sábado, 26 de março de 2011

AQUI DA POESIA DO BRASIL

Após estes dois poemas de Mário de Andrade, apresento-lhes três poemas meus que dialogam um pouco com esse meu mestre de sempres!


EU SOU TREZENTOS


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(Mário de Andrade)


DOIS POEMAS ACREANOS
a Ronald de Carvalho

I

DESCOBRIMENTO

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

II

ACALANTO DO SERINGUEIRO

Seringueiro brasileiro,
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.
Ponteando o amor eu forcejo
Pra cantar uma cantiga
Que faça você dormir.
Que dificuldade enorme!
Quero cantar e não posso,
Quero sentir e não sinto
A palavra brasileira
Que faça você dormir...
Seringueiro, dorme...

Como será a escureza
Desse mato-virgem do Acre?
Como serão os aromas
A macieza ou a aspereza
Desse chão que é também meu?
Que miséria! Eu não escuto
A nota do uirapuru!...
Tenho de ver por tabela,
Sentir pelo que me contam,
Você, seringueiro do Acre,
Brasileiro que nem eu.
Na escureza da floresta
Seringueiro, dorme.

Seringueiro, seringueiro,
Queira enxergar você...
Apalpar você dormindo,
Mansamente, não se assuste,
Afastando esse cabelo
Que escorreu na sua testa.
Alguma coisas eu sei...
Troncudo você não é.
Baixinho, desmerecido,
Pálido, Nossa Senhora!
Parece que nem tem sangue.
Porém cabra resistente
Está ali. Sei que não é
Bonito nem elegante...
Macambúzio, pouca fala,.
Não boxa, não veste roupa
De palm-beach... Enfim não faz
Um desperdício de coisas
Que dão conforto e alegria.

Mas porém é brasileiro,
Brasileiro que nem eu...
Fomos nós dois que botamos
Pra fora Pedro II...
Somos nós dois que devemos
Até os olhos da cara
Pra esses banqueiros de Londres...
Trabalhar nós trabalhamos
Porém pra comprar as pérolas
Do pescocinho da moça
Do deputado Fulano.
Companheiro, dorme!
Porém nunca nos olhamos
Nem ouvimos e nem nunca
Nos ouviremos jamais...
Não sabemos nada um do outro,
Não nos veremos jamais!

Seringueiro, eu não sei nada!
E no entanto estou rodeado
Dum despotismo de livros,
Estes mumbavas que vivem
Chupitando vagarentos
O meu dinheiro o meu sangue
E não dão gosto de amor...
Me sinto bem solitário
No mutirão de sabença
Da minha casa, amolado
Por tantos livros geniais,
"Sagrados" como se diz...
E não sinto os meus patrícios!
E não sinto os meus gaúchos!
Seringueiro dorme ...
E não sinto os seringueiros
Que amo de amor infeliz...

Nem você pode pensar
Que algum outro brasileiro
Que seja poeta no sul
Ande se preocupando
Com o seringueiro dormindo,
Desejando pro que dorme
O bem da felicidade...
Essas coisas pra você
Devem ser indiferentes,
Duma indiferença enorme...
Porém eu sou seu amigo
E quero ver si consigo
Não passar na sua vida
Numa indiferença enorme.
Meu desejo e pensamento
(...numa indiferença enorme...)
Ronda sob as seringueiras
(...numa indiferença enorme...)
Num amor-de-amigo enorme...

Seringueiro, dorme!
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme!
Brasileiro, dorme.
Num amor-de-amigo enorme
Brasileiro, dorme.

Brasileiro, dorme,
Brasileiro... dorme...

Brasileiro... dorme...

(Mário de Andrade. Clan do Jabuti, 1927.)


cantiga da amiga lírica*

ah! minha amiga
da Galiza tocante vens
não em naus carracas galeões
masporém via vida linguagens genes
e os ais que guarda teu nome bem aí
desecoam cantigas também aqui (lá no Piauí!)
onde seguros os portos se-contracolonizam
com o legado das cortes de longe
das ondas do mar de Vigo
ou de ulissiponense gente

ai! minha amiga
 re-volto mar música poema
      onde naufragaram as perguntas
      que cantando gaiado fizeste – e tanto!
      frente aos humanos sentidos a natureza
      não nos-entende (isso é mesmo coisa das gentes!)
      não perguntes pois ao verde pinho nem às ondas
      que não se-ocupam de nenhuma música-poema
      aonde inscrito anda este teu amigo lírico
      que vivo aqui cantando – e sempre-vivo!



