segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SONETO PARA TERESINA



Há dois anos, resolvi participar de mais um concurso de poesia (percurso que deve seguir todo poeta novo a fim de que seja (re)conhecido), intitulado “Soneto para Teresina”, promovido pela TV Cidade Verde, com o patrocínio de uma loja de equipamentos de informática; as duas, aqui, de Teresina, no Piauí. Mas, como um poeta de final do século XX e início do XXI, que se-diz comprometido com a poética moderno-contemporânea, pôde participar desse evento, se o soneto, como o poema-símbolo das tendências clássicas, sempre foi rechaçado por esses poetas que frequentam tal poética?

Eu somente vou responder a uma pergunta dessas porque fui eu mesmo quem ma-fez e porque vocês, leitores, sabem que isso é estratégia de início de texto. Por isso, vamos a uma conversa afiada ao invés de a uma fiada. Pois bem, resolvi entrar na disputa (ainda irei à Daspu) porque houve algumas confluências de fatos, os quais me-impeliram ao trabalho. Nada de “mágico”, “profético” ou “enigmático”, que isso são bobagens; o que houve é que, desde a universidade, resolvi acatar a sugestão de participar de concursos para que pudesse ter o meu trabalho avaliado por “especialistas”, dada por Afonso Romano de Sant’ana, em seu livro Como Fazer Literatura. Até aí, nada de mais, pois, mesmo que em certos casos (isso é errado!), o júri e os jurados privilegiem os seus próprios critérios, essa é, sim, a principal estrada que devem seguir os “estagiários” em poesia. Assim foi, e fui.

Todavia, a entrada, de fato, nessa via de mão dupla (leitor & leitura), na data a que me-referi antes, agosto de 2008, deu-se, sobretudo, pelo fato de eu, por esses dias, ter lido o poema “Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha”, de Torquato Neto, cujo título são versos do poema “Minha Terra”, de Casimiro de Abreu. Que belezura de palavra Torquato cria logo no início do texto: Tristeresina. Quando vi-a, não foi difícil pegar a estrada pros rumos da Bahia: Salvador me-saudou com aquele belo soneto do Boca do Inferno, Gregório de Matos e Guerra, “Triste Bahia! Oh quão dessemelhante”. A ideia começou a se-balançar (balouçar nunca mais?) no meu trapézio machadiano. E foi-se cortando a carne do ar, soando as palavras de um velhoutro soneto, o meu.

Incrível: eu estava escrevendo um soneto. Então me-veio à mente a máxima máxima de minha existência poética (e mesmo, de vida): não seguir totalmente a seo Ninga. Compreendem? A seo Ninguém! Por que não, um soneto? Ainda mais que a sua composição exige um tanto de paciência e perícia. Assim me-pus a fazer, a buscar a rima, a contar as sílabas, a trabalhar o tento. Saiu bonzinho. Tanto, que fui classificado em terceiro lugar no concurso. Que maravilha. Fiquei atrás de Zé Rodrigues (autor da famosíssima, pelo menos em nossa capital, música “Teresina”, juntamente com o maestro Aurélio Melo) e do poeta Hardi Filho, um proficiente sonetista piauiense, da Academia Piauiense de Letras, classificados, respectivamente, em primeiro e segundo lugares. Eu fui terceiro. Nada mal, para um iniciante. 

Apois, o que me-deixou um tanto confiante era que o júri do concurso iria ser presidido por Cineas Santos, um decano da nossa literatura, tanto na produção de literatura quanto de eventos de literatura. Esta aí o Salão do Livro do Piauí (SALIPI) para comprovar sua competência (mesmo que ele já tenha dito de que foi chamado pelos idealizadores do salão, não se-pode negar que ele foi convidado porque é um dos nossos principais nomes na cultura deste estado). Não me-decepcionei, foi o que me-disse a minha classificação. E mais: nos bastidores, o ancioso (calma, o C é um trocadilho escroto, com o apelido que Cineas gosta de dar a si mesmo e que lhe-foi posto por algum desafeto, segundo disse) confessou-me secretamente que meu poema poderia ter sido classificado em primeiro e que somente não fez isso porque o texto era de tom satírico e não ficaria bem dar um prêmio, no aniversário da cidade, para um poema que falava mal dela própria. Não ficaria bem com o patrocinador e, sobretudo, com a TV (não sei se com o público).

