quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

VIGÉSIMA QUARTA DO BICHO-HOMEM: DA (DÁ?) DISCUSSÃO ACERCA DO SEXO DOS HOMENS E DOS DIREITOS DA MULHER


  

         Não vou dizer que não sei por que o conteúdo deste texto passa pela sexualidade dos homens e pelos direitos da mulher, porque sei muito bem que algum ledor do que escrevo não acreditará nesse clichê, saída em que muitos entram por carência de estilo. Sei mais ainda que nada sabia quanto a chegar a escrever disto, porquanto buscando algum poeminha pra divulgar neste blog, dei de testa-à-tela com alguns. Mas notei que três deles tinham versos que remetiam aos temas citados acima.
Na verdade, como esses poemas estavam gravados em páginas diferentes e um tanto distantes, somente percebi a ligação depois de ler o último deles (Mulherismo em cantigas doutros sítios) e fazer uma conexão de ideias em torno do questionamento que fiz ao ler estes versos do poema Lei do Sexo Complementar: “Artigo último:/ Todo Homem livre é/ para amar (uma?)/ qualquer mulher”. Por que não “universalizar” esse artigo-estrofe do poema, tornando seu conteúdo mais panssexual, ou seja, por que somente a visão heterossexual se há a possibilidade do toda-maneira-de-amor-vale-a-pena? Claríssimo, como já escrevi em outras postagens anteriores, que a minha posição é de homem que ama uma mulher, de modo e conceito particulares. Porisso, eu tinha escrito desse jeito; mas, há algumas linhas, reescrevi o poema assim:

Lei do Sexo Complementar

Artigo último:
Toda maior pessoa livre é
para amar outro ser humano
(se ela puder): homem ou mulher.

Parágrafo triplo:
Ressalvados uns casos,
o Amor de que se-trata,
muito, será bem tratado.

Inciso incisivo:
O que for retrogado
não considerará as
disposições, ao contrário.

Alínea desalinhada:
Aquele que não dispuser de cargo
para desposar os dispositivos desta lei,
deverá ir queixar-se à casa do caralho!


           Não somente para tornar a “Lei” mais abrangente, mas, reescrevi a estrofe, para não desconsiderar os homossexuais, pois conheço muitos deles (incluindo as mulheres de Lesbos), com os quais trabalhei e suportei a colegagem (“É preciso suportar Antônio”, Carlos!) e, com poucos, amizade. O certo é que, como segui a regra nesses casos de sexo, também fui “normal” com minhas amizades: nelas, sempre pesaram a minha opção sexual, mesmo que, para os outros isso possa parecer preconceito. Antes de tudo, é minha preferência que vale!
           Ademais, eu procuro respeitar a todos, desde que seja respeitado. Às vezes, fica difícil, claro, pois nem todos os homossexuais são resolvidos (estou falando das “meninas”). Nisso, há uma grande verdade: homossexuais mal resolvidos são uma calamidade. Pra todos. Não adianta mesmo, neném; no final, todos sabem quem é quem.  Além disso, mesmo que sexo não seja mais um conteúdo bastante polêmico, em se-tratando das “relações naturais”; como nomeava o dramaturgo gaúcho Qorpo-Santo o “papai-mamãe” de cada dia entre homem e mulher; neste novo século, a sexualidade dos homens, a despeito de toda a educação sexual já admitida pela sociedade, é algo ainda bastante desconfortante. A dita sociedade civil organizada (lembra mesmo uma partida de futebol) joga no time que defende a área da heterossexualidade com uma zaga retranqueira e porradeira. Não é à toa que muitos homossexuais (incluam-se as mulheres) procuram casar e ter filhos justamente para justificar sua condição de héteros neste mundinho heterautoritário. Certo, elelas viram papais e mamães; e o errado?
           Erra-se quando se-procura ver a situação com vistas grossas e olhares oblíquos de religiões ou organizações políticas. Essa nova geração de crianças e adolescentes nasceu dentro de um espaço em que os seres humanos começam a pesar os fatos e agir em resposta, pensando no peso do planeta Terra pra nossas vidas. Gentes com juízos um tanto diferentes pela possibilidade que encerram. Temos a oportunidade de ensinar-lhes a cidadania contemporânea do respeito às diferenças. Nada de hipocrisia. Nada de Xuxa querendo calar a Boca do Lixo metendo a mão no Bolso do Luxo. Não. Nada de igrejas querendo discutir o sexo dos homens, que discutam o dos anjos! Nada de políticos homossexuais querendo emendar as leis com censura a seus pares, tendo eles saído à noite anterior com um garoto de programa, sabendo nós que esses parlapatões parlamentares são gays que se-casam pra provar que são Homens com H! Poder de ficção. Mas, por que fazer um papel desses? Por que essa trairagem?
           Respostas tantas, a essas perguntas. Valores que precisamos estar sempre avaliando estão em cena pra serem pesados com a leveza dos humanos direitos. Todos são livres pra amar quem quiser, com ou sem sexo. Mudando de pau pra cacete (com e sem trocadilho): no caso dos héteros, por exemplo, por que pessoas casadas ou acasaladas (sem essa de bobagem de cristianismo ou qualquer Lei civil, estou escrevendo sobre ética!) ainda assediam outras pessoas, se elas podem ser livres? Comodismo? Tara? Negócios de família? Medo?  Quem sabe responde. O sexo é que, nas lutas de classe, de raça e de poder,  os desclassificados opressores dos negócios se-armam dessas taras, extasiados com a possibilidade, dados  a posição, a cor e o cargo que exercem, desejam rasgar a carne da presa, no abate, num apart hotel. Não há nada mais aviltante pras sociedades civil e comercial do que esse tipo asqueroso de gente. Que companhia ilimitada! O assédio é a sevícia do ego pelo sexo. Leiam-no em duas versões da nossa história:


Playboss: a serviço do assédio

As empregadinhas
que se-cuidem,
o sinhozinho  – 
sujo! – já comeu,
na pequena senzala,
todas as escravas;
e o patrãozinho
(tá limpo, cara!),
 aqui, na fábrica,
já “está armado”.