(De Teresina a Timon, a passar por Vigo ou Lisboa.)


*A Laís, uma estudante minha amiga, bem-vinda de Galiza lírica.


mesa de bar do Rio (diálogo do poeta-mano com os manos do poeta)**

ó ali a nave louca
lá no Piauí!

– ela voa & diz loa
de mãos dadas com
o torto... um anjo!

– meus deuses!!!
que será de nós?

– eles já foram... mano
calma! esfria a cabeça
que o bode na brasa
vem depois do boi
e nem assou... espera!
morou?

hem-hém!


(Na última vinda do nauta da nave a Teresina.)

**Em memória de Wally, viajante-mente-sailor-moon, neste mundo sem Salomão com seus cânticos.



ondeAndradeandaretooutropoetatorto

brasileiro-acorde
te-acordo por não ter-te-visto ali
lá no Piauí!: lar do primitivo
dos humanos nossos de ondes passados
(né Niède?1  né Chovenágua?2)

e te-acordo por não ter contigo
café bebido e bebida cajuína cachaça vinho
– tragam pra mim um coquetel paulista:
mar + rio... tanto mar tanto rio... please!
e bebamos ao possível poema vivo
e a nota (não conta) cante o tom plurilíngue
e a harmonia ao som enxame!

masporém brasileiro-ser-guerreiro
num ringue acre pronta pra nos-matar
a escureza está – também a virgem mata! –
tangendo o ataúde o cantocalar
e nós cantamos este canto miscigenado:
tupi and not tupi
globe theatre ou municipal aqui
nesse chão que é também meu
brasileiro que nem eu!

e sem muito papo mansamente em porém
cena resistência – manosabença
pois nos jamais veremos entanto
te-sinto – meu poeta nativo – onde
este eu brasileiro que nem tu anda
ruminando outro brasileiro dormido
a le-desejarcuma enorme diferença
de crença e de desejo e de pensamento – o bem
da humanidade: aos bondes! de carrada!

e ainda brasileiro amigo: é bom
ter passado in tua vida in ronda paulistana
si rota policio circandandobliquamente
in estradas Andrades andadas extratos
de alguéns que nem eu & tu & ele
brasileiros que nem tudo!



(Em São Paulo, ante a entrada, na calçada do teatro municipal.)

_______________________________________
1. Niéde Guidon. Pesquisadora paulista responsável pela equipe que descobriu os sítios arquelógicos na Serra da Capivara. Esses estudos, realizados a partir da descoberta de inscrições rupestres e fósseis na região de São Raimundo Nonato, concluíram que o primeiro homem americano teria habitado o sertão piauiense, há cerca de 60 mil anos, contrariando outras teses sobre o início do povoamento das Américas.
2. Chovenágua. Apelido pelo qual era conhecido por populares, em Teresina, o cientista austríaco Ludwig Schwennhagen. Essa alcunha adveio da dificuldade de pronúncia do seu sobrenome. Chovenágua foi professor do Liceu Piauiense e escreveu um importantíssimo tratado histórico, Os Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil - de 1100 a.C. a 1500 d.C., publicado pela Companhia Editora do Piauí, em Teresina, no ano de 1928, no qual sustenta a tese de que esse povo de vocação marítima esteve no Piauí, que Sete Cidades seria um centro de confluência da nação Tupi, seus descendentes diretos e dos Cários, e que o tupi é uma língua do ramo pelasgo.



segunda-feira, 14 de março de 2011

MICROANTOLOGIA PARA MICROS



I

À CIDADE DA BAHIA

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!


DEFINE A SUA CIDADE

MOTE:
De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver:

um furtar, outro foder.


Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem Digesto, e Colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
De dous ff se compõe.
 

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.


Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Bahia tem letras cinco,
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
Um furtar outro foder.


(Gregório de Matos, Salvador, Bahia, século XVII.)



 

II

MINHA TERRA 
 
Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha;
- Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pr'as bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
- É uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de Abril.
Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
- É uma terra encantada
- Mimosa jardim de fada -
Do mundo todo invejada,
Que o mundo não tem igual.