Tudo bem, isso já era muito bom, já que o “plano A” era somente participar ao vivo do programa e fazer uma propaganda de minha poesia via satélite para todos os teresinenses e, por extensão, para todo o meu estado. Porém, apareceu este “plano B”: além do elogio do mestre Cineas, ainda consegui receber, como premiação, um computador; este, com que escrevo este texto e pelo qual o-posto na rede (sem trocadilho, nada de oposto!). Ai, que preguiça, Mário. Acho que vou para minha rede.Vou, paro. Mas, antes, o poema:

reinscreve um poeta a seu passo a nova capital & a passada capitania de Piaguí*

tristeresina: um quê de semelhante
estás ao que era nosso antigo estado
(rico de nativos mortos por gados)
em este mote alheio & cambiante

se a ti tocou-te a máquina mercado
esse ouro que apaga muito brilhante
a nós todos aqui tem-nos-tratado
com os dous ff dum poema dantes

deste estado – a quem não deste por renques
as carnes como o-fez à gente ruda
de Bahia Pernambuco Minas (mortes!) –

há quem alegoricamente tente
fazer ainda uma vaca bojuda
para carnes & poemas de corte

 
(De Oeiras, Salvador, Ouro Preto, Recife a Teresina, em estados de Brasil.)


* A Cineas, homem com letras, de cimos Sãos & Santos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma personagem em dois espaços de amor: Omar romano (ANTIQUUS) e alto-longaense (novivíssimo)




digital ligação fonológica


o amor de Omar
um ramo de mim persona
mora em Roma agora (longe!)

onde não o mar nem a garoa
oram entre nós a mor distância
aqui & ali chamada roam






Alto Longá no caminho dum poeta

Este alto lugar tem mangueiras
das quais nunca ele vai mangar,
pois que a manga é saborosa
e a terra, pomar para Omar.

Ao cantar, unindo o som
da sua voz à do povo de cá
mais prazer encontra Omar – 

Ah! Esta terra tem-lhe fervores
que amor a ele permite gozar.

Porque era tarde, havia, a tanto custo,
à copa das mangueiras, a lua;
ao copo dos brincantes, a cana,
o poeta fazia por isso gosto;
por isso, na carne do ar, ele canta:

– À voz do meu amor, meus passos movo,
onde o luar as folhas claro-escuram,
cobrindo os cimos do céu; no mimoso
tapiz de folhas líquidas, eu todo, ela nua.

 

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O primeiro livro a gente nunca escreve, mas re...


BardoAmar

velhos personagens
vinha esse verbo velho
tinto em cenas líquidas

brinde pois conosco
onde imóveis agimos
corpemente ação excetiva

sãos sentidos que nos-marem
em música vinho poemas
caminho a tormentas

por risco também
nestas linhas fie tais sentidos:
aqui dentro eus nós

velozesamarras
velas a mar a velarem-se
no que o verso encerra

(BardoAmar. Teresina: Edição do Autor, 2003-2010.)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Poema-réquiem para mais um estudante achado morto por bala perdida

O poema abaixo não aconteceu por ocasião da morte desse jovem estudante morto na sala de aula por uma bala perdida. Não fiz poesia de acontecimento, a despeito de poder fazê-la. Sem problemas. Não tenho nenhum deles com Carlos, só alguma poesia.

Por isso, este escrito: este poema já era vivo muito antes desse caso horrivel, já estava escrito nos cadernos de minhas aulas de poesia (recebidas por ocasião de minha vinda a este sítio humano), já era grito & espanto há tanto tempo. Assim se-fez: um céu turvo de sangue de quanto mais vítima dessa catástrofe, que se-chame de “guerrilha urbana”. E é nesse Rio de Janeiro que governos brasileiros desejam fazer uma copa e outra olimpíada: piada infame. Me-lembra Tosh, incendiário: Politrick! Escrito também: Polititica!

Por tanto horror, este poema já estava escrito no quadro negro da educação brasileira, não com o lápis que o menino tinha às mãos, mas com as teclas que denunciam a falta de educação da polititica brasileira! Privado o público mais uma vez. Portanto, este poema:


Escolas públicas com o público privado da entrada

As carteiras são vagas para pobrezinhos,
mas estão vagas após uma bala ser achada
na sala, dentro do cérebro dum menino;

e, hoje, nela, há vermelho um quadro ainda,
escrito com palavras de política partida:
os professores estão em greve, na praça antiga.