Quem está sendo
cuidada para ser
coitada, de quatro?
Não há câmara nupcial,
minha camarada. Ele diz:
“Não vai doer nada!”
E cuidado: tem de ser
muitíssimo macha para
denunciar essa porrada
na cara da macharada!


           Ainda bem que há muita mulher-macha-sim-senhor. Conheço tantas. Safo de Lesbos, por exemplo, que professora, que poeta, que pessoa! Ego de mona kateudo. Que passado lindo de respeito e consideração. E amor com sexo, sobre tudo. Hoje, podemos querer receber o presente;podemos discutir sem brigar, sem censurar sem censura: Maria da Penha é muitos milhares de mulheres numa identidade só. Haveremos de pensar um melhor consenso. Há de haver tanta Marcha da Diversidade. Muita Lei de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher. Há tanto que consolidar essa ética sexual nos futuros habitantes das cidades, civitas, civitates
           Contudo, mais atenção, uma macharada: onze mil e trezentas e quarenta mulheres lutaram contra machos machistas e violentos . Quem ganha? A humanidade. Leia, então, a estética, a postura e a luta de uma delas, de um grupo desses:


Mulherismo em cantiga doutros sítios

A Amazona,
nessas tribos, urbana,
fez uma plástica e tanto e res-
suscitou com silicone o seio em branco.

A Amazona,
nessas zonas, franca,
hoje, monta uma moto Honda e
tira uma onda da cara dos bobomens.

A Amazona,
nessas selvas, concreta,
vai encarar o dia em frentes e
lutará contra o homesmo de sempres!


            Que todos possam assumir seu lado sexual sem agir com hipocrisias (da política à religiosa) e que possam agir em nome do caráter educativo e de cidadania apregoado pelas sociedades contemporâneas. Que aqueles que desejam possam ser do sexo que desejam. Que, todos os anos (de todos os tipos, não somente os julianos), essa gente seja feliz. Desejos direitos e deveres. É isso que lhes-desejo.


P.S.: O texto acima não foi escrito pra carapuça de seo ninga e o roso (deixa o Rosa falar por mim) do texto, oqual, dos campos de concentração, foi sublimado às passarelas, foi usado para dar o tom carnavalesco deste trocadilho chulo: a Mangueira entrando... 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Quem brinca o pique com Gregório é ambiguidado por versos um tanto picantes; quem quer-lhe-falar abertamente, há que se-despudorar dalguma rima ou valor


A vida de Gregório de Matos e Guerra, assim como o-foi a sua produção literária, é cheia de lacunas, que, não raro, deixam seus biógrafos divergindo em algum dado. O primeiro deles é a sua data de nascimento; neste caso, de aniversário, natividade, porquanto quero homenageá-lo hoje, mesmo que seja num dia errado. Por que o-faço? Primeiro, porque estou n’atividade; mas, sobretudo, por ser 23 de dezembro o “último prazo”, já que o outro dia apontado é 20 de dezembro (conforme Pedro Calmon). O certo é que o “Boca do Inferno” nasceu em Salvador, Bahia, em 1636, ou seja, há 373 anos. 
    Apesar dessa distância, leia-se o quanto ele, ainda, está atualíssimo em tantos poemas, em particular, nos satíricos, como no soneto “A cada canto um grande conselheiro”. Nesses textos (falescrevo), a partir de leituras dos espanhóis Lope de Vega e Luís de Gôngora y Argote (sendo influenciado por eles), assume certa repulsa pela tradição do Renascimento literário aqual o soneto encerra. Em resposta ao tom petrarquizante desse tipo de composição renascentista, aparece a sátira de tradição medieval, mais mordaz (muitíssimo!) em nosso bardo da Boca de Inferno, escrita ora em célebres decassílabos, ora em velozes versos redondilhos maiores, cadenciados, algumas vezes, pela assonância das rimas toantes, herança dos romanceiros da Idade Média.
Gregório, em sua sátira, foi mesmo desconcertante, já que expunha a “cidade da Bahia” a um antinarcisismo inconveniente aos poderosos. Pra não dizer que ele não falou de prostituição infantil ou pedofilia, temas da moda (dá?), leiam um exemplo de suas profanas escrituras, no romance “Já que me põem a tormento”, para ilustrar sua atualidade temática com o tempero de sua lira maldizente:

Elas por não se ocuparem
com costuras, nem com bilros,
antes de chegar aos doze
vendem o signo de Virgo.
Ouço dizer vulgarmente
(não sei, é certo este dito)
que fazem pouco reparo
em ser caro ou baratinho.
O que sei é que, em magotes
de duas, três, quatro, cinco,
as vejo todas as noites
sair de seus esconderijos.
E como há tal abundância
desta fruta no meu sítio,
para ver se há quem as compre,
dão pelas ruas mil giros.


