foi informado da morte de seu boi predileto ou mesmo que se-ecoar essa quadrinha com um quinto (?!) verso (o tal de "Ó maninha!"). Estou com Romero e Pereira da Costa: a referência original é o cavalo-marinho pernambucano e nele aparece uma quadra. Se é do século XVII ou do XVIII, depois se-vê.  O certo é que a quadra famosa aparece com a variação do falar caipira/sertanejo de Mateus; por isso, a "desconcordância" no primeiro verso, "Minha boi morreu!", que, para manter a redondilha menor, substituímos hoje por "O meu boi morreu!".

Foram esses versos que chamaram a atenção dos Andrade, os modernistas famosos (Mário e Oswald)para o nosso sumidíssimo Piauí. Aquele, nos seus estudos acerca do folclore brasileiro; este, como referência ao nosso estado na capa de seu livro "Primeiro Caderno do Aluno de Poesia", obra e autores que tanto foram objetos de meus desejos e estudos. Portanto, quando Mateus canta hoje estes versos, eu respondo em coro uno:

O meu boi tá vivo!
Que serão para mim!
Manda chamá todos
Cá pro Piauí!