Não, não tem, que Deus fadou-a
Dentre todas - a primeira:
Deu-lhe esses campos bordados,
Deu-lhe os leques da palmeira,
E a borboleta que adeja
Sobre as flores que ela beija,
Quando o vento rumoreja
Na folhagem da mangueira.
É um país majestoso
Essa terra de Tupã,
Desde'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
- Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.
Ao lado da cachoeira,
Que se despenha fremente,
Dos galhos da sapucaia.
Nas horas do sol ardente,
Sobre um solo d'açucenas,
Suspensas a rede de penas
Ali nas tardes amenas
Se embala o índio indolente.
Foi ali que noutro tempo
À sombra do cajazeiro
Soltava seus doces carmes
O Petrarca brasileiro;
E a bela que o escutava
Um sorriso deslizava
Para o bardo que pulsava
Seu alaúde fagueiro.

Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios:
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.
Foi ali, no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;

Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!
Um povo ergueu-se cantando
- Mancebos e anciãos
–E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
- Portugal! Somos irmãos!
Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam - guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!

Se brasileiro nasci
Brasileiro hei de morrer,
Que um filho daquelas matas
Ama o céu que o viu nascer;
Chora, sim, porque tem prantos,
E são sentidos e santos
Se chora pelos encantos
Que nunca mais há de ver.
Chora, sim, como suspiro
Por esses campos que eu amo,
Pelas mangueiras copadas
E o canto do gaturamo;
Pelo rio caudaloso,
Pelo prado tão relvoso,
E pelo tié formoso
Da goiabeira no ramo!
Quis cantar a minha terra,
Mas não pode mais a lira;
Que outro filho das montanhas
O mesmo canto desfira,
Que o proscrito, o desterrado,
De ternos prantos banhado,
De saudades torturado,
Em vez de cantar - suspira!

Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!

Depois... o caçador chega cantando,
À pomba faz o tiro...
A bala acerta e ela cai de bruços,
E a voz lhe morre nos gentis soluços,
No final suspiro.
E como o caçador, a morte em breve
Levar-me-á consigo;
E descuidado, no sorrir da vida,
Irei sozinho, a voz desfalecida,
Dormir no meu jazigo.
E - morta - a pomba nunca mais suspira
À beira do caminho;
E como a juriti, - longe dos lares -
Nunca mais chorarei nos meus cantares
Saudades do meu ninho!

(Casemiro de Abreu, Lisboa, Portugal, século XIX.)




III

TODOS CANTAM SUA TERRA, TAMBÉM VOU CANTAR A MINHA*

sou um homem desesperado andando à margem do rio Parnaíba
sou um homem com Glauber Rocha na cabeça e uma câmara na mão
andando fico à margem de minha terra:
TRISTERESINA.
terra nos olhos da lente.
só filmo planos gerais.
planos
o meduna.
ando pelas ruas mas tudo de repente é novo para mim:
a vermelha. a grama. o meu caso de amor. a estação da estrada de
ferro teresina-são luís um dia de manhã.
minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti.e a melhor água do mundo.
e um poço.
e um menino.
como posso agora cantar minha terra;
estando tão longe-perto dela.
como posso eu e essa miséria louca

descobrir destruir as ruínas do lar
citação: NÃO TEREMOS DESTRUÍDO NADA SE NÃO DESTRUIRMOS AS RUÍNAS

(Torquato Neto, Rio de Janeiro, capital, século XX.)

___________________________________________
*Poema póstumo, publicado no segundo número da revista Arraia Pajeurbe, de Fortaleza-CE, em 2004, e não incluído na recém-editada reunião das obras completas do poeta em dois volumes, Torquatália, lançada pela Editora Rocco.




IV


 
reinscreve um poeta a seu passo a nova capital & a passada capitania de Piaguí1*
     
tristeresina: um quê de semelhante
estás ao que era nosso antigo estado
(rico de nativos mortos por gados)
em este mote alheio & cambiante

se a ti tocou-te a máquina mercado
esse ouro que apaga muito brilhante
a nós todos aqui tem-nos-tratado
com os dous ff dum poema dantes

deste estado – a quem não deste por renques
as carnes como o-fez à gente ruda
de Bahia Pernambuco Minas (mortes!) –

há quem alegoricamente tente
fazer ainda uma vaca bojuda
para carnes & poemas de corte



(De Oeiras, Salvador, Ouro Preto, Recife a Teresina, em estados de Brasil.)


(Luiz Filho de Oliveira, Teresina, Piauí, século XXI.)