Parece até que Gregório acabou de vir de uma volta por aquele ponto de nossas cidades, reservados aos “negócios da carne”. É ou não é? É, porque o ser-ou-não-ser, há muito, é morto. Contudo, previno-os: Gregório foi uma criança, um adolescente e um adulto bem criado. Neto de um português, Pedro Gonçalves de Matos, teve, em parte, às mãos oque seu Pai, Gregório de Matos (ao Boca do Inferno foi acrescentada somente a Guerra!) herdou. Isso não era de pouca monta, como diria Joaquim Maria. Não. Como um colonizador que queria enriquecer na Colônia, o avô de Gregório, de empreiteiro de cargas e construção (ele tinha um guindaste que transportava mercadorias da Cidade Alta para a Cidade Baixa, em Salvador, àquela época!), passou a criador de gado, plantador de cana e senhor de engenho. O pequeno Gregório foi beneficiado com tal fartura até os quatorze anos, quando partiu para Portugal depois de estudar sete anos no Colégio dos Jesuítas. Vida privilegiada. Educação de primeira praquela época.
Em Coimbra, Gregório de Matos estuda Cânones, bacharelando-se nove anos depois, em 1661, aos vinte e cinco anos. Neste mesmo ano, casa-se com Michaela de Andrade, em Lisboa. Vida próspera, trinta e dois anos de Europa (mais da metade de sua vida vivida). Poucos percalços a este tempo: a destituição da Procuradoria da Bahia, em 1674, a morte da esposa, em 1678, e o retorno ao Brasil (que teve, sim, um caráter de pena, de desterro, para ele um quase-europeu). Escrevo isso porque algum de seus biógrafos disse que ele voltou como cônego tonsurado, ou seja, um padre que usa batina, que deve obediência à hierarquia da Igreja Católica e, pior, pra ele, que usa o cabelo tonsurado, cortado no modelito são-francisco. Foi demais pra Gregório, um golpe. Por conta disso, não foi pequena a arrogância de “Homem da Corte” com que nosso poeta enfrentou as “torpezas do Brasil”. De cara, ele não renovou seus votos. Ele decidiu que andar de batina e ter cabelo cortado como padre não caía bem numa Bahia daquelas, libertinada. Obedecer às autoridades eclesiásticas? É ruim, hém! Com isso, a perda dos cargos da administração e dos favores dos poderosos do Reino de Portugal e do Vice-Reino do Brasil; enfim, a vida na Bahia, a advocacia. Mas, sobretudo, as andanças pelo recôncavo (sozinho ou com os amigos poderosos, entre eles estava até um irmão de padre Antônio Vieira, Bernardo Vieira Ravasco), asquais levaram-ele aos poemas em tom de crônica histórica, realidade crua, à sua porta & atrás dela.
Assim, é que, na Bahia, a vida de Gregório de Matos deixa de ter a obrigação de obedecer a certos preceitos e regras da sociedade daquela época, oque não é de se-estranhar, já que, em Lisboa, ele teve um caso extraconjugal, do qual nasceu uma filha, que ele batizou com o nome de Francisca, cuja mãe chamava-se Lourença Francisca. Vixe! E isso em pleno casamento, na Corte. Como ele aprendeu tudinho! Daí, não é difícil imaginar o quanto ele aproveitou na Bahia. Como o êxtase dos portugueses ao ver as índias nuas, ele deve ter-se-extasiado com as mulatas, crioulas, negras, oque fosse (mesmo que manifestasse ferrenho preconceito racial em alguns de seus textos). Foram dez anos de vadiagem, de trocadilhos picantes como este:


MOTE: Pica-me, Pedro, e picar-te-ei


ENCONTRO QUE TIVERAM DOUS NAMORADOS

Jogando Pedro e Maria
os piques sobre a merenda,
vi, pois, que sobre a contenda
Maria picar queria:
ela, que a Pedro entendia,
disse então: aqui d’El-Rei:
Pica-me, Pedro, e picar-te-ei.

Abrasado, em vivo fogo,
Pedro, que o jogo sabia,
disse, eu te pico, Maria,
por que tu me piques logo:
disse ele, pois o teu fogo
é dos melhores que achei,

Pica-me, Pedro, e picar-te-ei

Picou Pedro, e de feição,
que a Maria fez saltar:
quis ela também picar,
pois que assim picado a hão:
picados ambos estão:
diz Maria o jogo sei,
Pica-me, Pedro, e picar-te-ei.

Pedro, que já se enfadava
de picar, queria erguer-se;
Maria quis mais deter-se.
porquanto picada estava:
disse ela que, então, gostava
do jogo, que lhe ensinei:
Pica-me, Pedro, e picar-te-ei.

(Gregório de Matos e Guerra)


        Brejeiro! Que sutileza de contenda nessa cena apresentada. Ainda bem que Gregório, mesmo tendo uma formação clássica, teve oportunidade de ler e assimilar a poesia satírica de Portugal e de Espanha. Esse gênero que, em grande parte, é tachado de maldito, talvez por conta (dos comentadores) de os poemas serem dados, assim, crus, como nestas décimas a seguir, em que o Boca do Inferno chega ao ponto de rimar Jesu(s) com cu. Que absurdo, dirão os cristãos, mas, a Gregório, nada escapa. A crueza dessa rima em u é somente pretexto pra ele pintar esta outra cena daquele século:


AO MESMO CAPITÃO FRETANDO-LHE A AMÁSIA CERTO HOMEM CHAMADO O SURUCUCU


DÉCIMAS

Passou o Surucucu,
e como andava no cio,
com um e outro assobio,
pediu a Luísa o cu:
Jesu nome de Jesu,
disse a mulata assustada,
se você é cobra mandada
que me quer ferir da escolta
dê uma volta e, na volta,
poderá dar-me a dentada.