E montam guarda (à noite) nas tavernas,
com paus, pedras, coquetéis e poemas;
desenrolando o Brasil a mesma gente lesa!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Homenagem a um homem que age em nome da liberdade de expressar algo (e daí, se for a descrença?)




Das minhas leituras de jornais e de revistas, se for pra lembrar o nome de algum artista de palavra fixa na página e de língua solta no texto, os que me-vêm à mente são os de Rubem Braga e de Millôr Fernandes. Veio primeiro o primeiro, via Caderno de Domingo no jornal O Dia, de Teresina, pela década de 1980; o segundo, segundo me-lembro, vinha revista Veja, semanalmente (e vejam só: hoje, ela está sacaneando o Milton!). Desses dois, eu tenho lembranças que me-teclam a tela de caracteres bem humanos: lirismo e arbítrio livres. Como devo à minha irmã, Rosário, por ter feito essas assinaturas sagradas: escrituras de toda semana, era tiro e festa (não posso dizer que não caí, mas, é claro, tal queda foi pra cima!).

Pois bem, do velho Braga, deixo para falar depois, como já o-fiz em outras páginas, essas postagens na pastagem árida da rede de computadores.  Deixa Cachoeiro desaguar esse outro Braga, que cantou em prosa de bom brasileiro o que versava seu lirismo, crônico de cotidiano. Ah, meu velho, como essas tuas linhas coseram minhalma! E eu nem precisava estar vestido em traje de gala para receber Rubem à minha mesa, à sala de jantar da Literatura; sua fala cheirava à comida, típico dos grandes literatos. Como eu esperava por aquele Caderno, com o seu Tempo de Poesia, o espaço, por mim, mais festejado. Que fome, aquela! Porisso que eu servi a Rubem um poema em meu livro Onde Humano, lembrando nossas agendas e também Raul Bopp, esse cabra Norato. É, isso é papo pra mais de quilômetro; dá inclusive pra conversar desconversando o assunto que me-trouxe aqui.

Masporém chega de conversa chata na hora da comida, menino; venho a este texto pra saudar Millôr Fernandes, o Guru do Méier; sobretudo & sobretodos, por conta de uma poesia tão irreverente quanto criativa; palavras desconcertantes à “poética funcionário público”. Bofeta, Millôr, esses que te-acreditam incompreensível profeta do anarquismo literal. Eles não sabem o quanto Millôr tem de método, é pra mais de metro! O não-livro de autores anteriores é pouca coisa frente ao sim-livro milloriano-luz; como cê neologisma ludando a palavra, meu antecamarada. Comigo também aconteceu de gostar de textos seus, pois, desde meu início em poesia, a irreverência na escritura era o que mais valia (sim, porque a poesia é capital!) para mim. Escuro que a minha poesia não faz frente à sua, nesse quesito, mas meu caminho ainda rabisco arabescamente. Não o-imito, minto-o muito.

Pena que não estou usando o meu “computador primitivo”, o velho amigo lápis, com seu processador de texto e seu deletador originais; hoje, digito este texto com esta máquina ainda um tanto estranha pra um quarentão como eu. Digo isso, porque, antes de ver aquela charge maravilhosa (que estou usando como ilustração desta postagem), eu também pensava assim: meu lápis é o meu primeiro computador, pois com ele fazia o mesmo que esses processadores de antes faziam. E quão alegre foi minha reação ao ver o seu desenho. Coisas de Guru mesmo. Porisso, é que não posso deixar em branco esta página, em que cê pede um poema a quem quer que seja poeta de ocasião, de acontecimentos. Sou-o; assim, suo-o. Paratanto, pego carona no teu texto e faço o que, Mestre, nos-manda no poema de alguns anos e tantos. Lembra? Então, vou puxar seu cérebro (claro que não puxaria outras coisas!) por meio e início (nunca findo) de um meu poema com objetivo de mais o-imortalizar, porque eu fiz as contas: cê é mais vivo do que muita gente junta.

Poeminha sem objetivo

Me elogia, vai!
Escreve um troço, aí!
Não dói, não; faz de conta
Que eu morri.

            Millôr Fernandes

Poeseu com Objetiva (A distância é de mil Tons!)