_____________________________________________________
* A Cineas, homem com letras, de cimos Sãos & Santos.

1. Piaguí: como era escrito o nome que, a partir de 1739, passou a ser grafado Piauí, conforme escreveu Ludwig Schwennhagen no seu excelente Os Fenícios no Brasil: Antiga História do Brasil - de 1.100 a.C a 1.500 d.C., publicado, pela primeira vez, em Teresina, em 1928.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LIBERDADA EM QUALQUER LÍNGUA, POESIA CONTRA AUTORITARISMOS EXTREMOS



A poesia sempre esteve no meio das confusões do caminho das gentes; atirada pedra, paus, espadas, tiros, coquetéis molotov; todos, a grito. Sabemos disso e disto: ela deve, sim, estar pondo fogo, por estes dias, em muita língua pelas bandas de ocidentes e orientes extremos de autoritarismos, feitos de sociedades anônimas & companhias ilimitadas. É o que deve ser: atirar textos de protestos contra aqueles que não querem ser justos como agentes públicos; questionar as cotas de ilícitos e as contas dos bancos desses corruptos de alto custo (que há corrupções de todos os preços, sabemos e vendemos nós!); exigir que pessoas que assumem cargos políticos devam proceder (e trabalhar!) como todos os agentes públicos a serviço de reinos, nações , Estados, sei lá o quê.

Sabemos: o que se-passou na Tunísia, no Egito passou à Jordânia, ao Iêmen, à Líbia, ao Barém, ao Marrocos (ver outros países!), e deve-se passar também no Brasil, apesar de nossa guerra parecer pacífica (o voto, aqui, ainda vai demorar muito para ser essa “injeção letal” nas veias da politrick, de Peter Macintosh, ou da nossa politicaca). É, Tosh, se eles não querem ceder e negociar; não se deve dar paz à negociação. Não. Tudo bem: seria excelente se aquela história de “todos fazerem a sua parte” desse certo. Paz é bom, mastambém é bomba, é bem conquistado a duras penas se não há um concílio para a conciliação, como prega, em plagas brasileiras, o Poder Judiciário. É ruim, hem? Ter sido provocado, enganado, roubado e ter de ficar calado. Não. Tudo mal: isso ainda acontece – e como! –, e, para tanto, façamos uma trégua pela poesia, para ela; aqui, revivamos, o reggae-poema de Peter Macintosh, este:


Equal rigths


Everyone is crying out for peace
None is crying out for justice
I don't want no peace
I need equal rights and justice



Everybody want to go to heaven
But nobody want to die
I don't want no peace
I need equal rights and justice


What is due to Caesar
You better give it on to Caesar
I don't want no peace
I need equal rights and justice


And what belong to I and I
You better give it up to I
I don't want no peace
I need equal rights and justice


Everyone heading for the top
But tell me how far is it from the bottom
I don't want no peace
I need equal rights and justice


Everyone is talking about crime
Tell me who are the criminals
I don't want no peace
I need equal rights and justice


There be no crime
Equal rights and justice
There be no criminals
Everyone is fighting for
Palestine is fighting for
Down in Angola
Down in Botswana
Down in Zimbabwe
Down in Rhodesia
Right here in Jamaica


Todo-Mundo quer o céu; Ninguém quer morrer. É, também disse isso o Gil, do alto de seus saberes, em seus autos satíricos. Na minha poesia satírica, também, sempre parti de um mote logo pensando a existência da nossa espécie: há, sim, pessoas que podem ser consideradas melhores do que outras; é só estabelecer critérios. Não há duvidar: muitos anos mexendo com a coisa pública acaba fazendo muito político mexer nela (“a mão na cumbuca”, lembra?); tanto, chega fede (essa é a construção a que foi reduzida o padrão “que chega a feder”, por estas terras).

A questão não é somente se é melhor ter um político técnico-especializado, um profissional liberal, um graduado ou pós por universidades, um militar ou algum Tiririca ou Romário da vida. Não. É muito simples, entanto, aqui, no Brasil (e em quantos países?), isso ainda não é possível. Leiam: somente há de ter o pretendente ética, de realizar as funções do cargo e de agir dentro da lei (esse lugar-comum que tantos não frequentam). Não tem errada: acredito que um Congresso Nacional, em certos países, deveria ser uma espécie de grupos de sindicatos, de representações de estratos da sociedade, de pessoas, que, além de estarem enraizadas em seus bairros, suas zonas, seus distritos etc., estão relacionadas a certas áreas de atuação profissional. Se todos querem ser profissionais, por que os políticos devem ser amadores? E leiam que estou dizendo “político profissional” não no sentido que nós, brasileiros, damos a políticos que fazem das câmaras, das assembleias e dos senados da vida seu ganha pão, dinheiro e circo (não está aí ainda José Sarney para fazer inveja a qualquer Muammar Kadafi da vida?); não, falo de profissionalismo no sentido de que alguém, para ser vereador, deputado, senador ou presidente de país, deve ser um profissional atuante em determinadas áreas de trabalho, ter um mínimo de experiência em determinada serviço ou coisa do tipo.