Apenas isto escutou,
quando a boa cobra solta
deu a volta, mas a volta
não foi a que a namorou:
porque o bom Adão achou
no Paraíso, ao entrar,
sem poder a Eva falar,
jurando o seu nome em vão,
pecou no segundo então,
por no sexto não pecar.

O seu Santo nome disse
em vão: mas o capitão
perguntou a Luísa então
a causa da parvoíce:
ela, porque ele ouvisse,
toda de risinhos morta,
este mandu (disse absorta)
não repara que se implica,
marchar eu com outra pica,
tendo o Capitão à porta?

Saiba, Senhor Capitão,
que, se Luísa se fornica,
antes com homem de pica,
que com homem de bastão:
porém, se este toleirão
quiser vomitar peçonha,
livrar-me-ei dessa errônia,
pois na sua cara vejo
que terá muito de pejo,
mas tem mui pouca vergonha.

Prometeu vir do passeio,
veio como um corrupio,
eu não vi homem tão frio,
que tão depressa se veio:
sobre ser frio é mui feito;
sobre ser feio é mui tolo;
porém, se o meu portacolo
não erra, tem o magano
nos culhões muito tutano,
na testa pouco miolo.

(Gregório de Matos e Guerra)


 
        (Haroldo Vieira, da "série de mulatas".)


      
        Eita poeminha escroto! Quem for pudico, cheio de pudores, que se-retire, que esse poema é mais velho e seu verbo é torto. Maldito. Alguns dizem. Contudo, leio nesse poema toda a malícia desse bom baianeuropeu. Que rudeza delicada, essa metonímica pica aqual o poeta introduz (metáfora!) na cena com toda a força da ambiguidade: significando tanto “lança antiga” quanto “pênis”, essa palavra dá ao texto uma extravagante beleza. Que verso, este: “marchar eu com outra pica”. Como é ambígua e dissimulada essa mulata. É, só podia ser Luísa mesmo (será que é parente daquela lá de Parnaíba, Assis?). Quanta possibilidade neste “poderá dar-me a dentada” e “no toda de risinhos morta”, além de estar “absorta”. Mas também que pundonor nestes “não repara que se implica” e “livrar-me-ei dessa erronha”.
Disso se-percebe claramente o quanto de habilidade linguística tinha nosso Boca. Tradição essa, primeira, nas cantigas de escárnio e de maldizer galego-portuguesas, que também foram responsáveis pelo registro do sermo vulgaris ibérico, a fala do vulgo. Não tanto assim como o padre jesuíta José de Anchieta foi para o tupi (o primeiro a escrever-lhe uma gramática e o primeiro a escrever textos nessa língua, no caso, falas de personagens de peças de teatro), Gregório deu uma boa contribuição para o registro do léxico baiano ligado aos africanos e aos nativos brasileiros do século XVII, gravando nomes de tipos, de objetos, de costumes... Sem falar (se falar, cuidado) na linguagem chula. Essa é uma festa. Nomes pra cona (não conhece?), pro có (que pode ser atrás ou na frente), pro órgão masculino, há alguns. É uma parte muito quente de sua obra essa poesia satírica. Como ele cantou da vida baiana por uns termos tão desconcertantes.
 Porém Gregório de Matos e Guerra (1636-1695/96) nem sempre foi isso. Em sua obra, sobretudo, porque nela pesa a sua formação europeia, ele realizou, sem nenhum escrúpulo, a “imitação de modelos” de poetas portugueses e espanhóis (o que já havia feito Sá de Miranda, Antônio Ferreira e Luís de Camões com Francesco Petrarca, por exemplo), e produziu uma poesia nos moldes do Maneirismo/Barroco europeus; oque, segundo seus biógrafos, rendeu-lhe fama e prestígio em Portugal. É evidente que essa postura literária de “imitar os modelos”, tão comum àquela época, de certa forma, anulou muito a sua autoria, principalmente, por conta das “cópias, transcrições e adaptações” que fez de autores-modelo. Apesar de essa parte de sua obra ter sido muito valorizada, a meu ler, o vate baiano, na sua originalidade de “poeta maldito” (de texto e de cadeia ou, se quiser, de fato e de direito) produziu melhor na outra linha de sua poesia, a “poesia baiana” (aquela em que retratou fidelificticiamente a Bahia e suas personagens), cujo valor é originalíssimo em seu conteúdo, uma verdadeira crônica de costumes da Bahia do século XVII, e em sua linguagem, um falar popular de tom picante (com trocadilho, por favor) e “desbocado”, devido ao caráter satírico, fescenino, escatológico dos textos.
        Um Gregório incomodou muita gente, incomoda-a, porque é desconcertante mesmo, e aqui estou-me-referindo somente à sua “poesia baiana”, ler versos como estes, atualíssimos na Bahia dos carnavais dentro-e-fora-de-época: “De dous ff se compõe/ esta cidade a meu ver/ um furtar, outro foder”, referindo-se à cidade de Salvador, que àquele tempo contava com cerca de três mil casas, segundo dados da época. Se Gregório não era lá esse modelo de conduta, seu “aprendizado” na Corte, nesse “curso” tão difícil que é a sobrevivência, deu-lhe um “jogo e cintura” dotado de muita malícia, dissimulação, hipocrisia, preconceito, características que sedimentarão sua poesia erótico-satírica. Além disso, esse aprendizado deu-lhe também as instruções de como viver numa Bahia tão perigosa, cheia de jogos de interesses e de mortes. Afinal, há que sobreviver de qualquer jeito. Esse é o fim de tudo.






terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Cartão abertíssimo a Rogel Samuel em retribuição ao Diamante azul





Esta Pérola por conta do recebimento de uma pedra preciosa ofertado pelO Amante das Amazonas


Um Eu-Poeta
tira da Concha-Cachola
este Poema-Pérola

e o-dá de presente
no presente texto a alguém
bem
gente grande: seu nome revela Deus

eis a cartinha do cartão:
Irmão caríssimo Profeta de Israel
venho por Bem trazendo-te Paz

não sou eterno  

senão enquanto escrito versos –
mas gravo tal Pérola negra na branca tela

escrita primeiro
pela lívida marca do lápis grafite
carbono que dá vida fictícia à noite amada

pois primo antigo do Diamante
amado: jóia pura beleza da química
vaticina a amizade entre os pares

caridade lírica ao menos
ao mais: ofereço-te matéria Vida
esta oferta ruda da parte minha

não sou puro –
se sim seria engano –
portanto te-mostro meus compostos

em especial este
composto depois de milhões de motes
para alguém tão distante & próximo

esta Pérola – justo Juiz –
para lá de elementos de natura traduz
em sua mistura quanta humana substância





sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Em todos os cantos (das telas às bancas), um Poeta quer-se-expor a ledores de plantão



Terminados a impressão e o acabamento de Onde Humano, fico esperando somente a volta das férias para que possa agendar o lançamento, em janeiro, dessa obra, que é meu segundo livro de poemas, oqual conta com o incentivo da Lei Cultural A. Tito Filho, da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, órgão da Prefeitura Municipal de Teresina e com o patrocínio da Faculdade Santo Agostinho. Portanto, com esse gostinho de trabalho feito, começo a pensar no que farei daquipradiante.
         Estou pensando em duas possibilidades: a primeira é um livro de poemas "normal" acerca de um "tema central" a ser escolhido (disse, à primeira postagem deste texto, que havia pensado em escola, mas não o-confirmo); a segunda, um livro de poesia satírica. Quanto a este último, já tenho reunido um número bom de poemas; oque já é uma vantagem , em relação à possibilidade do primeiro projeto, pois, nesse caso, já posso iniciar a fase de leituras-e-reescrituras. Contudo, é necessário muita cautela, gosto que o caldo de galinha já venho tomando há muito tempo.
         Digo isso porque os poetas sabemos o vespeiro que é a poesia satírica. Taí Gregório, que não me-deixa mentir: quanto incomodou a seus inimigos esse poeta maldito! Bem digo: ele é o exemplo vivo (na própria carne!) de que esse gênero poético tem força contra as forcas de autoritarismos de qualquer tipo. Mesmo que, ao final de sua vida tenha-se-arrependido dalgumas coisas, não sei em que sentido, pois não é muito contrito aquele soneto Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado.
         Está escrito, portanto: se optar por levar à frente o projeto do livro de poemas satíricos, quero fazê-lo, a princípio, como uma homenagem aos poetas brasileiros que compuseram nesse gênero: de Gregório (o pai brasileiro da criança), passando por Tomás Gonzaga, Bernardo Guimarães, Luiz Gama, Juó Bananere, Chacal, até o Guru do Méier, Millôr. Quanto ao primeiro da fila, falo que, por esses dias (23/12), ele estará completando anos de nascimento, mesmo estando mortevivinhodasilva. Por ele, minha lira maldizente afino e lanço as torpezas dos inimigos dentro dos Infernos fictícios.
        

A arma do Poeta continua sendo a Boca dos Infernos

Pode o Poeta,
Ser rico,
ser pobre;
mas não é de cobre
a sua amizade –
é mais forte!  –
é honesta!

Pode o Poeta,
por palavras,
pôr pedradas
em sua fala ao inimigo,
que só irá atingi-lo
e desfigurá-lo
a metáforas!

Pode o Poeta,
andar térreo,
andar nas nuvens,
de jeito meio aéreo;
qu’inda é dos Infernos
a sua Boca de Guerra:
“Mato-os!”

Pode o Poeta,
colar de prata & pena,
colar, em seu poema,
um mote dum mestre velho,
que lerá seco o seu verbo,
pela pilhéria com veneno
aos vermes! 

Pode o Poeta,
a licença poética,
à licença dar poética 
em seu rudo verso,
que aqueles ledores
bem maldizente lerão
sua lira acérrima!

Pode o Poeta,
a mar de poesias,
amar o que le-faria
um legítimo assassino
de ficção tão atrevido,
qual toda boca
do satírico!



Cantiga para bendizer dos assassínios escritos por pena de Poeta rudo

O Poeta já assassinou  – 
entre tantas gentes  – uns infiéis,
armado de seu lápis, perfurando
quanta página em carne.
Eitadiabo!

Fez dos estilos as estacas
(afiadas pra dráculas!),
pela lâmina do estilete:
matança cinematográfica!
Eitadiabo!

Os cortes expostos nos textos,
sangrados à sequência das mortes;
as convulsões em linha parindo defuntos;
o profundo das palavras coagulando-se.
Eitadiabo!

Espalhado o horror pelos cantos,
um lamento feito música ecoando;
nas telas, nas livrarias; nas bancas;
os assassínios, a denúncia, o delito flagrante.
Eitadiabo!

A sentença escrita, processada, crítica,
é a de que o Poeta (de tantos, amizade!),
vale mais do que toda  essa canalha.
A pena é legítima: fatal, a defesa válida.
Eitadiabo!