 – Millôr é o mió; posta-o!
É só o mii-da-pipoca!
Ê, fulerage da peste!
É o que vejo nessa joça.
            Luiz Filho de Oliveira

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Com a bola cheia do poema passado à vista de um jogador de pilhérias




Por estes dias de Copa do Mundo, fica fácil inventar firulas com o texto, dando bola às metáforas e clichês (bola fora?) ligados ao futebol. Não quero fazer isso de novo porque já o-fiz antes de todo esse jogo sujo dos autores à procura de textos-golos (ai, português lusitano!).

O esquema armado pro meu jogo-texto foi homenagear seo Carlos, um apurado revisor de textos, que conheci durante minhas aulas, dadas a uma santa católica, chamada Maria Goretti. Doutor Carlos, com sua figura sempre presente na área da sátira, além de revisor da escola onde eu trabalhava, era um piadista sem papas na língua e com uma pontaria dos diabos. Lembro a vez em que meteu uma bola nas costas de um professor abaitolado, chamando-o de “comedor de mirindiba”. Como o professor era ruim de bola e de piada, somente entendeu a bolada depois que alguém o avisou que fora driblado. Vixe, o cabra ficou fulo, machochô. Mas o jogo ficou mesmo nesse 1 a zero, pois ele também sabia tirar o time de campo na hora exata: aquela velha técnica de pedir desculpas sendo culpado. Muito esperto de sua parte. E a piada tinha ainda sua validade na área.

Além desses ataques centroavançados, outra posição em que doutor Carlos é perito é na zaga da revisão. Contam as más línguas que ele já revisou até Machado de Assis (e não, pelo fato de sua idade avantajada, não, era mesmo na ponta da língua). Se ele não entendesse o texto, baixava o sarrafo; e bola pro mato, que o jogo é de campeonato. Havia professor que até tinha medo de disputar a bola, que diga, o texto com ele. Eu mesmo, depois de levar um amarelo dele, tive muita dificuldade pra comprovar-lhe minha não-participação na jogada: eu estava em posição legal, de acordo com a norma. Ainda bem que ele anulou sua botinada. Figuraça, esse revisor detalhista; mas tudo era em nome da jogada limpa da clareza da mensagem. Não eram assim tão faltosas as suas entradas; o jogo é que era duro, porque durava mais do que noventa minutos, cinquenta, uma aula. Pena que não pude substituí-lo quando ele já estava cansado. Contudo, joguei com ele, e me-sinto por isso entusiasmado. Vai, Carlos, vai, que o poema é seu; pois minha é aquela sua fala séria, me-alertando sobre a canalha: “Amigo reconciliado, inimigo duas vezes”.

Não foi ensaiada a minha jogada, mas revisei e reescrevi-a em muitas quadras antes de entrar em campo. Saúdo um homem que trabalha a língua, mesmo estando hoje com a saúde debilitada. Saúdo-o escrevendo-lhe esta crônica e dedicando-lhe novamente um meu poema.


veste o REVISOR  a  3 : 0  POETA ataca com a dez*

zagueiro das letras
tu jogas limpo: eu jogos surjo
sem erros e não os cem... a mil!

e se defendes
a braços e cabeça
certa língua (errado?)
e com essas defesas tuas
tu não queres deixar passar
por entre as pernas dos teus olhos
não bola mas mil e umas palavras tortas
é por ser teu toque um acorde que acorda
posto veres com todos esses cuidados pudicos
os descuidos do time postos a padrão de público
porisso vês de novo revês: seguidas segundas vezes!
visas a ver os reveses nos entraves das falas do escrito
o ciscado dum atacante na grande área da arte dos signos
o cisco em campo a trave no olho (olha o lance! tira! vixe!)
viste? se parábola passa a palavra... bola mansa na página
e se jogas acima: eu lanço mão de um recurso vivo... poesia!
por que vejas como jogo o jogo todo de fora com a língua 
entanto noutro lance encontro espaço ainda
assim passo passes passas: jogadas
a dar a tua defesa (trabalhas!)
minha linha experta
sem errada
(certo?)


(Estando perto do País do Gramática.)

* A Carlos, pelo ofício de ser um senhor revisor Leal.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Andando com o inglês ao lado, pela Mancha, atrás de Pança



























onde alguém por perto não é privilégio

os assistentes são necessários...
se até o diabo tem secretário!
não é elementar... meus caros?

porisso deles não faço
uma figura triste ou talvez um asno
mas seres ambíguos significados... estão claros?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ondas do mar de Vigo se ouvistes Martin Codax e adeus!



Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
E ai, Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran coidado?
E ai, Deus, se verrá cedo!

(Martin Codax)