Tiririca e Romário, por exemplo, podem muito bem fazer bastante pelas artes (sobretudo as manifestações artísticas populares; olha o circo aí, palhaço!) e pelos esportes (se-liga, aí, chapa, logo você que sabe tão bem do bem e do mal do futebol brasileiro e internacional). Está aí, então, um bom momento para que um palhaço seja levado a sério (porque, afinal, no mínimo, ele tem a sua experiência como artista circense) e para que a marra do baixinho jogue duro contra a corrupção que já está rolando solta nas reformas ou nas construções de estádios dos estados em que vai haver partidas da Copa do Mundo de 2014. Escrevo: assim como deve-se eleger deputados e senadores por distrito, também haveria de ser diversa as representações profissionais desses parlamentares num Congresso Nacional. Assim, haveria um número X de deputados representantes de áreas-chave, como a saúde, a educação, a segurança, a agricultura, o comércio e a indústria, o meio ambiente, as matrizes energéticas, o trabalho, a justiça etc., como são divididos os ministérios, por exemplo.

O concurso é isto: ninguém deve ser impedido de concorrer a uma vaga para um serviço público, seja o de vereador, seja o de deputado, seja o de senador, seja, enfim, o de presidente ou de rei ou de “líder supremo” (o que for!), desde que, é claro, tenha competência para realizar esses trabalhos. É engraçado verouvir o Tiririca tirar onda da cara dos “deputados profissionais” dizendo o que disse tanto em sua campanha, que não sabia o que esses parlamentares faziam (muitos deles nem sabem mesmo!). É, o povo sabia que era verdade; porisso, votou nele. Um absurdo de voto! Um absurdo? Não. E já que Brasília, esse verdadeiro lugar-comum, é o retrato do país, o povo pagou pra ver. E há que lembrar-se sempre: há poder para tirá-lo do cargo, se ele não trabalhar o que deve. Nisso temos uma melhor possibilidade do que aqueles que moram em países chefiados por alguém que se-acha no poder de garantir a vitaliciedade de si mesmo. Apesar de toda a zorra na polititica brasileira, não gostaria de morar em nenhum desses países norte-africanos ou orientais, que estão em tais mãos.

O que escrevo pro Brasil, portanto, é que o povo esperamos que a lei, mesmo comprida, cheia de atalhos, seja cumprida por esses que elegemos para o executivo e o legislativo de todo o país. Trabalhem como devem. Chega de falso teatro! Ah, Sucupiras da vida, o seu Dias era homem de luta; queria, pois, seus dias finados! Para o Brasil e o mundo: há que lutar bastante, no verbo ou no ferro (como queiram). E, nessa bronca toda, há este poeta que entra com o grito de Gregório de Matos, de Tomás Antônio Gonzaga ou de Luiz Gama, com a lira maldizentemente satírica, a fim de cobrar o texto da Carta Magna relendo as Cartas Chilenas para espantar toda essa bodarrada! E, então, o verso faz-se poemas de escárnios e de maldizeres, digo, isto:

 
politicaca não-escatológica com um ex-voto em forma de um tolete (de plástico!)


políticos de merda!
país cu!
boga!


juízes cagados!
dinheiro sujo!
bosta!


não tapa o nariz
tapa na cara
seo merda!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A poesia medieval é a medida velha para uma nova mente

Desde que comecei a lecionar a disciplina Literatura no primeiro ano do ensino médio, o meu interesse pela literatura medieval foi ficando cada vez mais forte. A partir disso, os poemas-canções dos trovadores galego-portugueses, assim como o teatro vicetino e os poemas palacianos, passaram a fazer parte da minha leitura com uma frequência mais habitual do que na minha época de estudante universitário do curso de Letras.

