quarta-feira, 16 de junho de 2010

Com a bola cheia do poema passado à vista de um jogador de pilhérias




Por estes dias de Copa do Mundo, fica fácil inventar firulas com o texto, dando bola às metáforas e clichês (bola fora?) ligados ao futebol. Não quero fazer isso de novo porque já o-fiz antes de todo esse jogo sujo dos autores à procura de textos-golos (ai, português lusitano!).

O esquema armado pro meu jogo-texto foi homenagear seo Carlos, um apurado revisor de textos, que conheci durante minhas aulas, dadas a uma santa católica, chamada Maria Goretti. Doutor Carlos, com sua figura sempre presente na área da sátira, além de revisor da escola onde eu trabalhava, era um piadista sem papas na língua e com uma pontaria dos diabos. Lembro a vez em que meteu uma bola nas costas de um professor abaitolado, chamando-o de “comedor de mirindiba”. Como o professor era ruim de bola e de piada, somente entendeu a bolada depois que alguém o avisou que fora driblado. Vixe, o cabra ficou fulo, machochô. Mas o jogo ficou mesmo nesse 1 a zero, pois ele também sabia tirar o time de campo na hora exata: aquela velha técnica de pedir desculpas sendo culpado. Muito esperto de sua parte. E a piada tinha ainda sua validade na área.

Além desses ataques centroavançados, outra posição em que doutor Carlos é perito é na zaga da revisão. Contam as más línguas que ele já revisou até Machado de Assis (e não, pelo fato de sua idade avantajada, não, era mesmo na ponta da língua). Se ele não entendesse o texto, baixava o sarrafo; e bola pro mato, que o jogo é de campeonato. Havia professor que até tinha medo de disputar a bola, que diga, o texto com ele. Eu mesmo, depois de levar um amarelo dele, tive muita dificuldade pra comprovar-lhe minha não-participação na jogada: eu estava em posição legal, de acordo com a norma. Ainda bem que ele anulou sua botinada. Figuraça, esse revisor detalhista; mas tudo era em nome da jogada limpa da clareza da mensagem. Não eram assim tão faltosas as suas entradas; o jogo é que era duro, porque durava mais do que noventa minutos, cinquenta, uma aula. Pena que não pude substituí-lo quando ele já estava cansado. Contudo, joguei com ele, e me-sinto por isso entusiasmado. Vai, Carlos, vai, que o poema é seu; pois minha é aquela sua fala séria, me-alertando sobre a canalha: “Amigo reconciliado, inimigo duas vezes”.

Não foi ensaiada a minha jogada, mas revisei e reescrevi-a em muitas quadras antes de entrar em campo. Saúdo um homem que trabalha a língua, mesmo estando hoje com a saúde debilitada. Saúdo-o escrevendo-lhe esta crônica e dedicando-lhe novamente um meu poema.


veste o REVISOR  a  3 : 0  POETA ataca com a dez*

zagueiro das letras
tu jogas limpo: eu jogos surjo
sem erros e não os cem... a mil!

e se defendes
a braços e cabeça
certa língua (errado?)
e com essas defesas tuas
tu não queres deixar passar
por entre as pernas dos teus olhos
não bola mas mil e umas palavras tortas
é por ser teu toque um acorde que acorda
posto veres com todos esses cuidados pudicos
os descuidos do time postos a padrão de público
porisso vês de novo revês: seguidas segundas vezes!
visas a ver os reveses nos entraves das falas do escrito
o ciscado dum atacante na grande área da arte dos signos
o cisco em campo a trave no olho (olha o lance! tira! vixe!)
viste? se parábola passa a palavra... bola mansa na página
e se jogas acima: eu lanço mão de um recurso vivo... poesia!
por que vejas como jogo o jogo todo de fora com a língua 
entanto noutro lance encontro espaço ainda
assim passo passes passas: jogadas
a dar a tua defesa (trabalhas!)
minha linha experta
sem errada
(certo?)


(Estando perto do País do Gramática.)

* A Carlos, pelo ofício de ser um senhor revisor Leal.

2 comentários:

Suzy disse...

Que bela crônica! Tão suave e ao mesmo tempo tão séria.Você realmente nos surpreende com suas crônicas e poesias instigantes.

Luiz Brasil disse...

Ótima crônica. Arte de qualidade nas letras em época na qual a arte do futebol não é a mesma.