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A África não é fraca: castigará os crimes dos agentes públicos que agem em nome próprio


            O poema a seguir teve sua primeira escritura na década de 90 do século passado; seu tema foi motivado por uma entrevista de um carioca a uma rede de TV brasileira em que se-queixava da situação vivida por ele, como voluntário da ONU, em Ruanda. Esse texto é, portanto, mais um “poema tirado de uma notícia de jornal”.
            A bandeira que hasteio nele, no entanto, não é somente a de que o continente africano, espoliado pelos europeus, tem direito a uma reparação, sobretudo financeira, de países  como França, Inglaterra e Portugal, principalmente, por conta das suas Coroas. Nada mais honesto; pois, se esses países o que certamente buscaram na África foi o lucro (mesmo que fosse traficando gente!); então, que paguem a conta do que gastaram e desgastaram no continente africano.
            Mas, não; no meu poema, eu navio (quem não navia?) a bandeira hasteada que também denuncia uma outra parte (podre, pode?): alguns países africanos ainda não conseguiram dar cabo às guerras civis, esses carniferíssimos combates entre etnias, nem à corrupção na administração pública, essa compensável burla entre os crimes dos burocratas.  
             Porisso, Quanto a esse segundo caso, o de países que “pularam a primeira fase”, a do etnocídio, e instituíram um “governo democrático” (para deixarmos ainda mais de lado a questão da “ajuda dos países ricos”), há que se-trabalhar a ética da solidariedade entre os povos, visto-ouvido-lido que é isso o preciso para cada nação ancorar em cais tranquilo. 
              Naveguemos, pois, o texto. Teste o poema:

           
onde se-reporta a um fato refugiado em dois campos na África


Quibumba um
Quibumba dois
Ruanda... uh!
vala comum

sobre a nutrição
de seus protegidos
pesam os esforços
das forças da ONU

mas o voluntário
em tom brasileiro
– fala entrevistada
mastigando um samba –

pedindo arrego
cansado de fome
de vergonha & homens
quer vir pro Leblon

bem ali ao lado                                              
da Farmácia Piauí                                            
tomar um chopinho                                        
somente unzinhos                

com fome de bola
driblando as Áfricas
e as suas cóleras
que tanto assolam

mas bem mais cruéis
tantos governantes
nem sequer as-olham
porque não importam

e isso que o repórter
diz ali-outrora
não é nada novo
pras fomes no solo

sujeitos pras leis
sujeitos do resto
sujeitos a tais pestes
por vias satélites

por desvios de verbas
incompetências guerras
negras Áfricas falecem
aos sons destes versos


    (De Teresina até o Rio, via Áfricas.)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Quem conta mais um poema canta outro canto de nova mente em outro ponto do planeta


SONETO DE REPENTE

Un soneto me manda hacer Violante,
que en mi vida me he visto en tanto aprieto;
catorce versos dicen que es soneto:
burla burlando van los tres delante.

Yo pensé que no hallara consonante
y estoy a la mitad de otro cuarteto,
mas si me veo en el primer terceto,
no hay cosa en los cuartetos que me espante.

Por el primer terceto voy entrando,
y parece que entré con pie derecho,
pues fin con este verso le voy dando.

Ya estoy en el segundo, y aun sospecho
que voy los trece versos acabando;
contad si son catorce, y está hecho.


(Lope de Vega)




Ao Conde de Ericeira, pedindo louvores ao poeta não lhe achando ele préstimo algum.

 
Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.


(Gregório de Matos e Guerra)





Tercinhos epigramáticos a vosso gabo, Rodrigo Mendes, que não sabia estar o Poeta com Gregório na garupa do poema de Lope parodiandando

Se digo Rodrigo
e, depois, trigo;
pobre rima, arrimo.

Se somente digo
um nome, Rodrigo,
firo a rima, rico!

Mas, se a penas sigo
brincando, Rodrigo;
acabei um poema!