Assim, nomes como cantiga, esparsa, vilancete, mote, glosa foram-se tornando comuns também na minha produção poética. Claro que, a princípio, isso se-deu por influência da minha necessidade de estudar esses conteúdos para trabalhá-los em sala de aula; depois, por interesse na história da língua portuguesa, que é, evidentemente, a “matéria-prima primordial” da minha poesia. O meu primeiro poema, em estilo medieval, incluído no livro BardoAmar, de 2003, foi uma esparsa (o adjetivo “esparso” significa “isolado”, “separado”), poema constituído por uma única estrofe, como este de Sá de Miranda, presente no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende:

Cerra a serpente os ouvidos
à voz do encantador;
eu nam, e agora com dor
quero perder meus sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d’ouvir as sereias;
eu não me soube guardar:
fui-vos ouvir nomear,
fiz minh’alma e vida alheas.


Além da esparsa que compus, alguns outros poemas de BardoAmar também apresentavam alguma referência à poesia medieval, em relação ao vocabulário, claro, pois, quanto ao conteúdo, não há nenhuma possibilidade, já que sou um poeta de outra época. Porisso, não há como reeditar uma postura (no caso, amorosa) como esta que aparece no vilancete do Conde do Vimioso, também presente no Cancioneiro Geral:

Meu amor, tanto vos amo,
que meu desejo não ousa
desejar nennhuma cousa.

Porque, se a desejasse,
logo a esperaria,
e se eu a esperasse,
sei que vós anojaria:
mil vezes a morte chamo
e meu desejo não ousa
desejar-me outra cousa.


Como eu disse, dessa poesia somente é possível copiar-lhe as formas, pois um conteúdo como esse em que o eu-lírico diz que o desejo deve ser afastado da relação amorosa é algo improvável na poesia contemporânea (a não ser que seja uma poesia de cunho religioso). E mais: desejar a morte para si mesmo também é algo que não faz parte de meu projeto de vida amorosa. Isso fica para esses poetas ou compositores de músicas “melosas” que querem agradar a um público lacrimoso.

Não sei se é do agrado de todos (claro que sei que não é!), mas os poemas de que falei são estes que lerá a seguir. O primeiro é a esparsa; o segundo é um vilancete. Vamos a eles:

esparso

gatinha... te-amei de amor
pré-antigo, moderno-pós,
pois (ai!) contracanto arteiro:
“teu não a mim não foi cor!”;
entre tantos, mais não digo,
posto, assim, cantarão
que, então, sendo não-amigos,
verso inverso o verso ubíquo:
que eu não sinta o ex-coração!


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar, 2003.)




vilão ser-te por amar a esta velha forma antiga


meu amor – tanto te-amo
que meu desejo são ousa
desejar-te minha lousa

por que bem te-escrevinhasse
pela pele em poesia
o que nos-registra o enlace
entre a tua vida e a minha
palavras mil eu reclamo
e tal ideia repousa
no teu corpo – minha lousa


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano, 2009.)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

AOS MESTRES COM CARONA




I


ACT IV, SCENE I.


The forest.


(Enter ROSALIND, CELIA, and JAQUES)


JAQUES
I prithee, pretty youth, let me be better acquainted
with thee.


ROSALIND
They say you are a melancholy fellow.


JAQUES
I am so; I do love it better than laughing.


ROSALIND
Those that are in extremity of either are abominable
fellows and betray themselves to every modern
censure worse than drunkards.


JAQUES
Why, 'tis good to be sad and say nothing.


ROSALIND
Why then, 'tis good to be a post.


JAQUES
I have neither the scholar's melancholy, which is
emulation, nor the musician's, which is fantastical,
nor the courtier's, which is proud, nor the
soldier's, which is ambitious, nor the lawyer's,
which is politic, nor the lady's, which is nice, nor
the lover's, which is all these: but it is a
melancholy of mine own, compounded of many simples,
extracted from many objects, and indeed the sundry's
contemplation of my travels, in which my often
rumination wraps me m a most humorous sadness.


ROSALIND
A traveller! By my faith, you have great reason to
be sad: I fear you have sold your own lands to see
other men's; then, to have seen much and to have
nothing, is to have rich eyes and poor hands.

JAQUES
Yes, I have gained my experience.


ROSALIND
And your experience makes you sad: I had rather have
a fool to make me merry than experience to make me
sad; and to travel for it too!


(William Shakespeare. As You Like It. 1599/1560.)






II


“– ‘Que bom que é estar triste e não dizer cousa alguma!’ – Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura, - jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma cousa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora essa expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.”

(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881.)






III


recado afiado ao sir inglês


se é bom estar
triste sem dizer nada
manca só esta machadada:


melhor é amar
mulheres em uma
ou mulher em várias!


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar. 2003.)