(Luiz Filho de Oliveira)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia

F. Gilásio, "Barco no rio Parnaíba".


            Se todos cantam sua terra (e muitos eus já cantaram a sua!), por que os “poetas universais”, os “poetas federais” e até os “poetas estaduais” querem regrar a poesia de uns tantos “poetas municipais”, vilões? (sem trocadilhos, por favor). Por que querem negar essa bendita “universalidade” aos temas locais desses poetinhas menores, se ela é somente terrena, e olhe lá?
            Leiam bem oque estou escrevendo: em matérias como essa de tema de poema, eu prefiro ficar russo a seguir brasileiro. Cês esqueceram oque disse o velho escritor russo nosso amigo Leon? “Canta a tua aldeia e serás eterno”. E digo mais: Canta oque quiseres e serás o poeta do como o-escreveste! Eis aí cada metade (as partes) do tudo oque interessa: a intervenção de um artista nessa matéria prima & derradeira, que é a linguagem, a língua aqual o poeta põe pra fora, pra fazer oque sua competência linguística manda, aliada ao tratamento que ele, artista da palavra, dá aos conteúdos de sua ficção (prosa ou verso), pontos de vidas, de vivas perspectivas. Assim deve sê-lo, assim o-é! Lembra Osvaldo? “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo”. Olhos, mãos e ouvidos livres!
            Recuerdo: não vou aqui lembrar o poeta negro estadunidense Countee Cullen recebendo aquela língua na cara, daquele menino branquelo. Não, mas o-parodio, se é que alguém virá dizer que não no-posso ( vendo como é o contrário?): eu vivi os meus estudos todos, mas de tudo oque ocorreu neles, eu lembro somente, no ensino fundamental, o fato de um professor arrogante e mal preparado (e quantos ainda há por essas escolas de nosso país, sobretudo nas públicas!) me-dizer, ao questionar junto a ele um suposto erro presente no livro didático: Quem é você pra questionar um livro didático, que o autor levou anos pra fazer? Que arrogância arrotando subserviência! Pena não ter podido dizer nada a ele; eu era somente uma criança querendo participar. Aprender a lição a fim de poder ensinar outras tantas em retribuição ao sentido universal de ser humano, hermano.
            Maior pena ainda (esta, arrancada de uma asa de avião) é que aquele professor, tido como “o cara” na escola, talvez não tenha vivido o suficiente pra aprender o contrário, pois quem mo-disse (isso é em sua homenagem) foi uma professora (o contrário?) que a ninguém mais agradava, porquanto era deveras achincalhada por meus colegas de universidade; tida como “velha”, “gagá” e outras sátiras virulentas. Masporém foi ela quem me-passou esta lição de que eu poderia, sim, questionar os livros, entender-lhes as falhas, apontar-lhes os erros, poisque havia muito a ser reparado: da coerência das ideias aos aspectos gráficos (digitação, ausência/troca de imagens, informações desencontradas etc.). Que lição mais leve, mais humana (errar é...).
            A partir dessa injeção de autoestima da professora Alzair (nem sei se o nome é esse, se se-escreve assim, e isso não é desconsideração a ela, não, pois eu ainda lhe-sou muitíssimo grato por ter-me-salvado daquele inferno de não pensar ser capaz de participar), depois disso, pude recuperar oque havia perdido quando fui desestimulado por aquele “cabra despreparado”. Por conta dessa luz no início do meu túnel, vesti o meu tonel e, em seguida, pedi a Alexandre pra sair da frente de meu Sol. Quem é cínico? Oque eu quero é dizer que me-repito e aos quês porque o-quero, e ai! E pronto. Ponto-parágrafo.
            Perito, repito: não quero seguir brasileiro; brasileiro conselho de não fazer versos sobre acontecimentos, acerca de sua cidade, de seus lugares-comuns, cercados de memória; a despeito (e sem tê-lo!) de deleitar-me tanto com a poesia de Carlos (veja a intimidade, foi um deles que ma-ensinou), de Manuéis, de Joões, de Mários... Vários! Esse eco é quase inevitável para a maioria dos poetas contemporâneos (mormente os “maiores”), osquais passaram pelos bancos da educação formal. Comigo isso também acontece: sou um poeta filho da escola, vistolidouvido que, nesse ambiente (e aqui vai uma parcela de verdade de Hippolyte), pude manter contato com essa arte linguística, ligada ao teatro e à música. Contudo, como eu disse antes, quando mestra Alzair me-desipinotizou daquela postura submissa imposta por aquele “mestre de m...”, compreendi a importância (na maioria das vezes) da opinião, do juízo, da intervenção do outro, na formação de nosso próprio caráter. Clarescuro que eu sigo oque meus mestres mandaram; também passo isso a meus pupilos, discípulos, alunos, filhos... Porém, também les-repito que “o cala-boca já morreu”. Quem deve mandar na sua poesia é o próprio poeta, isso é oque interessa hoje a esses escritores contemporâneos, acredito.
            Porisso, na minha poesia, respeitados todos os meus mestres, eu não faço tudo oque eles me-ditam. Não nos-repito, arcaindo; trabalho-eles na minha língua de agorinhaquimesmo, do jeito que eu les-vivo: neologíssimos. Há de haver (por tantos) a minha parte, sobre tudo & todos eles. Minha contribuição. Sempre penso nisso quando ando a trabalhar um texto. É, devo contribuir porque devo muitíssimo a esses mestres. Outronão, eu cantarei de minhas terras tão poeticamente, que faça sentir a mente que não sente. Não nego que o tema é algo importante para aceitação do texto; todavia, em nome da poesia, o trabalho linguístico e a perspectiva sua é que fazem a diferença. Lembra o Bruxo quando disse: “a paisagem depende do ponto de vista”. Podem vir, portanto, os modernos impondo suas mortes a poetas e a poéticas, mas, poetas de todas as esferas do planeta, e, principalmente, meus bastante leitores, nunca deixarei de escrever quando a maçã cair na minha cabeça e a ideia vir de-com-força, exigindo vida, ser escrita humana, humano ARTEfato. Poemas são lugares, são fatos, vêm de alguns; nem que sejam comuns, surrados. E daí? Por que não reciclá-lo se essa postura do ecologicamente sustentável pode ser, sim, transplantada à poesia. Sustentabilidade poética: vamos usar alguns temas sem esgotá-los. Nem que seja de revestrés, veja do seu modo.
            Apesar de buscar, no meu fazer-me-poeta, essa tal de “metáfora nova”, esse criar soluções originais para a poesia; não deixo de constatar o óbvio de que alguns temas são inevitavelmente retomáveis (esgo...?) na poesia de poetas de toda a Terra e mais particularmente de nossa terra, nosso universo. O rio Parnaíba, por exemplo, oqual parece mais do Piauí que do Maranhão, a primeira vez em que ele apareceu em literatura foi num trecho do “poema filosófico” O Ímpio Confundido ou Refutação a Pigault le Brun em que se Demonstra pela Filosofia e pela História a Existência de Deus e a Verdade da Religião Católica, do poeta piauiense Leonardo da Senhora das Dores Catello-Branco, publicado em Lisboa, em 1835, 1836 e 1837.
            É evidente, pelo próprio titulo do livro, que o tema dele não é o rio Parnaíba. Como o-fez François-René de Chateaubriand em 1802, no seu Génie du Christianisme, Leonardo, nesse poema, busca um objetivo claro: provar a existência de Deus pela Filosofia e pela História (diferentemente de Chateaubriand, que provou pelas “maravilhas da natureza”). Essa ligação com o Gênio francês, pode ser evidenciada não somente pelas estadas de Leonardo na Europa, como, principalmente, pelo seu conhecimento sobre História (brasileira, portuguesa e europeia!). Assim, ao defender o cristianismo das “ofensas” de Pigault le Brun, Leonardo se coloca como um poeta de tendência romântica (lembremo-nos de que os barrocos colocavam-se como contritos, enquanto os árcades eram pagãos, em literatura), pois, em seus versos, lê-se aquela tendência “revolucionária” que os textos românticos disseminaram àquela época:

Eu Brasileiro sou. O solo habito
Que o Parnaíba rega. Pavor tive,
Hesitei; mas, enfim, deliberei-me:
Creio, animou-me invisível Ente.
Da pena lanço mão, esta obra escrevo
E o meu trabalho não baldar espero.
Se há Leitor obstinado, há também dócil:
Aquele o Vício ama e o Erro busca:
Este busca a Verdade e ama a Virtude.
Eis o homem sensato e eis com quem conto.

            É certo que Leonardo não é o “poeta do velho monge”; esse epíteto serve muito bem a outro escritor do Piauí: Antonio Francisco da Costa e Silva ou, simplesmente, Da Costa e Silva. Em poemas menores que O Ímpio Confundido, sonetos decassílabos e alexandrinos, em seu livro de estreia Sangue, de 1908, o vate amarantino ora tendo o Parnaíba como tema (Rio das Garças) ora como parte importante dele (Saudade), grava o rio de sua aldeia em sua poesia como se-ferra um gado, com autoria e autoridade. A partir de então, ele não deixa de incluí-lo como temática reincidente em sua poesia, oque justifica o epíteto acima. Mutatis mutandis (vixe!), sem nenhum exagero, esse epíteto também poderia ser atribuído naturalmente a um dos maiores prosadores da literatura brasileira em ação na atualidade, o piauiense Francisco de Assis Almeida Brasil, já que em sua obra o rio Parnaíba aparece como cenário de tantas histórias.  No premiado Beira Rio Beira Vida (1965), com que inicia a sua Tetralogia Piauiense, o Velho Monge chega a ter quase o status de personagem, pela carga dramática que encerra.
            Posto que eu não seja nascido em aldeia alguma que fosse banhada, alimentada, transportada pelo rio Parnaíba (eu sou de Campo Maior de nascimento, mas sou de Alto Longá, de vivência, meu rio é outro!), por conta da minha própria conta, faço uso da minha liberdade conquistada desde a madureza do meu quase-livre-arbítrio, e vou cantar o rio de tantos poetas, do meu canto, do meu ponto de espera da barca, no cais do Troca-troca, onde ele me-pegou de assalto e levou-me a este poema:



onde uma barca veio a poeta buscar (a mandado)


– psiu! – diz seo rio –  
vamos passear em mim
enquanto eu não vou... sim?

– sim – disse a mavioso convite (e mais disse!) –
vou embarcar assim sem a tal da catacrese – rio nativo
e navegar-te rio de muitos dito rio de minha terra
nossa! tanta terra! de tantos poetas & de gente tanta
que rio – rio – porque te-reverso uma margem apenas
emerso duma taba de imenso contentamento poti
como um piaga a desafiar-te-desafinar – rio grande

pois sei: és do filósofo antigo
o não-mesmo-rio-porque-passaste
e depois que a tua ira foi apascentada por Leonardo
– estando poeta-mentecontínua-revolucionário –
ficou mais fácil ir ter contigo ao teu catre alegorizado
mesmo agora em estado leito lento paciente porque
se canos & projetos já te-levaram as lavadeiras – rio dejeto
a largo canto canto o largo das águas em verso de monge velho

mas à margem de tuas melhores canetadas – rio verba
aquiagora levas a hidromassagem aos motéis urbanos (um caso)
onde secamente em programas as garotas falam falsas propagandas
beiravidando contra o rumo do mundo de Mundoca novamente    
e marginália mundana a cidade ainda te-reduz (o descaso)
de água e cais e caminho e mesa e banho
a esgoto latrina lixeira tema de campanhas
campanas pro dinheiro mesmo!

não mais Letes (esquece!)
nem Estiges nem Infernos  (estigmas do poético)
nestes versos te-quero música apenas: let’s play that!

e mais que o mar da costa – rio dádiva
vem e silva selvas de brisa vivas
e se o mar é longe e longo em linha
tu – rio – és doce e não amaro a toda a vida
linguagem para tudo quanto praias:
praio doce coroa & brotinhos

no averedado da verdade de teu chão – rio caminho
e em filme grave gravo estas palavras em eco
lógico: não caço garças nem choro em coro
só aporto lado a lados: leito ladino (trino) se
margem a margens (imagens emergindo)
te-desavesso os versos líquidos – rio fio

todavia se a nado não cheguei a
nada de novo sob teu céu sobre as águas
liquido: aceito passear em ti nessa barca
por onde tropica o sol destas praças
(veio)

pronto, seo moço?

(rio)



(De Teresina a Timon, sôbolo rio Parnaíba, abarcando-o.)